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A manifestação da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Paraná (OAB-PR), pedindo o afastamento cautelar do ministro Alexandre de Moraes e a suspeição do procurador-geral da República, Paulo Gonet, acrescenta uma nova arma narrativa à disputa pelas duas vagas do Senado no Paraná. O efeito eleitoral mais direto tende a alcançar os candidatos que já transformaram a relação entre Congresso e Supremo Tribunal Federal (STF) em eixo de campanha, mas o documento também cria um problema para adversários que tentam ocupar o mesmo espaço.
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A OAB Paraná aprovou por unanimidade, em 3 de setembro, documento no qual afirma que os fatos relacionados ao caso Banco Master são graves o suficiente para comprometer a credibilidade das investigações enquanto Moraes e Gonet permanecerem no pleno exercício de suas funções. A entidade ressalvou que não está antecipando juízo sobre eventual ilícito.
No caso de Moraes, a OAB-PR defende o afastamento cautelar até o encerramento da apuração. Em relação a Gonet, pede o reconhecimento da suspeição para atuar na Petição 16.662/DF e nos feitos correlatos ao caso Master. Também solicita que a condução da apuração passe ao vice-procurador-geral da República ou, se Gonet não reconhecer voluntariamente a suspeição, que a questão seja submetida ao Conselho Superior do Ministério Público Federal.
É justamente aí que o documento deixa de ser apenas uma manifestação corporativa e passa a ter peso no ambiente eleitoral paranaense.
A campanha para o Senado é particularmente sensível a esse tipo de assunto porque o eleitor escolherá dois nomes. Diferentemente de uma eleição majoritária de vaga única, cada candidato precisa construir uma primeira preferência e, ao mesmo tempo, disputar o chamado voto complementar de quem pretende combinar nomes de campos políticos diferentes.
A pesquisa Paraná Pesquisas divulgada em 3 de setembro mostra a dimensão dessa disputa. Deltan Dallagnol (Novo) aparece com 30,8%, Alexandre Curi (Republicanos) tem 28,4%, Gleisi Hoffmann (PT) soma 25,7% e Filipe Barros (PL) chega a 22,9%. Cristina Graeml (PSD) marca 14,4%, enquanto Dr. Rosinha (PT) registra 13%.
O levantamento ouviu 1.280 eleitores presencialmente em 56 municípios entre 31 de agosto e 2 de setembro, com margem de erro de 2,8 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Como são duas vagas, cada entrevistado podia indicar até dois candidatos. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número PR-03399/2026.
Portanto, a fotografia não autoriza concluir que já estejam definidos os dois eleitos. As distâncias entre Deltan, Curi, Gleisi e Filipe são suficientemente estreitas para que a narrativa tenha importância política, embora uma pesquisa isolada não permita medir o efeito eleitoral da manifestação da OAB-PR.
Quem pode ganhar com a nova narrativa

O beneficiário mais evidente, em termos de discurso, é Deltan Dallagnol.
O ex-procurador construiu sua trajetória política justamente sobre o discurso de combate à corrupção e defesa das instituições de controle. A manifestação da OAB Paraná oferece, sem que a entidade tenha declarado qualquer apoio eleitoral, um argumento externo para a tese de que a crise envolvendo o Banco Master deve ser investigada e de que autoridades eventualmente relacionadas ao caso não deveriam conduzir a própria apuração.
Há ainda uma circunstância adicional: a candidatura de Deltan ao Senado continua sob julgamento do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR). A relatora Vanessa Jamus Marchi encerrou a fase de produção de provas e encaminhou o processo para julgamento após a manifestação da Procuradoria Regional Eleitoral.
Isso torna o cenário mais complexo. Quanto mais a campanha de Deltan conseguir transformar a eleição em uma disputa sobre instituições, Justiça e combate à corrupção, maior a possibilidade de reforçar a identidade política que o candidato tenta apresentar ao eleitorado. Mas isso não resolve, por si só, o problema jurídico de sua candidatura.
Filipe Barros (PL) também pode explorar o episódio. O deputado disputa a segunda vaga dentro do campo da direita e tem interesse direto em manter no debate a fiscalização do STF e a crítica ao ministro Alexandre de Moraes. A narrativa da OAB-PR pode ser usada para tentar apresentar a pauta não apenas como uma bandeira bolsonarista, mas como uma questão institucional defendida por uma entidade jurídica.
Esse é um ganho narrativo importante para Filipe porque sua campanha precisa disputar espaço com Deltan dentro do mesmo eleitorado.
A manifestação também alcança Alexandre Curi, mas por outro caminho.
O candidato do Republicanos já havia defendido, em entrevista publicada em 2 de setembro, o afastamento de Moraes e afirmado que votaria pelo impeachment de ministros do STF envolvidos em irregularidades caso fosse eleito senador.
A posição da OAB-PR, portanto, fornece a Curi uma espécie de validação institucional de uma bandeira que ele já havia adotado. O candidato pode argumentar que a crítica a Moraes não pertence exclusivamente ao bolsonarismo e que o debate sobre limites, fiscalização e responsabilidade de ministros do Supremo ultrapassou o campo da direita.
Esse movimento é relevante porque Curi está entre os líderes da corrida. Com 28,4% na Paraná Pesquisas, ele aparece apenas 2,4 pontos atrás de Deltan e 2,7 pontos à frente de Gleisi, diferenças que não devem ser tratadas como vantagens estatisticamente conclusivas diante da margem de erro de 2,8 pontos.
Gleisi tem uma saída, mas precisa sustentar a linha

