Opinião | Sobre a “imparcialidade” da Globo: chame o Sidônio!
A cúpula da TV Globo recebe Flávio Bolsonaro (PL) para um almoço reservado nesta sexta-feira, 16 de outubro, horas antes de sua sabatina no Jornal Nacional. Segundo Igor Gadelha, do Metrópoles, auxiliares de Lula (PT) disseram que o presidente, entrevistado em 15 de outubro, não recebeu convite semelhante. A “imparcialidade” da emissora ganhou um ingrediente que o telespectador não encontra na bancada: a lista de convidados para a mesa.
De acordo com a coluna, o encontro reúne dirigentes da Globo na sede da emissora, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro compareceu acompanhado do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da campanha, e de um assessor de imprensa. É o segundo almoço do candidato com a cúpula da empresa, segundo Gadelha.
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A hospitalidade empresarial merece registro. Sobretudo quando um candidato recebe talheres antes das perguntas, enquanto o outro, conforme o relato dos auxiliares de Lula, ficou apenas com um copo de água na entrevista.
Mas falta acrescentar à mesa o prato principal desta ironia: a publicidade federal.
A Globo recebeu R$ 274,4 milhões em anúncios da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), entre janeiro de 2023 e outubro de 2026, segundo levantamento publicado pela revista Veja em 12 de outubro. A revista, que atribui os números a dados da secretaria, coloca a emissora na liderança do ranking de verbas publicitárias do Planalto nesse período.
A conta tem endereço público. A recepção tem convidado reservado.
É nessa hora que a coluna pede licença para imaginar a exclamação presidencial: “Chame o Sidônio!”
Sidônio Palmeira, publicitário que comandou a estratégia de comunicação da campanha de Lula em 2022, dirige a Secom desde janeiro de 2025. O montante acumulado pela Globo começa em 2023, portanto também inclui a gestão anterior ao atual ministro. A liderança da emissora na distribuição desses anúncios, porém, é uma questão que desembarca em sua mesa.
Que bela pauta para uma reunião de comunicação: o governo lidera os pagamentos publicitários à emissora, mas seu adversário eleitoral recebe a deferência do almoço com os executivos.
O dinheiro é do contribuinte. Não dá ao presidente direito a pergunta fácil, elogio no telejornal ou sobremesa na diretoria. Dá à sociedade o direito de conhecer os critérios da distribuição publicitária. E a independência proclamada pela emissora convida o eleitor a examinar também seus critérios de hospitalidade.
Afinal, a igualdade de tratamento precisa sobreviver fora do enquadramento da câmera.
Se a informação dos auxiliares de Lula estiver correta, a diferença começa antes do cronômetro da entrevista. Um candidato conversa com a cúpula em almoço reservado; o outro comparece à sabatina sem recepção equivalente, de barriga vazia. A Globo pode explicar essa escolha com a mesma desenvoltura com que cobra explicações dos políticos.
Sidônio, por sua vez, poderia aproveitar o chamado para apresentar os resultados da concentração de anúncios nos grandes grupos de comunicação. Quantas pessoas foram alcançadas? Quais públicos ficaram de fora? Como a comunicação pública chega a quem não acompanha a programação dessas empresas?
São perguntas mais úteis ao governo do que contar com gratidão empresarial. O episódio oferece uma aula prática sobre a distância entre comprar espaço publicitário e construir uma estratégia de comunicação.
Na planilha do Planalto, a Globo lidera. No almoço relatado pelo Metrópoles, o lugar é de Flávio Bolsonaro. A “imparcialidade” fica encarregada de explicar a disposição das cadeiras.
Chame o Sidônio. O problema da comunicação chegou antes do boa-noite.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




