A Câmara dos Deputados recuou na própria sede de poder e, em vez de cassar o mandato de Glauber Braga (PSOL-RJ), aprovou nesta quarta-feira 10 uma suspensão de seis meses, numa reviravolta construída voto a voto no plenário e que expôs rachaduras na direita, no Centrão e até no PL de Jair Bolsonaro.
A mudança de rota começou quando o plenário decidiu, por 226 votos a 220, votar primeiro uma pena alternativa à cassação aprovada no Conselho de Ética. A emenda, apresentada pela bancada do PT, trocava a perda definitiva do mandato por suspensão temporária. Em seguida, a proposta foi confirmada com 318 votos a favor, 141 contra e 3 abstenções.
Na prática, o resultado mantém Glauber como deputado, mas o afasta das sessões por meio ano, com corte de salário nesse período. Era dado como certo, até poucas horas antes, que ele deixaria a Casa pela porta dos fundos, sem mandato e com risco de inelegibilidade.
Glauber foi acusado pelo partido Novo de quebra de decoro parlamentar por ter expulsado, em abril de 2024, o então militante do Movimento Brasil Livre Gabriel Costenaro, com empurrões e chutes, das dependências da Câmara. O episódio foi filmado e virou munição para a direita liberal e bolsonarista.
Em sua defesa, o deputado afirmou que reagiu depois de sofrer perseguição sistemática e ouvir ofensas contra a mãe, que estava em estágio avançado de Alzheimer e morreu dias depois. Para ele, o processo sempre teve menos a ver com o “chute na bunda”, como definiu no plenário, e mais com a postura combativa contra o orçamento secreto e contra o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL).
O Conselho de Ética aprovou em abril deste ano a cassação do mandato. Na mesma ocasião, Glauber iniciou uma greve de fome, interrompida somente após o atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), se comprometer a não levar o caso ao plenário no primeiro semestre. A promessa durou poucos meses.
Na terça 9, véspera da votação, Glauber ocupou por cerca de duas horas a cadeira de presidente da Mesa Diretora, em protesto contra a decisão de Motta de pautar sua cassação junto com o caso de Carla Zambelli (PL-SP), condenada pelo Supremo Tribunal Federal. O psolista acusou o comando da Casa de tentar criar uma “falsa simetria” entre sua conduta e a da deputada bolsonarista.
A cena que correu o país foi de ruptura institucional. Glauber conduziu a sessão por algum tempo, anunciou que não sairia da cadeira e, diante da resistência, a TV Câmara cortou a transmissão em decisão inédita. Jornalistas foram retirados do plenário por policiais legislativos, o que impediu o registro profissional da ação. As imagens da retirada forçada do deputado foram feitas por celulares, em meio a empurra-empurra no plenário e no Salão Verde.
Motta justificou a ordem apoiado em ato da Mesa que permite suspender o acesso a espaços da Câmara por “questão de segurança”. Parlamentares do campo progressista acusaram o presidente de autoritarismo, de atacar a liberdade de imprensa e de repetir, com sinal trocado, a lógica de truculência que marcou o motim bolsonarista de agosto, quando deputados da extrema direita ocuparam a mesma Mesa por mais de 48 horas.
Se a maré parecia completamente contra Glauber, a tarde de quarta mudou o jogo. Aliados do deputado começaram a costurar com setores do Centrão e de legendas de centro-direita uma saída intermediária. A chave foi transformar a cassação em suspensão por meio do Projeto de Resolução 86/25, que acabou promulgado como Resolução 32/25.
Deputados como Fausto Pinato (PP-SP) defenderam publicamente a punição menor, afirmando que a cassação seria um passo além do razoável, até pelo histórico de provocações feitas na Câmara para gerar conteúdo político. “O parlamento é plural”, argumentou Pinato, em linha com o discurso de que a pena deveria punir o excesso sem eliminar a voz incômoda do psolista.
