O centro de Los Angeles amanheceu sitiado neste domingo (8). Tropas da Guarda Nacional, agentes do Departamento de Segurança Interna (DHS) e oficiais da Imigração (ICE) transformaram a cidade em cenário de confronto aberto contra manifestantes que protestam contra as operações migratórias do governo Trump.
Foi o terceiro dia consecutivo de protestos em bairros latinos, com registro de bombas de gás, balas de borracha e repressão violenta. Cerca de 300 soldados já foram mobilizados, e ao menos oito pessoas foram presas sob acusações federais de obstrução.
A ordem para o envio da tropa partiu diretamente do presidente Donald Trump — sem autorização do governador da Califórnia, Gavin Newsom, o que rompe um delicado equilíbrio institucional.
Trump ignora governador e ordena ofensiva federal
A decisão de Trump em federalizar a Guarda Nacional da Califórnia, acionando 2.000 soldados, provocou reações duras de autoridades locais. A prefeita de Los Angeles, Karen Bass, chamou a medida de “escalada caótica” e relembrou que a última vez que presenciou a tropa nas ruas da cidade foi durante os distúrbios raciais de 1992.
O governador Newsom, por sua vez, classificou a atitude do presidente como “deliberadamente inflamatória” e alertou para o risco de militarização indevida das funções policiais locais.
Segundo especialistas, trata-se da primeira vez desde 1965 que um presidente ativa a Guarda Nacional de um estado sem o consentimento do respectivo governador para conter protestos civis. Naquele ano, Lyndon Johnson interveio no Alabama para proteger manifestantes dos direitos civis.
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Bastidores jurídicos: o que está por trás da medida
Trump se ampara no Artigo 12406 do Título 10 do Código dos EUA, que permite a convocação da Guarda Nacional em casos de “rebelião” ou “obstrução à execução da lei”. No entanto, ele não chegou a invocar a Lei da Insurreição de 1807, o que limita o escopo legal da atuação militar.
A ausência de um pedido formal por parte do governador abre caminho para contestação judicial. A própria ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis) já indicou que estuda ações com base na violação da Primeira Emenda, que garante liberdade de expressão e de reunião pacífica.
Fontes do Pentágono confirmaram que os soldados foram instruídos a proteger “propriedades federais e agentes federais”, mas ainda não está claro quais são as regras de engajamento — especialmente quanto ao uso de força letal ou detenções.
Investidas do ICE agora miram locais de trabalho
Diferentemente de fases anteriores da repressão migratória, as ações mais recentes concentram-se em batidas em empresas e restaurantes frequentados por imigrantes latinos.
Na sexta-feira (6), dezenas de agentes fortemente armados invadiram um atacado de roupas em Los Angeles e, em seguida, transferiram os detidos para o centro de detenção metropolitano, onde manifestantes se reuniram e foram violentamente dispersados. Vídeos mostram civis sendo atingidos por projéteis e gás lacrimogêneo.
A retórica presidencial também tem inflamado a situação. Trump classificou os protestos como “rebelião” e disse que se tratava de uma “invasão migrante”. Em postagem na Truth Social, escreveu: “Vamos libertar Los Angeles dessa ocupação.”
Los Angeles não é 1992 — mas Trump age como se fosse
Comparações com os distúrbios raciais de 1992 vêm sendo usadas por aliados de Trump para justificar o envio de tropas. Mas especialistas e lideranças locais discordam frontalmente.
“Naquela época, havia bairros em chamas e colapso social. Hoje, há protestos legítimos contra abusos do ICE”, afirmou Joe Domanick, autor e analista de segurança pública. “Trump está usando a crise como pretexto para militarizar a política migratória.”
Mais de 48% da população de Los Angeles é latina. Muitos agentes do próprio LAPD têm origens imigrantes — o que coloca forças de segurança em situação delicada, divididas entre ordens federais e vínculos comunitários.
Congresso reage: “militarização sem controle”
Parlamentares democratas como os senadores Alex Padilla e Adam Schiff acusaram o presidente de tentar provocar deliberadamente uma escalada com fins políticos. Schiff afirmou que Trump quer um confronto violento para justificar o uso da Lei da Insurreição ou até mesmo o estado de exceção.
Na Câmara, representantes como Nanette Barragán e José Luis Solache criticaram duramente a ação federal. “Nossos bairros não são zonas de guerra. Nossas famílias não são ameaças”, declarou Solache.
A prefeita Bass, por sua vez, cobrou que os detidos tenham direito a contato com familiares e denunciou a ausência de coordenação prévia por parte do governo federal. “Eles agiram por cima das autoridades locais. Isso é perigoso.”
Uma linha tênue entre ordem e autoritarismo
A ofensiva federal em Los Angeles é mais do que uma operação migratória. Ela simboliza uma nova etapa no projeto de poder de Donald Trump: o uso direto da força militar contra civis como ferramenta política.
A ausência de diálogo com lideranças locais, o desprezo pelas normas federativas e o uso inflamatório da linguagem apontam para um cenário de ruptura institucional crescente.
O que está em jogo não é apenas o controle das ruas, mas os próprios limites da democracia americana frente a um Executivo que age como se não tivesse freios. A tensão em Los Angeles é um ensaio do que pode vir a ser o restante do país.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




