Trump recua do ataque total e abre trégua precária com Irã

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recuou na noite de terça-feira (7) do ataque total que vinha ameaçando contra o Irã e aceitou suspender por duas semanas os bombardeios, desde que Teerã reabra de forma completa, imediata e segura o Estreito de Ormuz. O fato novo da noite alivia a pressão instantânea sobre petróleo, dólar e ativos globais, mas ainda não fecha a paz.

“Com base em conversas com o primeiro-ministro Shehbaz Sharif e o marechal de campo Asim Munir, do Paquistão, nas quais eles me solicitaram que suspendesse o envio de força destrutiva ao Irã esta noite, e sujeito à concordância da República Islâmica do Irã com a ABERTURA COMPLETA, IMEDIATA e SEGURA do Estreito de Ormuz, concordo em suspender o bombardeio e o ataque ao Irã por um período de duas semanas”, anunciou Trump.

O recuo ocorreu menos de duas horas antes do ultimato de Washington expirar. A trégua foi costurada com mediação do Paquistão e, segundo a Reuters, Israel também concordou em parar sua campanha de bombardeios no mesmo período.

O problema está no outro lado da mesa. Um alto funcionário iraniano disse à Reuters que Teerã rejeita qualquer cessar-fogo apenas temporário. Para aceitar uma solução duradoura, o Irã exige fim imediato dos ataques, garantia de que eles não se repetirão e compensações pelos danos.

“Se os ataques contra o Irã forem interrompidos, nossas Poderosas Forças Armadas cessarão suas operações defensivas”, escreveu o ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi.

“Durante um período de duas semanas, a passagem segura pelo Estreito de Ormuz será possível mediante coordenação com as Forças Armadas do Irã e levando em consideração as limitações técnicas.”

Em português claro, Trump comprou tempo, não paz. A trégua reduz o risco de escalada imediata, mas preserva um prêmio alto de incerteza porque a exigência americana sobre Ormuz continua de pé e as condições iranianas seguem muito mais duras do que uma pausa de 14 dias.

O mercado reagiu como mercado reage a qualquer freada de guerra. Na abertura asiática de quarta-feira (8), o dólar caiu ao menor nível em duas semanas e o índice da moeda americana recuou 1%. Ao mesmo tempo, o petróleo despencou, com o WTI tombando 10,66%, para US$ 100,90 por barril, e os futuros em Nova York operando perto de 9% abaixo do fechamento anterior.

Mas o alívio veio depois de um susto pesado. Antes do recuo de Trump, a crise em Ormuz já havia levado preços físicos de petróleo para perto de US$ 150 por barril em alguns mercados e reforçado o temor de recessão com inflação global mais alta. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa pelo estreito.

Nem a reabertura de Ormuz, se vier, promete normalização imediata. A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos afirmou na terça que a restauração total dos fluxos pode levar meses mesmo depois do fim da guerra, mantendo um prêmio de risco sobre o petróleo ao longo do ano.

No Brasil, isso continua batendo na economia real. Distribuidoras já veem possibilidade de alta de cerca de 20% no preço do gás natural vendido pela Petrobras em maio, justamente porque os reajustes acompanham o Brent.

Brasília já se mexeu para amortecer o choque. Em março, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) zerou tributos federais sobre o diesel, criou mecanismos de subsídio e tentou segurar o repasse da disparada internacional para o frete e o campo. Ainda assim, enquanto Ormuz seguir como peça de chantagem e barganha, o risco de pressão sobre diesel, comida, gás, dólar e inflação permanece no radar.

Trump saiu do precipício na undécima hora. Só que o mundo não recebeu uma paz assinada, recebeu uma janela de duas semanas cercada de condições, desconfiança e preço de risco. Se a diplomacia falhar, petróleo, dólar e inflação voltam ao centro da crise com força redobrada.

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