O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a América Latina é uma região de paz e quer continuar assim, ao discursar na IV Cúpula Celac-UE, neste domingo 9/11, em Santa Marta, Colômbia. A defesa da democracia, a integração regional e o combate ao extremismo político marcaram o tom da fala dirigida a líderes europeus, latino-americanos e caribenhos.
A fala ocorreu no ponto mais quente da diplomacia recente. Enquanto os Estados Unidos ampliam presença militar no Caribe e a Europa pressiona por condenação explícita da Rússia, o chefe de Estado brasileiro adotou linha de soberania regional e equilíbrio internacional, ressaltando que democracias não podem violar o direito internacional sob pretexto de combater o crime.
O presidente disse que a região vive uma crise de integração e alertou para riscos institucionais vindos do extremismo e da manipulação da informação. Segundo ele, projetos pessoais de poder minam a democracia e transformam cúpulas em rituais vazios. A cobrança fez eco à ausência de líderes importantes, como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
A defesa da paz veio acompanhada de pragmatismo diplomático, com menção direta ao acordo Mercosul-União Europeia. Lula afirmou esperar que, na cúpula do Mercosul em dezembro, os blocos digam “sim” ao tratado que pode integrar um mercado de 718 milhões de pessoas e superar o histórico latino-americano de exportar matéria-prima e mão de obra barata.
O discurso abordou segurança pública como dever do Estado e direito humano. Lula repudiou soluções autoritárias, defendeu operações coordenadas e citou a cooperação na Tríplice Fronteira e o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia como modelos para enfrentar o crime transnacional, rastrear armas e estrangular o financiamento das facções.
O líder brasileiro destacou ainda a COP30, realizada na Amazônia, e o Fundo de Florestas Tropicais para Sempre como instrumentos para provar que florestas valem mais em pé do que derrubadas. Ele classificou a transição energética como inevitável e disse que a região tem potencial para liderar a agenda de energia limpa.
A proposta de que uma latino-americana assuma a Secretaria-Geral da ONU coroou o discurso. Lula justificou a necessidade histórica de representação e afirmou que igualdade de gênero deve se materializar também no mais alto cargo das Nações Unidas.
A presença brasileira também funcionou como recado político contra aventuras autoritárias, no momento em que Donald Trump ocupa a Casa Branca e pressiona países da região em temas como narcotráfico e terrorismo. Lula saiu da COP30, em Belém, por algumas horas para participar da cúpula e reforçar a soberania latino-americana.
A fala foi recebida como reação ao avanço de soluções militarizadas e ao discurso que tenta criminalizar adversários políticos na América Latina. No pano de fundo, pesa a disputa diplomática entre Washington e Bruxelas, cada bloco tentando pautar o texto final, os Estados Unidos mirando Caracas e a União Europeia mirando Moscou.
Além disso, o presidente colombiano Gustavo Petro fez críticas a execuções extrajudiciais e cobrou que as duas regiões atuem como farol contra barbáries, enquanto governos locais enfrentam sanções e pressões externas. O contexto reforçou a mensagem brasileira por diálogo, multilateralismo e estabilidade democrática.
A declaração de Lula reforça o papel geopolítico do Brasil como articulador da paz, defensor do comércio justo e opositor da lógica intervencionista. Ao mesmo tempo, simboliza a disputa pela narrativa continental contra o extremismo político e pela reconstrução institucional da integração latino-americana.
A tendência, segundo diplomatas, é que o tom conciliador e assertivo do Brasil influencie o texto final, a chamada Declaração de Santa Marta, e o Mapa do Caminho 2025-2027, que devem orientar iniciativas conjuntas.
O encontro encerra mensagem clara: a América Latina e o Caribe não querem tanques substituindo mesas de negociação, nem algoritmos extremistas corroendo instituições. Querem comércio, democracia, florestas em pé e cadeias produtivas modernas, e querem voz no tabuleiro global.
A mediação do Brasil pode definir o ritmo da nova fase birregional, do acordo Mercosul-UE à agenda ambiental pós-COP30, passando pela cooperação de segurança e pela defesa da soberania democrática diante de disputas geopolíticas.
A América Latina, como disse Lula, não aceita ser tratada como quintal nem como fornecedora barata do mundo desenvolvido, mas como protagonista de sua própria história.
A afirmação de que “somos uma região de paz” funciona como manifesto político contra a militarização e o radicalismo. Em tempos de sombras autoritárias, Lula chamou líderes ao centro democrático e à integração, apostando em pontes no lugar de muros. A conferir se a Europa corresponderá. Leia no Blog do Esmael.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.