Coluna do Reinaldo de Almeida César: A restauração do delegado Michelotto e os ataques de Mauro Ricardo

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Em sua coluna semanal, Reinaldo de Almeida César fala da restauração profissional do ex-delegado geral da Polícia Civil Marcos Michelotto. Após ser preso sob denúncias de corrupção em 2013, ele teve as acusações arquivadas por falta de provas e agora deverá assumir a direção do Instituto de Identificação do Paraná. Reinaldo também fala sobre “a última” do todo poderoso secretário da Fazenda Mauro Ricardo que afrontou os demais poderes do Estado acusando-os de esbanjarem recursos públicos. Leia, comente e compartilhe.

Reinaldo Almeida César*

Registo aqui meu apoio e aplauso para a lúcida decisão do delegado geral e do Conselho da Polícia Civil, restaurando a dignidade pessoal e profissional do delegado Marcus Vinícius da Costa Michelotto, designando-o para a direção do Instituto de Identificação.

A decisão unânime do colegiado no Tribunal de Justiça é reta e clara. Todo procedimento instaurado em desfavor de Michelotto deve ser trancado por ausência de justa causa, nos termos do voto proferido pelo relator Marcel Rotoli de Macedo, cujos conhecimentos jurídicos e tradição familiar no Direito o iluminaram na correta decisão.

Logo, não há qualquer razão para impor a Michelotto (e sua família) uma espécie de tortura, pena ou castigo infamante, próprios do Código Filipino, que regia entre nós nos tempos do Brasil colônia.

Conheço o Delegado Michelotto há quase trinta anos.

Quando estava iniciando minha carreira no magistério, como assistente do Professor René Dotti, lecionei na turma onde ele era aluno, na Faculdade de Direito.

Nessa época, lembro-me que ele dividia os encargos do estudo universitário com a função de bancário, no Bamerindus, onde conheceu sua esposa e companheira de sempre, Cristine.

Depois acompanhei, à distância, sua trajetória de êxitos na Polícia Civil e na Secretaria de Defesa Social de Curitiba.

Faço justiça ao governador Beto Richa, ao rememorar que tive ampla autonomia e absoluta carta branca para compor minha equipe na SESP, no final de 2010.

Escolhi pessoalmente, sem qualquer sugestão, interferência ou pedido – e assumo a responsabilidade das escolhas – os comandantes da PM (coronéis Scheremetta e, depois, Bondaruk), os comandantes do Corpo de Bombeiros (coronéis Domaneschi, Donadello, Ferreira e Pombo), o diretor da Criminalística (Antonio Siqueira), do IML (Porcídio Vilanni), do Instituto de Identificação (Newton Rocha) e do GRAER (coronel Orlando Artur).

Não tive um instante sequer de dúvida quando escolhi, em decisão solitária, e apresentei ao governador então eleito, o nome de Marcus Michelotto para a direção da Polícia Civil.

O delegado Michelotto é um dos raros casos em que o policial alia sua apurada técnica a um incontido e admirável desejo de colaborar no engrandecimento da instituição a que pertence. Isso chama-se comprometimento.

Certamente ele poderia ter escolhido outra carreira qualquer, a começar pelas influências em casa, de seu pai, o honrado e competente médico cardiologista Pedro Michelotto, assim como aconteceu com seu irmão, Pedro Junior, que seguiu vitorioso pelas ciências da medicina veterinária.

Mas, não.

Por profunda vocação, enxergou-se na missão policial.

Posso dar, então, agora, um testemunho isento e verdadeiro, sobre o período em que juntos trabalhamos na SESP.

Sou testemunha de como Marcus Michelotto portou-se sempre com idealismo, capacidade operacional e administrativa, liderança e vibração, no comando da Polícia Civil.

Poucos sabem, talvez o atual delegado-geral, Julio Reis, possa confirmar, mas muitas das conquistas da Polícia Civil naqueles tempos – salariais e de estrutura – devem-se à atuação de Michelotto como delegado-geral.

Jamais tive, sobre ele, qualquer acusação, suspeita ou dúvida.

O único problema que tive com ele foi na sua posse, por ter sido ele mais aplaudido que o próprio governador, ao ser saudado com espontaneidade e entusiasmo, em reconhecimento à sua liderança, pelos policiais que lotavam o auditório da Escola da Polícia Civil, numa tarde chuvosa.

Como delegado geral, Michelotto foi um guerreiro, extremamente leal a mim, ao governador e à instituição que sempre defendeu, a Polícia Civil.

Fico feliz em ver seu retorno.

Sei que à frente do Instituto de Identificação — importante órgão que confere cidadania às pessoas e, ao mesmo tempo, é fundamental na elucidação de crimes — ele terá o mesmo sucesso e motivação que sempre teve nas funções que exerceu, gerando o merecido orgulho de seus pais Maria e Pedro, da sua esposa Cristine, de suas filhas e de seus irmãos.

Bola pra frente, Quinho.

Novo ano, novos tempos, novos desafios.

***

E eis que quando todo mundo já se acomodava na poltrona da sala, esperando o especial do Roberto Carlos a confirmar a época natalina, e o czar das burras estaduais, o secretário Mauro Ricardo, resolve balançar o pinheirinho de Natal no Centro Cívico, provocando um enorme estrago.

O todo poderoso das finanças simplesmente deu de ombros para a Constituição, as leis e as tradições republicanas que presidem as relações entre os poderes, dizendo a quem quisesse ouvir, em alto e bom sotaque carioca, que “nós temos dificuldades enormes no Poder Executivo e temos visto aí algumas ilhas de prosperidade esbanjando recursos públicos”.

Convicto do que dizia, ainda tascou, insinuando incúria na gestão dos poderes do Estado, que haveria “significativo recurso em caixa ou aplicado no mercado financeiro em detrimento da população do Estado do Paraná”.

Numa só assertiva, de cambulhada, o camerlengo do governo acusou o Judiciário, o Ministério Público, a Alep e o Tribunal de Contas de esbanjamento de recursos públicos e de solertes aplicações de dinheiro, tudo em prejuízo da população.

Pausa para respirar.

Há muito tempo não tinha visto isso.

O secretário Mauro Ricardo já frequentou o noticiário nativo e de outros lugares por onde passou, com várias declarações e decisões polêmicas.

Em sua gestão por aqui, apenas para ficar nisso, o Fundo de Investimento da Segurança Pública virou pó, tendo seus recursos drenados para o caixa geral do Estado.

Agora, no apagar das luzes de 2015, conseguiu se superar.

Resta saber se esse estilo “macho jurubeba” do secretário, para usar a expressão do impagável Xico Sá, aflorou agora por si só, ou se, essa estória é apenas uma farsa a reproduzir a imortal fábula de La Fontaine, com o macaco usando a mãozinha do gato para colher as amêndoas.

Secretários já caíram por muito menos. Afronta às instituições e à cúpula dos poderes, tudo ao mesmo tempo, em situação normal, faria o Palácio emitir uma passagem de retorno para São Paulo, ao intrépido chefe das finanças.

Aliás, meus botões, sempre revoltosos, me fazem uma pergunta que não sei responder: se o Doutor Mauro Ricardo é assim tão competente como dizem, por que Geraldo Alckmin está a desperdiçar seu talento ?

***

Desejo aos leitores um feliz e iluminado Natal, na paz de Cristo.

*Reinaldo Almeida César é delegado da Polícia Federal. Foi secretário da Segurança Pública do Paraná. Chefiou a Divisão de Cooperação Policial Internacional (Interpol). Escreve nas quartas-feiras sobre “Segurança e Cidadania”.

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