Gleisi Hoffmann (PT) está em uma posição diferente.
A candidata já afirmou em 1º de setembro que não vê problema na abertura de processos de impeachment contra ministros do STF caso exista crime que justifique a medida. Segundo Gleisi, cabe ao Senado processar e julgar ministros da Corte e, se houver processo instaurado, ela afirmou que analisaria o caso.
Isso reduz o espaço para uma eventual tentativa de apresentar Gleisi como alguém que simplesmente protegeria Moraes por pertencer ao campo político de Lula (PT).
Ao mesmo tempo, a declaração da petista é condicional: ela fala em impeachment caso exista crime. A OAB-PR, por sua vez, não declarou que Moraes ou Gonet cometeram crime. O documento sustenta que a gravidade dos elementos conhecidos justifica cautela para preservar a credibilidade da investigação.
Essa diferença precisa ser preservada na campanha.
A OAB Paraná não disse que Moraes é culpado. Também não afirmou que Gonet praticou irregularidade. A entidade pediu medidas cautelares e afastamento funcional enquanto a apuração prossegue.
É nesse intervalo entre fato, acusação, investigação e discurso eleitoral que a disputa pelo Senado pode ganhar temperatura.
O problema para a direita é dividir a mesma bandeira

A ironia eleitoral é que uma narrativa favorável a Deltan e Filipe pode também beneficiar Curi.
Os três têm interesse em ocupar, com intensidades diferentes, o eleitor que considera o enfrentamento ao STF uma prioridade. Se todos explorarem a mesma pauta, o efeito não necessariamente será concentrado em um único candidato.
Esse é o dilema da direita paranaense.
Deltan possui a marca da Lava Jato e do combate à corrupção. Filipe tem a identidade bolsonarista e a defesa de uma agenda mais dura contra o Supremo. Curi tenta ocupar uma posição de direita institucional, combinando a crítica a Moraes com a defesa de uma atuação política vinculada ao Paraná.
A OAB-PR oferece munição aos três, mas não escolhe qual deles ficará com o voto.
A situação é ainda mais relevante porque a pesquisa mostra quatro nomes separados por menos de oito pontos percentuais: Deltan, Curi, Gleisi e Filipe. Como o eleitor pode escolher dois candidatos, uma campanha pode crescer não apenas tirando votos do adversário, mas tornando-se a segunda escolha de eleitores que já têm outro nome definido.
OAB-PR entra na eleição sem entrar na eleição

A manifestação da entidade não equivale a apoio eleitoral e não deve ser apresentada dessa maneira.
O que existe é uma decisão institucional da OAB Paraná, aprovada por unanimidade, com uma crítica severa à permanência de Moraes e Gonet nas funções relacionadas ao caso Master. A OAB também pediu que o Conselho Federal da entidade seja convocado para deliberar sobre a orientação nacional diante da crise.
A Subseção da OAB em Paranaguá também se alinhou ao posicionamento da seccional paranaense.
O efeito político, entretanto, pode ultrapassar o ambiente jurídico.
Em uma eleição na qual duas vagas estão abertas e quatro candidaturas aparecem competitivas, qualquer fato capaz de reorganizar a conversa sobre STF, impeachment, investigação e limites dos poderes pode ser incorporado aos programas eleitorais, debates, redes sociais e conversas de campanha.
Por isso, a pergunta eleitoral não é se a OAB-PR apoia Deltan, Filipe, Curi ou qualquer outro candidato. Não apoia.
A pergunta é quem consegue transformar o documento em narrativa eleitoral mais eficiente.
Nesse terreno, Deltan e Filipe partem com vantagem temática. Curi já demonstrou que pretende disputar esse espaço e pode usar a manifestação para reforçar sua posição. Gleisi, por sua vez, terá de sustentar a distinção entre defender a investigação de eventuais crimes e aderir à tese de afastamento defendida pela OAB-PR.
No fim, a OAB Paraná não colocou um nome na urna.
Mas colocou uma questão institucional no centro de uma eleição em que quatro candidatos disputam, com pouca distância entre si, duas cadeiras no Senado.
E essa questão pode valer mais politicamente do que a própria nota, dependendo de quem conseguir contar melhor essa história ao eleitor.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




