O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou em sintonia com o humor do país na disputa sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas. Pesquisa Datafolha mostra que 71% dos brasileiros apoiam a diminuição do número máximo de dias trabalhados por semana, alta de sete pontos em relação a dezembro de 2024, quando esse índice era de 64%.
O dado mais importante para o Palácio do Planalto não é apenas o tamanho do apoio. É o fato de o governo já ter conseguido enquadrar o debate em termos favoráveis ao trabalhador. Ou seja, o governo saiu da defensiva e passou a falar a linguagem concreta de quem vive entre o batente, o transporte e a falta de tempo para respirar.
A própria pesquisa reforça esse terreno político. Para 76% dos entrevistados, a redução da jornada seria boa ou ótima para a qualidade de vida dos trabalhadores. Outros 68% dizem que a mudança teria efeito pessoal positivo. Entre os eleitores de Lula em 2022, o apoio chega a 82%, mas o dado que mais chama atenção é outro: até entre os eleitores de Jair Bolsonaro (PL), 55% se declaram favoráveis à mudança. É aí que mora a vitória narrativa do governo, porque o tema começa a atravessar a muralha ideológica e entra no cotidiano real das famílias.
No sábado (14), em Curitiba, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), transformou essa pauta social em ato político no coração operário da capital. Ela lançou, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), uma plenária com foco no fim da escala 6×1 e no combate ao feminicídio, num movimento que ligou agenda trabalhista, mobilização de base e disputa de valores.
Não se trata de ação isolada. Desde janeiro, Gleisi vem dizendo que o fim da escala 6×1 é prioridade do governo Lula em 2026. Ao defender publicamente o avanço da proposta, a ministra apostou que a pressão da opinião pública pode sensibilizar o Congresso. O Datafolha, agora, entrega a ela e ao Planalto a munição que faltava: maioria social robusta, percepção positiva sobre qualidade de vida e recuo da resistência econômica mais dura.
Politicamente, o tema pode contaminar a eleição presidencial e as disputas estaduais. O debate sobre jornada de trabalho tem potencial de recolocar Lula no campo em que ele costuma ser mais forte, o da proteção social e da defesa concreta do salário, do emprego e do tempo de vida. Hoje, o cenário nacional segue competitivo, mas Lula ainda lidera os principais cenários de primeiro turno testados pelo Datafolha, com 38% a 39%, e aparece numericamente à frente de Flávio Bolsonaro em um dos cenários de segundo turno, por 46% a 43%. Na Quaest, a disputa com Flávio já aparece empatada em um eventual segundo turno, sinal de que o governo precisa de bandeiras com lastro popular para reconquistar terreno.
No Paraná, essa pauta se encaixa num desenho mais amplo. O campo lulista tenta amarrar um palanque competitivo para 2026, com Gleisi na rota do Senado e a frente progressista trabalhando para empurrar o deputado estadual Requião Filho (PDT) como nome ao Palácio Iguaçu. O próprio Blog do Esmael mostrou neste sábado que PT e PSB seguem em negociação sobre apoio ao projeto de Requião Filho no estado, dentro de uma engenharia que passa por Gleisi, Arilson Chiorato e a direção nacional do PSB.
A força da escala 6×1, portanto, vai além do Congresso. Ela pode virar linguagem de campanha. Ao falar de redução de jornada, o governo fala de tempo com os filhos, descanso, saúde mental, dupla jornada feminina e dignidade no trabalho. É uma bandeira que organiza a base social do lulismo, pressiona adversários a sair do conforto liberal e ainda oferece ao PT uma vitrine de contraste com a direita.
No Paraná, Gleisi entendeu isso antes de muita gente. Levou o debate para a CIC, território operário, e colocou a pauta no chão da política real. Quando um governo consegue casar pesquisa, rua e discurso, deixa de apenas reagir e passa a conduzir o embate. É exatamente isso que Lula começa a fazer com a escala 6×1. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




