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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mudou o tom sobre o caso Dark Horse nesta quarta-feira (26) e saiu em defesa do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro. Em entrevista a jornalistas, Tarcísio afirmou que as explicações apresentadas pelo senador sobre a relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, são suficientes e que considera o episódio esclarecido, caso não apareça fato novo.
“Acho que ele já deu explicações. Se nenhum fato novo aparecer, eu acho que está tudo esclarecido”, afirmou Tarcísio.
A declaração marca uma mudança em relação à posição adotada pelo governador em maio. Naquele momento, Tarcísio dizia que Flávio Bolsonaro tinha “muitas questões” a explicar sobre sua relação com Vorcaro e cobrava esclarecimentos públicos sobre o episódio.
Agora, a defesa pública ocorre justamente quando o caso voltou a ganhar força no ambiente eleitoral.
Tarcísio mudou o discurso
Em 26 de maio, Tarcísio havia afirmado que Flávio Bolsonaro precisava explicar a relação com Vorcaro e a visita ao banqueiro. O governador classificou o episódio envolvendo o Banco Master como um escândalo que exigia esclarecimentos.
Três meses depois, a avaliação é outra.
Tarcísio não apenas considerou suficientes as explicações de Flávio Bolsonaro como também vinculou sua defesa ao argumento de que, na ausência de novos fatos, o assunto deve ser considerado encerrado.
A mudança ganha peso político porque Tarcísio é candidato à reeleição em São Paulo e um dos principais apoiadores da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Na mesma entrevista, o governador afirmou apostar no crescimento de Flávio Bolsonaro em São Paulo e disse acreditar que o estado poderá ser decisivo para uma eventual virada na disputa presidencial.
O problema é que a investigação não terminou
A declaração política de Tarcísio não encerra as investigações.
Na segunda-feira (24), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal (PF) a acessar dados obtidos pela Polícia Civil de São Paulo em uma operação que atingiu a produtora Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse. O material inclui documentos e elementos da investigação sobre possíveis irregularidades envolvendo recursos públicos e a produção do filme.
Na terça-feira (25), o Blog do Esmael mostrou que a PF passou a ter acesso ao material bruto da investigação paulista, ampliando o campo de apuração sobre a produtora e o financiamento do longa.
A medida inclui dados extraídos de equipamentos e registros da cadeia de custódia das provas.
Ou seja: politicamente, Tarcísio considera o caso esclarecido. Investigativamente, a apuração continua.
A perícia não rastreou a origem do dinheiro
O ponto mais delicado apareceu justamente nesta quarta-feira.
A perícia privada contratada pela Go Up Entertainment concluiu que o filme consumiu cerca de R$ 75 milhões e não identificou uso de recursos públicos brasileiros na produção. Mas o próprio responsável pelo trabalho esclareceu que a perícia não rastreou a origem dos recursos que passaram pelo fundo Havengate Development, dos Estados Unidos.
Essa distinção é importante.
Uma coisa é verificar quanto o filme custou e analisar os pagamentos realizados pela produção. Outra é reconstruir a origem do dinheiro antes de chegar à estrutura utilizada para financiar o longa.
O laudo, portanto, não responde sozinho à pergunta sobre a origem dos recursos associados a Vorcaro.
O próprio Blog do Esmael publicou nesta quarta-feira que a perícia não acompanhou o caminho do dinheiro depois que os recursos chegaram às empresas envolvidas na produção.
R$ 61 milhões no centro da disputa
O caso ganhou dimensão nacional depois da divulgação de mensagens que mostram Flávio Bolsonaro pedindo recursos a Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse.
Segundo as reportagens publicadas sobre o episódio, a negociação chegou a R$ 134 milhões, enquanto R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos pelo banqueiro.
Flávio Bolsonaro afirma que o filme é uma produção privada e que não houve contrapartida pública.
Na segunda-feira (24), ao ser novamente questionado sobre a falta da prestação de contas prometida, o candidato respondeu que a imprensa deveria “parar no tempo” e voltou a sustentar que o longa é um projeto privado.
A produtora também afirma ter apresentado sua prestação de contas à Polícia Civil.
Mas a documentação disponível publicamente ainda não detalha toda a cadeia de financiamento, nem resolve a origem dos recursos movimentados pelo fundo estrangeiro.
Defesa eleitoral entra em cena
A mudança de Tarcísio acontece em um momento particularmente sensível para Flávio Bolsonaro.
A eleição presidencial já começou a transformar o caso Dark Horse em tema de campanha. Flávio Bolsonaro tenta deslocar o debate para acusações contra o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto adversários exploram a relação com Vorcaro e a falta de detalhamento público sobre os recursos.
Tarcísio adotou exatamente essa linha nesta quarta-feira.
Depois de defender Flávio Bolsonaro, o governador afirmou que há “muita gente” que precisa prestar esclarecimentos e citou investigações relacionadas ao governo Lula.
A fala, portanto, não foi apenas uma avaliação jurídica ou administrativa sobre Dark Horse. Ela ocorreu dentro da disputa política nacional.
Tarcísio passou de cobrador de explicações a defensor público de Flávio Bolsonaro justamente quando a candidatura presidencial do PL tenta consolidar-se em São Paulo.
O que muda para Flávio Bolsonaro
A declaração oferece a Flávio Bolsonaro um importante escudo político.
Tarcísio tem peso eleitoral em São Paulo e, ao assumir publicamente que considera o caso esclarecido, sinaliza ao eleitorado aliado que pretende tratar Dark Horse como assunto superado, salvo se surgirem novos elementos.
Mas existe uma diferença entre uma questão ser considerada encerrada por um aliado político e uma investigação ser formalmente concluída pelas autoridades.
No caso Dark Horse, a segunda situação ainda não ocorreu.
A PF acaba de obter acesso ampliado às provas produzidas pela Polícia Civil paulista. E a própria perícia apresentada pela produtora admite uma limitação relevante: não rastreou a origem dos recursos do fundo estrangeiro apontado como responsável por parte significativa do financiamento.
Por isso, a frase de Tarcísio produz um novo fato político, mas não substitui a apuração documental.
A questão central agora deixa de ser apenas o que Flávio Bolsonaro diz sobre Dark Horse. Passa a ser quanto tempo a defesa política de Tarcísio conseguirá sustentar a tese de que o episódio está esclarecido enquanto PF e STF avançam sobre as provas.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




