A patente da semaglutida, princípio ativo de Ozempic, Wegovy e Rybelsus, caiu nesta sexta-feira (20), mas o paciente brasileiro ainda não verá caneta nacional aprovada nem desconto imediato na farmácia. A Anvisa não liberou nenhum concorrente até agora e há ao menos 15 pedidos aguardando análise, o que adia o efeito prático do fim da exclusividade.
O ponto central é este: acabou o monopólio jurídico, não a carestia. Em janeiro, o STJ fechou a porta para a tentativa da Novo Nordisk de estender a patente por mais 12 anos, mantendo a regra de 20 anos contados do depósito e reforçando o entendimento de que a proteção temporária não pode se sobrepor ao acesso coletivo a medicamentos.
Na prática, o mercado foi aberto, mas a fila regulatória continua de pé. A própria Anvisa informou, ainda em 2025, que daria prioridade aos registros de semaglutida e liraglutida, com preferência para pedidos com fabricação no Brasil. A agência também avisou que esse tipo de processo está entre os mais desafiadores da área, porque exige comparabilidade laboratorial extensa e, em alguns casos, estudos de imunogenicidade.
É por isso que a queda de preço não será automática. Reportagens publicadas nesta sexta-feira (20) mostram que o consumidor não deve esperar uma versão barata “no dia seguinte” ao fim da patente. Há projeções mais otimistas apontando chegada das primeiras canetas até junho, mas análises mais cautelosas falam em impacto relevante nos preços só entre seis e 18 meses depois, conforme novos fabricantes forem entrando no mercado.
A corrida mais adiantada, hoje, passa por laboratórios como EMS e Ávita Care. No caso da EMS, o projeto industrial já vinha sendo preparado havia meses. Em agosto de 2024, o Ministério da Saúde informou que a empresa pretendia produzir semaglutida em Hortolândia (SP) e que o pedido de registro já havia sido submetido à Anvisa.
Mas o Brasil ainda não tem uma alternativa nacional aprovada nas gôndolas. E há outro freio importante: em 2025, a Anvisa barrou a manipulação e a importação de semaglutida sintética enquanto não existir medicamento registrado com esse ingrediente farmacêutico ativo. Traduzindo: o fim da patente não abriu um liberou-geral regulatório.
O debate, portanto, vai muito além da farmácia de shopping. Se a concorrência vier de verdade, o jogo do SUS pode mudar. A Conitec decidiu não incorporar a semaglutida para a indicação avaliada em pacientes com obesidade grau II e III, sem diabetes, a partir de 45 anos e com doença cardiovascular estabelecida. No relatório final, o órgão apontou impacto orçamentário bilionário em cinco anos e manteve a negativa. Ao mesmo tempo, o Ministério da Saúde disse que a queda de preços é fator “determinante” para reabrir essa discussão.
Há ainda uma segunda camada nessa história: a popularização das canetas vem puxando novos alertas de segurança. O chamado “bafo de Ozempic” não é diagnóstico médico formal, mas já aparece em relatos clínicos e no radar de dentistas. A American Dental Association registrou relatos de mau hálito, cárie e inflamação gengival entre usuários de agonistas de GLP-1. Uma série de casos publicada no PubMed descreveu hipossalivação associada ao uso de semaglutida.
O mecanismo provável passa por boca seca, refluxo, arrotos e, em alguns casos, cetose. A literatura de divulgação médica ainda pede cautela, porque a ligação direta entre a droga e o mau hálito não está fechada por estudos robustos, mas especialistas já tratam o tema como um alerta plausível, sobretudo quando há desidratação, náusea, vômito e piora da higiene bucal ao longo do tratamento.
Em resumo, o fim da patente foi uma virada importante, mas ainda não entregou aquilo que o mercado vendeu ao público. A caneta mais barata continua no terreno da promessa, o SUS ainda esbarra no custo, e o uso crescente desses medicamentos exige mais acompanhamento médico e odontológico, não menos. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




