Senador do PL falou o que quis, ouviu o que não queria da ministra responsável pela articulação política do governo Lula
A ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), devolveu com força a ofensiva do novo palanque de Sergio Moro (PL) contra o PT. Um dia depois de o senador se filiar ao PL em Brasília, ao lado de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Valdemar Costa Neto e Rosangela Moro, Gleisi respondeu em vídeo [assista abaixo] e mirou a contradição que o ex-juiz tenta empurrar para debaixo do tapete.
No ato de filiação, Moro vendeu o Paraná como “fortaleza” do projeto bolsonarista, disse contar com Flávio Bolsonaro no Palácio do Planalto e embarcou num palanque em que aliados repetiram, sem rodeios, que o essencial era “tirar o PT do poder” e montar o melhor cenário para a candidatura presidencial do filho zero um no estado.
Foi aí que Gleisi bateu de frente. Na fala publicada em suas redes, a ministra lembrou que o PT não governa o Paraná, observou que Moro não é candidato a presidente e cobrou explicações sobre o acordo eleitoral do senador com Flávio Bolsonaro. Na sequência, puxou o fio que mais constrange o ex-juiz: o rompimento de 2020 com Jair Bolsonaro, quando Moro acusou o então presidente de interferir na Polícia Federal para proteger a família, inclusive Flávio.
A resposta de Gleisi acerta o ponto mais delicado dessa reentrada de Moro no bolsonarismo. O senador tenta se apresentar como rosto moral de uma nova aliança à direita, mas volta justamente pelas mãos do grupo que ele próprio apontou, no passado, como alvo de denúncia grave. Quando a ministra chama Moro de “Auto da Moralidade” e diz que seu verdadeiro objetivo sempre foi um projeto de poder, ela fala menos para converter adversários e mais para reativar a memória política do eleitor.
“Alianças [de Moro] que mudam conforme a conveniência, lealdades que duram até o próximo acordo. Mas o povo já entendeu esse jogo. E como em 22, eles [bolsonarismo e o ex-juiz] serão derrotados mais uma vez”, vaticinou a ministra.
Nos comentários nas redes, a reação predominante foi favorável a Gleisi e francamente hostil a Moro. Aparecem pedidos de “Gleisi senadora”, palavras de ordem como “Lula 2026”, cobranças para que o PT use melhor as redes e uma sequência de mensagens tratando o senador como incoerente, oportunista e incapaz de explicar a volta ao campo bolsonarista.
Mas, também surgiram respostas em defesa de Moro e ataques a Gleisi, sobretudo com a tentativa de equiparar a aliança de Moro com Flávio à composição de Lula com Geraldo Alckmin. Houve ainda críticas dizendo que a ministra fala mais do adversário do que do governo e mensagens sustentando que o senador segue competitivo no Paraná.
O dado político relevante está menos no insulto de rede social e mais na rachadura exposta. Moro entrou no PL para posar como peça central da direita paranaense. O problema é que, junto com a nova filiação, voltou também a velha pergunta: afinal, o que vale mais em sua trajetória, a biografia que denunciou Bolsonaro ou a conveniência que agora o abraça?
No Paraná, Gleisi encontrou um jeito simples de apertar essa ferida. Moro falou o que quis contra o PT. Ouviu de volta o que não queria sobre si mesmo.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




