A Polícia Federal (PF) apontou nesta terça-feira (16) que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, bancou suítes em hotel de luxo em Lisboa para o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e para o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas. A revelação atinge o comando do Congresso, pressiona o Centrão e amplia o custo político do Caso Master em plena pré-campanha de 2026.
A análise da PF partiu de material apreendido na investigação e enviado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). As mensagens indicam que Vorcaro pediu reservas em Lisboa entre os dias 24 e 30 de junho de 2024, para ele próprio e para mais dois quartos identificados como destinados a “Ciro e Hugo”.
O episódio ocorreu no entorno do Fórum Jurídico de Lisboa, evento associado ao ministro Gilmar Mendes e conhecido nos bastidores de Brasília como “Gilmarpalooza”. A PF também identificou mensagens sobre um evento restrito organizado por Vorcaro em Lisboa, com lista fechada de convidados e preocupação com privacidade.
Hugo Motta afirmou estar tranquilo e não ver problema em ter a hospedagem paga por Vorcaro. Ciro Nogueira não havia se manifestado até a publicação desta matéria. A diferença entre fato apurado e responsabilidade política é o ponto central: não há condenação contra os parlamentares nesse recorte, mas há registro policial de benefício privado a autoridades com poder direto sobre a agenda do país.
A crise não para na Câmara. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), negou ter recebido US$ 30 milhões de Daniel Vorcaro, após essa acusação aparecer em proposta de delação. Em nota, Alcolumbre disse que jamais recebeu valores no Brasil ou no exterior e prometeu medidas judiciais.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) rejeitou na segunda-feira (15) a segunda proposta de delação premiada de Vorcaro. A decisão foi comunicada a André Mendonça, relator das investigações no STF, e seguiu a linha da PF, que também havia recusado o acordo.
Outro ponto do relatório da PF agrava a situação de Ciro Nogueira. Mensagens indicam ordem de Vorcaro para pagamento de R$ 350 mil em dinheiro vivo ao senador. A própria PF registrou que não há comprovação de que a remessa tenha sido entregue a Ciro, o que obriga tratamento jornalístico preciso: há indício apontado pela investigação, não prova pública de recebimento.
A investigação também expôs uma face paralela do grupo de Vorcaro. Segundo a PF, o banqueiro teria mobilizado um grupo privado para simular um flagrante envolvendo drogas contra o ex-jogador da NBA Ronald Fred Seikaly, ex-marido de sua então namorada. A defesa de Vorcaro não respondeu publicamente sobre esse ponto.
Na frente judicial, a Segunda Turma do STF manteve por maioria as prisões de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, e de Felipe Cançado, primo do ex-banqueiro. Gilmar Mendes votou para substituir a prisão do pai por domiciliar e soltar o primo, mas ficou vencido.
O Caso Master deixou de ser apenas uma investigação sobre um banco. O que aparece nos documentos é a interseção entre dinheiro, acesso, hospedagens, viagens, Congresso, Judiciário e tentativa de delação. A consequência política é simples: o Centrão, que costuma vender estabilidade, agora precisa explicar proximidade com um personagem investigado por fraude financeira.
No Paraná, a crise chega por tabela. PP, Republicanos e União Brasil são partidos que negociam palanques, Senado e alianças estaduais para 2026. Quem pedir voto em nome de gestão, moralidade ou renovação terá de responder se cobra investigação completa ou se prefere tratar o Caso Master como ruído de Brasília.
O eleitor não precisa dominar o juridiquês da colaboração premiada para entender o conflito. Um banqueiro investigado aparece, segundo a PF, pagando hotel para chefes políticos. Um senador nega acusação milionária. A PGR rejeita delação. O STF mantém prisões. E o Congresso volta a ser arrastado para o centro de uma investigação que mistura poder, dinheiro e proteção política.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




