Temer elogia cortes de Haddad, mas minimiza ameaça de golpe

O ex-presidente Michel Temer (MDB) voltou aos holofotes nesta segunda-feira (25) ao elogiar o pacote de cortes de gastos que o governo Lula está prestes a anunciar. Durante evento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), em São Paulo, Temer destacou a atuação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a quem classificou como uma “agradável surpresa”.

“É um bom projeto. Cortar gastos é sempre útil. Tendo um teto para os gastos públicos, você reduz a dívida pública e, consequentemente, os juros. Isso traz vantagens para o país”, afirmou Temer, ressaltando a importância de medidas fiscais responsáveis para a saúde econômica do Brasil.

O mercado financeiro esperam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Haddad anuncie cortes em gastos sociais entre hoje e amanhã (26), embora centrais sindicais e líderes da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) tenham elevado as críticas a esse pacote.

No entanto, enquanto reconhecia os avanços econômicos, o ex-presidente minimizou as recentes revelações sobre planos de golpe de Estado. Temer comparou os atos golpistas de 8 de janeiro deste ano com as manifestações contra a reforma da Previdência durante o seu governo. “Invadiram prédios agora em 8 de janeiro. Mas, no meu governo, as centrais sindicais mandaram 1.600 ônibus que incendiaram ministérios, tentaram invadir o Congresso, viraram carros, queimaram carros”, disse.

Essa comparação gera inquietação, pois coloca em paralelo manifestações sindicais legítimas com ações que ameaçaram a democracia. Ao equiparar os dois eventos, Temer parece subestimar a gravidade dos ataques às instituições ocorridos em janeiro.

Quando questionado sobre o indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e as revelações de planos para atentar contra a vida do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, Temer afirmou não ver riscos para a democracia. “Embora haja tentativas, o fato é que não vão adiante. Não há clima no país. E, convenhamos, golpe para valer, você só tem quando as Forças Armadas estão dispostas a fazer”, declarou.

Ao minimizar a participação de militares nos planos, alegando que foram “alguns militares” e não as instituições como um todo, Temer ignora a seriedade de membros das Forças Armadas estarem envolvidos em conspirações contra a ordem democrática.

Na prática, Temer repete as alegações do próprio Bolsonaro que viu “cortina de fumaça” em seu indiciamento e mais 36 pessoas.

Nos bastidores, especula-se que Temer esteja sendo cogitado como possível vice na chapa de Bolsonaro para as eleições de 2026. Essa aliança estratégica teria como objetivo atrair o centro político e buscar anistia para Bolsonaro, sinalizando um compromisso com a estabilidade institucional. A presença de Temer poderia facilitar diálogos com o Supremo Tribunal Federal, dada sua relação histórica com ministros da Corte.

Entretanto, a figura de Temer é marcada pelo estigma do impeachment de Dilma Rousseff e pela reforma trabalhista que precarizou as relações de trabalho. Sua possível união com Bolsonaro levanta questionamentos sobre os reais compromissos dessa parceria e os impactos que poderia ter na já frágil democracia brasileira.

Enquanto isso, o MDB, partido de Temer, desponta com lideranças como Helder Barbalho, indicando uma possível disputa interna que poderá definir os rumos da legenda nas próximas eleições. O afastamento do MDB da base governista de Lula, alimentado por desentendimentos recentes, adiciona mais um elemento de tensão ao cenário político.

Em meio a elogios à política econômica e minimizações de ameaças à democracia, o país observa atentamente os movimentos de seus líderes políticos.

A democracia brasileira exige vigilância constante e compromisso genuíno de seus representantes. As comparações de Temer diluem a gravidade de ameaças reais, segundo os indiciamentos da Polícia Federal na semana passada.