O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) bateu boca com a jornalista Renata Lo Prete durante a sabatina da TV Globo nesta sexta-feira, 16 de outubro. O confronto mais tenso ocorreu quando, questionado sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, o senador citou relações comerciais da emissora com Daniel Vorcaro, do Banco Master, para defender os recursos destinados à produção.
Renata contestou a comparação, explicou a diferença entre patrocínio comercial e financiamento de um filme e confirmou o desligamento de um diretor do grupo após a divulgação de conversas com Vorcaro. A discussão levou para dentro da entrevista os negócios da própria emissora com o banqueiro, sem encerrar as perguntas sobre o dinheiro solicitado pelo candidato.
Flávio Bolsonaro afirmou que um diretor da Globo promovia eventos do Valor Econômico em Nova York bancados por Vorcaro. Também mencionou patrocínio ao programa de Luciano Huck, citando valores com a ressalva “se não me engano”.
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A declaração sobre o executivo foi usada como argumento de defesa: o candidato sustentou que receber investimento privado não constitui, por si só, irregularidade. Ao comentar o desligamento, afirmou que o diretor havia ferido o código de ética da empresa.
Renata respondeu que a compra de espaço comercial segue regras de transparência e não interfere na independência editorial do jornalismo. Sobre o executivo, confirmou que ele havia sido desligado depois da divulgação das conversas com o banqueiro.
O ponto central da pergunta, porém, era outro: por que Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões a Vorcaro se, conforme os dados apresentados pela entrevistadora, o custo do filme havia sido de R$ 75 milhões?
O candidato respondeu que o contrato não havia sido integralmente cumprido e que os recursos recebidos, somados aos de outros investidores, permitiram concluir a produção. Sustentou que se tratava de patrocínio privado, sem contrapartida ligada ao seu mandato de senador.
A jornalista também perguntou sobre o caminho do dinheiro por um fundo nos Estados Unidos e a falta de informações sobre sua destinação. Flávio Bolsonaro contestou a caracterização do fundo como imobiliário e afirmou que a produtora brasileira havia prestado contas.
Na resposta, não detalhou a diferença entre o valor solicitado e o custo apresentado pela entrevistadora. Sua defesa se concentrou na natureza privada do financiamento e na negativa de irregularidades.
O candidato tentou deslocar a discussão para Lula (PT), mencionando um suposto áudio de Vorcaro e acusações contra pessoas ligadas ao presidente. Renata interrompeu para dizer que não trataria aquelas informações como fatos estabelecidos.
Quando Flávio Bolsonaro afirmou que uma das acusações estava confirmada pela Polícia Federal (PF), a jornalista rebateu: “Não está confirmado pela Polícia Federal”.
Esse movimento se repetiu em outros assuntos. Diante de perguntas sobre sua atuação ou suas propostas, Flávio Bolsonaro recorreu a ataques ao adversário. Logo na abertura, ao discutir as contas públicas, declarou que “o maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer é tirar o Lula”.
Antes disso, havia assumido três compromissos: manter aumentos do salário mínimo acima da inflação, preservar a vinculação das aposentadorias ao mínimo e não eliminar os pisos constitucionais de saúde e educação.
Renata cobrou como seria possível cumprir o ajuste de R$ 200 bilhões mencionado por sua equipe sem alterar essas despesas. O candidato citou redução de ministérios, gestão de imóveis públicos, antecipação de receitas e exploração de petróleo na margem equatorial. A jornalista contestou o prazo de obtenção das receitas do petróleo.
Na segurança pública, a entrevistadora perguntou por que Flávio Bolsonaro havia defendido retirar a marcação de munições utilizadas pelas forças de segurança, instrumento de rastreamento em investigações.
O candidato respondeu com propostas de endurecimento penal, fiscalização de fronteiras e uso de câmeras com inteligência artificial. Renata registrou que a pergunta sobre a identificação das munições continuava sem resposta.
A sabatina também produziu compromissos políticos. Flávio Bolsonaro disse que não tentará reverter o fim da escala 6×1 e justificou sua mudança de posição pela vontade dos trabalhadores que ouviu durante a campanha. Afirmou ainda que Eduardo Bolsonaro não será seu ministro das Relações Exteriores.
Ao ser questionado sobre o resultado eleitoral, respondeu que respeitará as urnas, independentemente do vencedor. Em seguida, voltou a atacar o governo Lula.
“Aproveitei para falar mais coisas”, disse o candidato, depois de Renata retomar a pergunta.
“É, eu percebi”, respondeu a jornalista.
A Globo anunciou para 23 de outubro o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, dois dias antes do segundo turno. A sabatina deixou uma cobrança concreta para a próxima confrontação: explicar o financiamento de Dark Horse exige esclarecer valores e destino dos recursos, além de apontar relações de Vorcaro com terceiros.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




