Um documento da Polícia Federal (PF), revelado pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira, 25 de setembro, acrescenta uma nova trilha ao rastreamento financeiro relacionado a Dark Horse: a produtora Go Up Entertainment recebeu R$ 2,614 milhões da empresa Conhecer Brasil Assessoria Produção e MKT Cultural, a GO 7. A mesma GO 7 recebeu R$ 1 milhão do Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade abastecida por emendas parlamentares investigadas pela PF.
A informação amplia o mapa de movimentações em torno da produtora do filme sobre Jair Bolsonaro. Mas há um limite decisivo: os documentos divulgados não permitem afirmar que o R$ 1 milhão recebido pela GO 7 do ICB seja exatamente o dinheiro posteriormente ou anteriormente transferido à Go Up. A PF investiga a circulação dos recursos entre empresas e entidades relacionadas, mas a origem final de cada parcela ainda precisa ser demonstrada.
Segundo o documento citado pela Folha, os R$ 2,614 milhões saíram da GO 7 para a Go Up entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. Já os R$ 1 milhão enviados pelo ICB à GO 7 foram recebidos entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026. A GO 7 também aparece como destinatária de R$ 54 mil em gastos da campanha eleitoral de Mário Frias (PL-SP) em 2022.
O fluxo factual registrado até aqui pode ser resumido assim: ICB → GO 7: R$ 1 milhão; GO 7 → Go Up: R$ 2,614 milhões; campanha de Mário Frias em 2022 → GO 7: R$ 54 mil. As datas e os valores são dados bancários citados na investigação. A conclusão de que esses recursos formariam uma única cadeia de dinheiro público destinada ao filme é hipótese investigativa, não fato estabelecido.
Esse cuidado é especialmente importante porque os períodos apenas se sobrepõem parcialmente. A GO 7 começou a transferir recursos à Go Up em novembro de 2025, enquanto os pagamentos do ICB à GO 7 aparecem a partir de dezembro. O cruzamento chama a atenção da investigação, mas não autoriza somar os valores nem tratá-los como se fossem necessariamente o mesmo dinheiro.
A investigação que resultou na Operação Make Up apura suspeitas de desvio de recursos provenientes de emendas parlamentares. O Supremo Tribunal Federal (STF) informou em 10 de setembro que os valores teriam sido destinados ao ICB e à Academia Nacional de Cultura (ANC), entidades presididas por Karina Ferreira da Gama, por meio de emendas apresentadas por Mário Frias, e que a PF investiga se parte dos recursos foi desviada para outras finalidades, entre elas a produção de Dark Horse.
O novo recorte publicado pela Folha vai além da GO 7. O documento aponta que R$ 2 milhões em emendas destinadas aos projetos “Lutando pela Vida” e “Jovem Empreendedor” podem ter percorrido empresas ligadas a pessoas relacionadas ao conjunto investigado. Entre os pagamentos citados estão R$ 80 mil do ICB à LF&P Consulting, de Fábio Lago Meirelles, advogado de Frias, e R$ 151.427,13 do instituto à Aguilera Martinez Sociedade de Advocacia.
Outra empresa citada é a Complexsys. Segundo a Folha, ela recebeu ao menos R$ 154 mil de Mário Frias por meio de recursos de cota parlamentar entre setembro de 2024 e abril de 2026. Em um dos períodos analisados, a empresa recebeu R$ 5 milhões do ICB e transferiu R$ 2,626 milhões à ANC, além de outros pagamentos registrados no relatório. A PF analisa essas movimentações dentro da hipótese de circulação de recursos entre pessoas jurídicas inter-relacionadas.
O repasse de R$ 645,4 mil feito diretamente por Mário Frias à Go Up não constitui novidade desta sexta-feira. Essa movimentação foi divulgada em 10 de setembro. Também já era conhecido o pagamento de R$ 750 mil da NTT Brasil à produtora, depois de empresas relacionadas ao mesmo grupo terem recebido R$ 700 mil do ICB. A novidade agora é a entrada mais clara da GO 7 na trilha financeira examinada pela PF.
Mário Frias nega irregularidades. À Folha, o deputado classificou a operação realizada em 10 de setembro como uma “cortina de fumaça” no período eleitoral. Karina Gama também nega ilícitos e sustenta que investigação não equivale a acusação ou condenação. O advogado Diego Aguilera Martinez afirmou ao jornal que os serviços prestados ao ICB foram realizados e eram lícitos. A Complexsys informou que refuta as imputações e que responderá no processo.
A Operação Make Up cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em 10 de setembro, após autorização do ministro Flávio Dino, do STF. A apuração envolve suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes em contratações. Nenhuma dessas suspeitas representa, por si só, condenação dos investigados.
Há ainda outra trilha envolvendo Dark Horse, mas ela precisa permanecer separada. Em 24 de setembro, o Blog do Esmael mostrou que Antonio Carlos Freixo Júnior, personagem da investigação sobre recursos enviados pela Entre Investimentos ao Havengate Development Fund, foi alcançado pela Operação Crédito Oculto. A operação da Receita Federal e do Gaeco não declarou Dark Horse como seu objeto, e não há base documental pública para fundir as duas investigações.
A nova peça, portanto, é financeira e específica: a PF acrescentou a GO 7 ao caminho do dinheiro que chegou à produtora de Dark Horse. O próximo ponto probatório é determinar a origem dos R$ 2,614 milhões transferidos à Go Up e estabelecer, com documentação bancária, se alguma parcela corresponde efetivamente a recursos públicos recebidos pelo ICB.
Acompanhe o Blog do Esmael para as novas movimentações das investigações sobre o financiamento de Dark Horse.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