Nos bastidores, deputados da direita chegaram a acusar a Secretaria de Relações Institucionais, comandada pela ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR), de atuar pela manutenção do mandato oferecendo liberação mais rápida de emendas parlamentares. O secretário de Assuntos Parlamentares da pasta, André Ceciliano (PT-RJ), admitiu ter telefonado para parlamentares de diversos partidos, mas negou qualquer troca de votos por verbas.
O mapa da votação revela com nitidez o alinhamento de campos políticos. PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB, PV, Rede e Solidariedade votaram integralmente pela suspensão, numa demonstração de unidade do bloco de esquerda em defesa da preservação do mandato.
O PL, legenda de Jair Bolsonaro, orientou pela cassação, mas sete deputados desobedeceram a linha oficial e votaram a favor da punição mais branda, entre eles Bibo Nunes (PL-RS), Altineu Côrtes (PL-RJ) e Helio Lopes (PL-RJ). A rebeldia custou a Nunes a vice-liderança do partido, num sinal de “ajuste de contas” interno.
O União Brasil, o MDB, o PSD, o PP e o Republicanos ficaram divididos, refletindo tensões entre setores mais conservadores e alas que temiam abrir precedente para cassações em série por enfrentamentos políticos e gestos de protesto no plenário.
Isolado, o Novo foi o único partido com 100% de votos contrários à suspensão, insistindo na cassação completa e no tom punitivista que marcou a abertura do processo contra o psolista.
Na bancada do Paraná, a divisão também espelhou o quadro nacional. Deputados do PT, do PV e do PDT votaram pela suspensão. A ala bolsonarista do PL e parte expressiva do PSD e de legendas conservadoras paranaenses votaram contra, alinhados à cassação.
No microfone, Glauber repetiu o mote que vem usando desde o início do embate: “Congresso inimigo do povo”. Para ele, ceder para se adequar às “boas maneiras” do grande acordo conservador seria uma forma de corrupção.
O deputado insistiu que enfrentou Lira, o orçamento secreto e o sistema de privilégios da Casa e que, por isso, passou a ser alvo de perseguição. Reafirmou que, para defender sua família, faria “muito mais que um chute na bunda” e apontou para a seletividade do punitivismo parlamentar, que costuma atingir vozes à esquerda enquanto absolve ou anistia golpistas.
Kim Kataguiri (União Brasil-SP), líder do MBL e aliado de primeira hora da cassação, chamou o discurso de teatro. A direita bolsonarista buscou associar a ocupação da Mesa ao motim anti-democrático de agosto, ignorando que, naquela ocasião, a própria base de extrema direita transformou o plenário em plataforma de agitação permanente.
A suspensão por seis meses é, ao mesmo tempo, uma vitória política de Glauber e um recado duro. O Congresso mostra que está disposto a enquadrar quem desafia o roteiro das elites parlamentares, mas não teve força, ou coragem, para consolidar a cassação de um deputado que vocaliza a indignação popular com o orçamento secreto, a blindagem de generais golpistas e a anistia costurada para Jair Bolsonaro.
Ao evitar a pena máxima, o plenário preserva uma voz crítica que incomoda o bloco conservador e envia sinal de que a cassação de mandato, ainda que desejada por setores autoritários, não pode virar punição automática para quem enfrenta o poder interno da Casa.
Resta saber se, ao fim dos seis meses de suspensão, o “Congresso inimigo do povo” dará lugar a um parlamento mais aberto à divergência democrática ou se seguirá usando o aparato disciplinar para tentar silenciar vozes que apontam suas contradições mais profundas.
Enquanto isso, a base social que se mobilizou em defesa do mandato de Glauber acompanha cada gesto em Brasília e cobra coerência de quem vota pela “ordem” no plenário enquanto articula anistia para os responsáveis pela tentativa de golpe de Estado. É dessa disputa, mais do que de um chute isolado, que depende a saúde da democracia brasileira.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




