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O ex-banqueiro Daniel Vorcaro prestou depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), dentro da Papudinha, em Brasília, na manhã de 27 de agosto, enquanto uma oitiva dele com a Polícia Federal estava marcada para o mesmo horário. O depoimento foi conduzido pelo juiz auxiliar João Azambuja e não teve a participação de agentes da PF, segundo apuração do Metrópoles.
A revelação acrescenta um novo capítulo à crise em torno do caso Banco Master porque Mendonça é o relator da investigação que envolve Vorcaro. Nesta quarta-feira, 2 de setembro, o próprio ministro confirmou que havia se encontrado anteriormente com o ex-banqueiro, mas afirmou que isso ocorreu apenas uma vez, em março de 2025, por iniciativa de Vorcaro.
A nova oitiva, porém, não foi um encontro pessoal de Mendonça com Vorcaro. O depoimento foi tomado por Azambuja, que integra o gabinete do ministro. Segundo o Metrópoles, o juiz auxiliar foi pessoalmente ao presídio para ouvir o banqueiro.
O gabinete de Mendonça confirmou a realização do depoimento e apresentou uma justificativa formal. Segundo a versão do relator, a defesa de Vorcaro pediu expressamente que ele fosse ouvido com urgência depois de relatar que o cliente sofria “graves intimidações”.
O gabinete classificou a medida como “ato processual regular”. A oitiva também contou com a presença de um representante do Ministério Público Federal (MPF). A Polícia Federal, entretanto, não participou do ato, segundo as reportagens que revelaram o episódio.
PF tinha depoimento marcado para o mesmo horário
O caso ganhou uma camada adicional porque Vorcaro tinha uma oitiva com a Polícia Federal marcada para a manhã de 27 de agosto, justamente para prestar esclarecimentos sobre a investigação envolvendo servidores do Banco Central (BC).
Na ocasião, a versão divulgada inicialmente foi a de que problemas técnicos haviam impedido o depoimento à PF. O Metrópoles informou que Vorcaro chegou a se conectar à videoconferência, mas a comunicação não teria se estabilizado. A oitiva acabou sendo remarcada para 28 de agosto.
Posteriormente, a coluna de Igor Gadelha informou que, no horário em que a oitiva com a PF deveria ocorrer, Vorcaro estava sendo ouvido presencialmente por João Azambuja na Papudinha.
Segundo a publicação, o delegado da PF e o advogado Sergio Leonardo, que chefia a defesa de Vorcaro, chegaram a se conectar à audiência. O banqueiro, contudo, não entrou na videoconferência. A defesa alegou inicialmente uma falha técnica.
A reportagem também informou que Daniel Bialski, outro advogado de Vorcaro, foi quem solicitou a Mendonça que o banqueiro fosse ouvido pelo gabinete. Ainda segundo a apuração, houve divergência entre integrantes da própria defesa sobre a realização desse depoimento.
Ausência da PF não foi apresentada como irregularidade
O ponto mais sensível do episódio é justamente a ausência da Polícia Federal.
A informação, por si só, não permite concluir que houve irregularidade. O gabinete de Mendonça afirma que a ausência de policiais está amparada por resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), dependendo da natureza do ato processual realizado.
As regras do CNJ efetivamente preveem situações em que a equipe policial responsável pela prisão ou investigação não participa de determinados atos envolvendo pessoas custodiadas. A Resolução CNJ nº 213/2015, por exemplo, estabelece a ausência da equipe policial responsável pela prisão ou investigação nas audiências de custódia realizadas por videoconferência.
Isso não resolve, porém, a questão específica do depoimento de Vorcaro ao gabinete do relator. O ponto que precisa ser esclarecido é qual foi exatamente a natureza processual da oitiva de 27 de agosto, qual fundamento jurídico autorizou sua realização naquele formato e como o ato foi documentado nos autos.
Essa distinção é importante para não transformar a ausência da PF em uma acusação de irregularidade sem base documental.
O que consta nos autos?
É justamente essa a pergunta central que permanece.
A confirmação pública da oitiva veio do gabinete de Mendonça e das reportagens que ouviram fontes ligadas ao caso. Também está confirmado que um representante do MPF participou do ato e que a PF não esteve presente, segundo o Metrópoles.
O conteúdo integral do depoimento, sua finalidade processual, a decisão que autorizou a oitiva, o pedido apresentado pela defesa e eventual registro audiovisual ou termo da audiência são elementos que precisam ser examinados para determinar com precisão o alcance do episódio.
A pergunta ganha relevância porque o ministro responsável pela relatoria do Caso Master está no centro de uma investigação que envolve o próprio Vorcaro.
No dia 1º de setembro, Mendonça também determinou a retirada do sigilo de relatório da Polícia Federal que menciona conversas atribuídas a Vorcaro e ao ministro Alexandre de Moraes. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu posteriormente a anulação dessa parte da investigação, argumentando que Mendonça teria aprofundado a apuração sobre Moraes sem autorização do plenário do STF.
É nesse ambiente de crescente disputa institucional que a oitiva de Vorcaro pelo gabinete do relator ganha peso político e jurídico.
Mendonça diz que encontrou Vorcaro uma única vez
A revelação do depoimento ocorre no mesmo dia em que Mendonça tornou pública sua versão sobre um encontro anterior com Vorcaro.
Segundo nota divulgada pelo ministro, o encontro ocorreu em março de 2025, por iniciativa do empresário. Mendonça afirmou que apenas ouviu o banqueiro e que, naquele momento, o assunto tratado era a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, relacionada a créditos de precatórios de interesse do Banco Master.
O ministro também afirmou que sua atuação jurisdicional foi contrária à posição defendida por Vorcaro naquele processo.
A versão de Mendonça, portanto, distingue o encontro de março de 2025 do depoimento realizado na Papudinha em agosto de 2026.
No primeiro episódio, segundo o ministro, houve uma reunião pessoal com Vorcaro. No segundo, o banqueiro foi ouvido por um juiz auxiliar do gabinete dentro do presídio, a pedido de sua defesa.
A diferença é relevante para a reconstrução cronológica do relacionamento entre o relator e o investigado.
Vorcaro depois depôs à Polícia Federal
O adiamento da oitiva com a PF não impediu que Vorcaro prestasse esclarecimentos aos investigadores.
Em 28 de agosto, o ex-controlador do Banco Master falou durante quatro horas, por videoconferência, sobre o inquérito que investiga suspeitas de corrupção envolvendo servidores do Banco Central.
A PF investigava, entre outros pontos, a atuação de servidores do BC que teriam mantido relações com Vorcaro. Entre os investigados estavam Bellini Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, ambos afastados por decisão de Mendonça.
A sequência dos acontecimentos deixa uma questão objetiva para os autos: por que Vorcaro foi ouvido pelo gabinete do relator no mesmo período em que estava prevista uma oitiva com a Polícia Federal e qual foi exatamente o objeto do primeiro depoimento?
Enquanto não houver a documentação integral que responda a essas perguntas, o fato deve ser tratado como uma nova circunstância relevante do Caso Master, mas não como prova de irregularidade.
O episódio, contudo, amplia a pressão por transparência sobre os atos processuais praticados na investigação e sobre a relação institucional entre o relator, a defesa de Vorcaro, o Ministério Público e a Polícia Federal.
Acompanhe o Blog do Esmael para os próximos documentos e desdobramentos do Caso Master.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




