Análise
O presidente Lula (PT) desancou a Globo nesta sexta-feira, 16 de outubro, em Ipatinga, Minas Gerais, depois de saber que Flávio Bolsonaro (PL) havia almoçado com a direção da empresa horas antes da sabatina com Renata Lo Prete. No Rio de Janeiro, a recepção ao candidato pela cúpula dos Marinhos terminou numa entrevista marcada por cobranças, interrupções e bate-boca.
O almoço foi com João Roberto Marinho, presidente do Grupo Globo, e Paulo Tonet, vice-presidente de Relações Institucionais. Lula questionou o encontro no próprio dia da entrevista do adversário e declarou que a emissora não merecia confiança. A crítica ocorreu durante sua passagem pelo Vale do Aço mineiro.
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Na metáfora culinária desta coluna, o arroz doce de Flávio Bolsonaro azedou diante das câmeras. A recepção no andar de cima não impediu que Renata perguntasse, por ofício, sobre financiamento de filme, contas públicas, armas e as relações políticas da família Bolsonaro.
Se houve alfafa estragada no almoço, fica por conta da maldade da imagem. O cardápio político da noite está documentado: perguntas específicas, respostas desviadas para Lula e uma entrevistadora que insistia em voltar ao assunto.
Em Minas, Lula repetiu o motivo da indignação: “Ele foi almoçar com a direção da Globo no dia da entrevista dele”.
O presidente atribuiu a suposta irritação da empresa a medidas que defendeu no discurso, como o combate às bets, o fim da escala 6×1 e sua promessa de transporte gratuito nos fins de semana. Também mencionou a prisão de Daniel Vorcaro. Essa foi a explicação política apresentada por Lula para a conduta da emissora, não uma motivação reconhecida pela Globo.
“Não merece confiança. Não merece”, afirmou.
A empresa classificou o encontro como visita institucional e informou que dirigentes do Jornalismo não participaram. A nota oficial foi encaminhada ao Blog do Esmael pela campanha de Flávio Bolsonaro. Segundo a Globo, encontros de cortesia com candidatos fazem parte da rotina dos executivos de empresas de mídia.
A controvérsia tem um fato concreto: o candidato foi recebido pelo presidente do grupo no mesmo dia em que seria questionado por uma jornalista da emissora. A nota explica como a empresa classifica a reunião; Lula questionou a conveniência política dessa proximidade.
A sabatina acrescentou outro elemento à discussão. A cordialidade empresarial não se traduziu em ausência de cobrança jornalística.
O momento mais tenso veio quando Renata perguntou sobre o dinheiro solicitado a Vorcaro para Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A jornalista confrontou os R$ 134 milhões pedidos pelo candidato com o custo de R$ 75 milhões que apresentou como resultado de perícia da própria produtora.
Flávio Bolsonaro respondeu que o contrato não havia sido cumprido integralmente e que a produção fora concluída com recursos de Vorcaro e de outros investidores. Defendeu a operação como financiamento privado, sem contrapartida decorrente de seu mandato.
Em seguida, levou a Globo para dentro da resposta.
Mencionou patrocínios ao programa de Luciano Huck e afirmou que um diretor do grupo promovia eventos do Valor Econômico em Nova York bancados por Vorcaro. Citou o desligamento do executivo para sustentar que negócios privados não significam, automaticamente, prática irregular.
Renata rebateu. Diferenciou compra de espaço comercial de financiamento cinematográfico, defendeu a independência editorial do jornalismo e confirmou a saída do então diretor após a divulgação de conversas com o banqueiro.
O candidato havia almoçado com a cúpula da empresa. À noite, usava os negócios da mesma empresa como escudo diante das perguntas sobre o filme do pai.
A tentativa de mudar o foco para Lula também encontrou resistência. Flávio Bolsonaro mencionou acusações contra pessoas ligadas ao presidente. Quando afirmou que uma delas estava confirmada pela Polícia Federal (PF), ouviu de Renata: “Não está confirmado pela Polícia Federal”.
A imagem de um “Bolsonaro moderado” encontrou ali um limite verificável: diante da insistência, o candidato passou a confrontar a entrevistadora e a questionar o critério da emissora para tratar determinadas informações.
O padrão reapareceu no debate econômico. Flávio Bolsonaro prometeu manter a valorização do salário mínimo, a vinculação das aposentadorias ao mínimo e os pisos constitucionais de saúde e educação.
Renata perguntou como fecharia a conta do ajuste de R$ 200 bilhões mencionado por sua equipe. Ele citou imóveis públicos, antecipação de receitas, redução de ministérios e petróleo na margem equatorial. A jornalista contestou o prazo para obter receitas dessa exploração.
Na segurança, perguntou por que retirar a marcação de munições usadas pelas forças policiais, recurso que auxilia o rastreamento em investigações. O candidato falou de fronteiras, punições, câmeras e inteligência artificial. Renata registrou que continuava sem resposta sobre a marcação.
Até a pergunta sobre respeitar o resultado eleitoral virou oportunidade para atacar Lula. Flávio Bolsonaro respondeu que respeitaria as urnas, mas acrescentou uma sequência de críticas ao governo.
“Aproveitei para falar mais coisas”, justificou.
“É, eu percebi”, devolveu Renata.
Em Minas, Lula encerrou sua fala apresentando a eleição como enfrentamento à extrema direita e a adversários que incluiu em seu discurso. “Do meu lado, eu só tenho o povo brasileiro”, declarou.
O saldo político daquela sexta-feira reuniu dois conflitos: Lula contestou a direção da Globo pelo almoço; Flávio Bolsonaro confrontou a jornalista quando a entrevista chegou aos temas espinhosos. Os anfitriões ofereceram a recepção institucional. Renata serviu as perguntas. Foi nessa segunda mesa que o arroz doce azedou.
Leia também: Globo chama almoço com Flávio Bolsonaro de visita institucional.
Análise do Blog do Esmael. Acompanhe nossa cobertura das entrevistas e dos debates presidenciais.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




