O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. voltou a jogar com os dois pés em 2026, e isso explica por que o aceno de saída do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) é menos drama e mais cálculo eleitoral, do tipo que ele domina há décadas. A tensão, relatada por interlocutores, cresceu nas últimas semanas, com especulações de que Kassab pode deixar a Secretaria de Governo e Relações Institucionais até abril, na janela em que a política troca de pele.
Kassab está sendo Kassab: ocupa espaço em todas as canoas possíveis, ora flerta com o presidente Lula (PT), de olho nos cargos e na influência que o PSD mantém no governo federal, ora preserva o vínculo com Tarcísio, porque São Paulo é a vitrine do centro-direita e a maior máquina estadual do país.
O detalhe jurídico que dá régua a esse teatro é a elegibilidade. A desincompatibilização não é uma formalidade, é condição objetiva. E o prazo varia conforme o cargo pretendido: para secretário de Estado, o TSE registra que deve ser de seis meses para cargo de vice-governador.
Como o primeiro turno está marcado para dia 4 de outubro próximo, seis meses antes cai no início de abril, o que ajuda a entender por que “até abril” virou mantra no entorno, especialmente se o plano envolver uma candidatura proporcional ou um redesenho mais amplo de alianças.
No plano partidário, há outro relógio correndo: a janela partidária de 30 dias, fixada de 6 de março a 5 de abril, quando parlamentares podem trocar de sigla sem perder mandato. É nesse corredor que Kassab tenta “cozinhar o galo”, porque uma decisão antecipada pode provocar debandada no PSD, partido que abriga uma maioria com inclinação governista em Brasília e, ao mesmo tempo, um pedaço expressivo mais à direita, com peso no Sul.
O suposto desgaste com Tarcísio passa justamente pelo “apetite” de Kassab para ampliar o PSD dentro da base paulista, atraindo prefeitos e deputados e irritando aliados do governador. O vice também virou guerra interna: Kassab disputa espaço com o atual vice-governador Felício Ramuth (PSD) e com André do Prado (PL), presidente da Alesp, que tem mais cara de “bode na sala” de Kassab.
Nesse caldeirão, o bolsonarismo tenta impor um freio de bridão no presidente nacional do PSD. O medo é direto: com Kassab na vice de Tarcísio, ele teria margem para fazer jogo duplo e, na hora H, reduzir a entrega do palanque paulista ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). O histórico de Kassab, sempre aberto a pactos com o Planalto, alimenta a desconfiança.
Os sinais públicos dessa fricção já apareceram. Kassab, em entrevista recente, disse que uma coisa é lealdade, outra é submissão, ao comentar a relação de Tarcísio com Jair Bolsonaro (PL). Tarcísio rebateu, negando qualquer submissão.
O que os bolsonaristas pretendem para amarrar Kassab ao projeto de Flávio passa por duas chaves, segundo bastidores de Brasília: a primeira seria filiar Tarcísio ao PL, para reduzir a autonomia partidária do governador e “fechar” a porteira do PSD no Planalto; a segunda, ainda mais agressiva, seria empurrar a decisão da vice para a undécima hora, usando a indefinição como instrumento de controle.
É por isso que Tarcísio e Kassab ficam ensebando. A chapa Tarcísio-Kassab, se anunciada cedo, resolve São Paulo, mas pode implodir o PSD nacional na janela partidária. Uma definição antecipada empurra parlamentares do PSD para fora, seja em direção ao governo Lula, seja em direção ao bolsonarismo, dependendo do estado e do interesse local. A indefinição, ao contrário, mantém todo mundo em suspenso e preserva a bancada.
Nesse mesmo jogo, Kassab mantém três “presidenciáveis” do PSD em banho-maria, Ratinho Júnior (PR), Eduardo Leite (RS) e Ronaldo Caiado (GO), como demonstração de força e como seguro contra a polarização. Nesta sexta (27), em São Paulo, haverá uma reunião com esses nomes como recado interno de que o PSD será peça relevante em 2026.
Se houver candidatura própria, o Blog do Esmael já observou que ela só se sustenta com algum grau de anuência do Planalto, nem que seja tácita, porque o PSD depende de espaços e acomodação federativa. E aqui entra o cálculo cru, sem firula: uma candidatura de Ratinho ao Planalto, por exemplo, não é só vaidade, é drenagem de votos no campo conservador, especialmente no Sul, com potencial de desidratar o projeto de Flávio.
No fim, os “pés largos” de Kassab não são indecisão, são método. Ele alonga o tempo para maximizar poder de barganha, proteger a bancada na janela partidária e manter portas abertas com Lula e com Tarcísio, enquanto o bolsonarismo tenta cercá-lo para evitar surpresas no palanque paulista. A política de 2026, mais uma vez, vai ser decidida menos por declarações e mais por prazos, filiações e o controle do vice.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




