Imigração volta ao centro da crise institucional nos EUA
O presidente Donald Trump decidiu invocar poderes raramente usados para mobilizar 2.000 homens da Guarda Nacional à revelia do governador da Califórnia, Gavin Newsom. O objetivo declarado: “restabelecer a ordem” em meio aos protestos contra operações de imigração em Los Angeles. Mas o gesto escancarou mais que uma política de deportação em marcha — reacendeu um confronto aberto com governadores democratas, colocou comunidades latinas sob cerco e ensaiou, mais uma vez, o uso do aparato militar para conter dissenso civil.
O que está em jogo: rebelião ou espetáculo?
A ordem de Trump citou o artigo 10 U.S.C. 12406, alegando que os protestos configurariam uma “rebelião contra a autoridade do governo dos Estados Unidos”. É a primeira vez desde 1965 que um presidente aciona a Guarda Nacional sem o pedido do estado. A última ocorreu durante a luta pelos direitos civis. Agora, a motivação seria conter manifestações contra uma nova ofensiva migratória do ICE (a agência de imigração).
O governador Newsom classificou a ação como “deliberadamente inflamatória”. A prefeita de Los Angeles, Karen Bass, também protestou: “Não há necessidade dessa intervenção. A cidade está sob controle.” Já a Casa Branca, via Stephen Miller e Tom Homan, tratou os protestos como “insurreição” e defendeu que a Guarda Nacional está sendo chamada para “proteger o país”.
Paramount, epicentro da resistência latina
O bairro operário de Paramount, no sudeste de Los Angeles, tornou-se o símbolo da tensão. Berço de comunidades latinas e imigrantes de baixa renda, foi ali que agentes do ICE realizaram batidas em fábricas e depósitos, incluindo lojas da rede Home Depot. As imagens da repressão correram o mundo: granadas de gás, tiros de borracha, barricadas improvisadas e policiais com máscaras táticas frente a famílias com bandeiras do México.
“Eles não vieram prender criminosos. Vieram assustar nossa gente, sequestrar trabalhadores honrados”, disse Ron Gochez, ativista de 44 anos. A diretora do grupo CHIRLA, Angelica Salas, alertou que até imigrantes com residência legal foram detidos, e que advogados não conseguiram acesso aos presos.
A escalada de Trump e o risco de militarização
Especialistas em direito constitucional consideram alarmante o uso do dispositivo legal para federalizar a Guarda Nacional sem consulta ao estado. “É uma ruptura de convenções democráticas. Trata-se de usar o Exército contra civis num estado que não pediu ajuda”, afirmou Erwin Chemerinsky, da Universidade da Califórnia em Berkeley.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, disse que tropas da ativa, como fuzileiros navais de Camp Pendleton, também estão “em alerta máximo”. O recado político é claro: Trump não pretende se submeter a governadores democratas em seu segundo mandato. “Na próxima vez, não vou esperar ninguém pedir”, já havia dito em campanha.
Do terror à criminalização da dissidência
O cerco às comunidades latinas e o uso de força militar escancaram a lógica da administração Trump para lidar com a imigração: repressão, espetáculo e intimidação. A criminalização dos protestos como “insurreição” ecoa a retórica da extrema-direita, que busca justificar medidas autoritárias sob o pretexto de segurança.
Senadores como Bernie Sanders e Adam Schiff alertaram que o precedente é perigoso. “Trump quer provocar o caos para justificar a militarização”, disse Schiff. “É o primeiro passo rumo ao autoritarismo”, completou Sanders.
Repressão como projeto de poder
A mobilização da Guarda Nacional em Los Angeles revela mais que uma política migratória endurecida: mostra um presidente disposto a confrontar a federação, atropelar os direitos civis e transformar protestos em justificativa para repressão estatal. É também um aviso — dentro e fora dos EUA — de que os próximos meses serão marcados por confrontos abertos entre federalismo democrático e o projeto de poder de Trump.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




