“Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações, principalmente na América Latina”. – Ulysses Guimarães
A Anchúria é um maravilhoso paraíso tropical, com belas praias, fauna deslumbrante, flora abundante e um povo alegre. Ao mesmo tempo, é um lugar sem muito respeito à democracia, comandado por um governo rico, corrupto, elitista e oligárquico. É pródigo em revoluções e muita malandragem. Esta é a República das Bananas descrita pelo autor norte-americano O. Henry no livro Reis e Repolhos, que já tem mais de 100 anos.
A partir daquele livro, a expressão República das Bananas foi popularizada e entrou para a história como um termo pejorativo para qualificar nações politicamente instáveis, notadamente da América Latina. Até hoje, o nome é aplicado a todo país que se equilibra à beira do caos político ou econômico, com governantes autocráticos e despóticos que exploram a população e a riqueza nacional.
Apesar de uma certa estabilidade política nas últimas décadas, sempre há alguém no continente latino-americano pronto para nos lembrar das qualidades da República das Bananas. O protagonista da vez é o mandatário venezuelano Nicolás Maduro, que insiste em se manter no poder após uma eleição com óbvios sinais de irregularidades, que teve uma apuração obscura e um resultado sem nenhuma prova de verdade.
Numa linguagem direta, trata-se de uma fraude, porque até o momento ninguém teve acesso aos dados oficiais das atas de votação. De outra parte, pesquisas de boca de urna e análises de observadores internacionais indicam a vitória da oposição. À sua maneira, Maduro resiste, promove ações opressivas e passa recibo nas dúvidas que já existiam sobre outros processos eleitorais e sobre a democracia da Venezuela.
Maduro se agarra em teses esdrúxulas, citando conspirações internacionais contra a eleição. O ataque de hackers ao sistema de totalização do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) é uma das retóricas preferidas para sustentar a falta de relatórios confiáveis de votos. Na risível patranha construída pelo caudilho, a Nova Ordem Mundial estaria por trás das tais violações, sob o patrocínio do multibilionário George Soros. Ele também acusa Elon Musk, o império americano e narcotraficantes colombianos.
Historicamente, as eleições venezuelanas são alvo de críticas da comunidade internacional e organizações de direitos humanos. A falta de transparência embute várias práticas duvidosas, e denúncias de manipulação ocorrem na mesma proporção da crescente centralização do poder nas mãos de Maduro. Há controle sobre o CNE, o judiciário, o legislativo e as forças armadas. O regime é pródigo em restrições à liberdade de imprensa e na intimidação a opositores políticos.
A soma disso engrossa o caldo de desconfiança sobre a legitimidade do próprio governo e em 2024 a situação ficou ainda mais crítica. A disputa que permitiu a participação da oposição acabou manchada por atitudes que colocam mais dúvidas na validade do processo e enfraqueceram o Estado Democrático de Direito. O fato é que até o momento não há nenhum instrumento de aferição que assegure a veracidade do resultado alardeado.
Por tudo que está ocorrendo, é justo duvidar de qualquer discurso pregado pelo soberano de turno da Venezuela. Tristemente, sabe-se que o País naufraga num redemoinho de graves problemas econômicos e sociais, confirmados pela fuga de milhões de venezuelanos para diversas partes da América Latina, inclusive o Brasil. Neste cenário caótico, é plausível imaginar que houve uma escolha por outra via para gerir o País.
A Organização dos Estados Americanos (OEA) cobra os dados eleitorais para fazer uma manifestação sobre os resultados. O pedido é reforçado por governos europeus e pela diplomacia brasileira, para que se reconheça a vitória de algum dos concorrentes. Os Estados Unidos, por sua vez, já saudaram Edmundo González Urrutia como presidente da Venezuela.
O certo é que a transparência eleitoral é um pilar fundamental em qualquer democracia saudável. É através de eleições justas e livres que os cidadãos podem expressar suas vontades e escolhas, influenciando diretamente os rumos de seu país. Sem isso, o ceticismo se instala, criando um ciclo vicioso de desprezo pelo sistema político.
Num contexto como o da Venezuela, a comunidade internacional tem papel crucial. A pressão diplomática é importante no que tange às eleições, assim como o apoio à resiliência de organizações civis e de direitos humanos locais. Talvez seja aí que resida o maior potencial para mudanças genuínas, que revertam os desencantos da população e coloquem freio na crise intensa do País.
Ao que tudo indica, o povo da Venezuela decidiu trocar uma aparente apatia por uma reação verdadeiramente democrática, manifestada no voto e nas ruas, sem medo do “banho de sangue”. É uma demonstração de força, de quem não quer mais abandonar tudo, como vem ocorrendo nos últimos anos, para tentar a sorte longe de suas famílias, dos amigos, da sua terra e da sua história. É um não à República das Bananas.

Advogado e especialista em gestão urbana, é deputado estadual pelo PSD. Ex-secretário do Trabalho do Paraná.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Blog do Esmael.




