O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acusou, nesta quinta-feira (2/7), a família Bolsonaro de “entreguismo” e de agir como “traidores da Pátria” após Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresentar ao governo dos Estados Unidos um documento que pede a suspensão da tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. O texto sustenta que a sanção fortaleceria eleitoralmente Lula e propõe mudanças relacionadas ao Pix, ao Mercosul, aos cartões de crédito e ao etanol. A disputa comercial entrou de vez na eleição presidencial como um conflito sobre soberania nacional.
“É inaceitável que a família Bolsonaro, com o seu entreguismo, queira submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos”, afirmou Lula. O presidente também declarou que o Brasil dialogará “de igual para igual” com qualquer país e rejeitou tanto a aplicação imediata quanto um eventual adiamento do tarifaço.
A expressão “traidores da Pátria” constitui uma acusação política feita por Lula. O documento que provocou a reação foi protocolado por Flávio Bolsonaro no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla em inglês USTR, dentro da investigação comercial aberta contra o Brasil.
Flávio Bolsonaro declara formalmente que se opõe à tarifa e a qualquer medida contra o Pix. Ele pede ao USTR que suspenda ou adie a taxação e abra imediatamente uma negociação bilateral sobre os seis pontos investigados pelos Estados Unidos. A manifestação afirma que a tarifa puniria exportadores brasileiros, importadores americanos e consumidores dos dois países.
O problema político aparece na justificativa apresentada pelo senador. Flávio Bolsonaro afirma que a pressão econômica dos Estados Unidos estaria sendo convertida em uma vitória eleitoral de Lula. Em outro trecho, o documento diz que a eleição brasileira de outubro está a três meses de distância e que agir antes dessa renovação política seria escolher a sequência errada.
Flávio Bolsonaro não escreveu literalmente que a tarifa deveria ser aplicada depois da eleição. Ele pediu suspensão ou adiamento, mas utilizou o calendário eleitoral e o possível benefício político a Lula como argumentos centrais contra a aplicação da medida neste momento. Foi essa combinação que o presidente resumiu como uma tentativa de empurrar o tarifaço para depois das urnas.
O ponto mais sensível envolve o Pix. O documento reconhece o sistema como infraestrutura pública e soberana, contesta a tese de concorrência desleal levantada pelos Estados Unidos e compara a atuação do Banco Central do Brasil à operação do FedNow pelo banco central americano. Logo depois, porém, propõe um compromisso legislativo para impedir que o Pix seja conectado a sistemas internacionais de liquidação classificados como “não ocidentais”.
Flávio Bolsonaro também defende a redução da carga regulatória e tributária sobre cartões, adquirentes e outros meios privados de pagamento. O mercado de cartões tem forte presença de empresas americanas, como Visa e Mastercard. Para Lula, essa proposta representa uma tentativa de limitar uma tecnologia brasileira para atender a interesses estrangeiros. “O Pix é uma conquista do Brasil e não vamos abrir mão dele”, afirmou.
O documento avança ainda sobre o Mercosul. Flávio Bolsonaro defende que o Brasil se liberte das “amarras” do bloco para buscar de maneira mais agressiva acordos bilaterais com os Estados Unidos. Também oferece a eliminação de tarifas sobre o etanol norte-americano e alívio tributário para empresas de pagamentos.
Lula reagiu lembrando que o Mercosul assinou, em 17 de janeiro de 2026, o acordo de parceria estratégica com a União Europeia, após 26 anos de negociações. O tratado abre ao bloco sul-americano um mercado europeu de 450,4 milhões de habitantes e Produto Interno Bruto estimado em US$ 19,99 trilhões. A implementação integral ainda depende dos procedimentos internos de aprovação e ratificação.
A tarifa adicional de 25% ainda não entrou em vigor. Ela foi proposta pelo USTR após uma investigação baseada na Seção 301 da legislação comercial americana, que incluiu comércio digital, pagamentos eletrônicos, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. A audiência pública está prevista para 6 de julho, e a decisão do governo Donald Trump é esperada até 15 de julho.
O documento registra que Flávio Bolsonaro o apresentou como senador e pré-candidato à Presidência, em caráter pessoal e oficial. Também informa que ele se reuniu com Donald Trump, o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio para tratar dos temas em discussão.
Lula aproveitou esse registro para deslocar o debate do terreno comercial para o eleitoral. Sua ofensiva tenta fixar Flávio Bolsonaro como o candidato que oferece mudanças na política econômica brasileira a um governo estrangeiro antes de submetê-las aos eleitores e ao Congresso Nacional.
Flávio Bolsonaro enfrenta o desafio oposto: demonstrar que trabalha para impedir uma tarifa prejudicial ao Brasil, enquanto explica por que seu documento oferece aos Estados Unidos compromissos sobre o Pix, o Mercosul, a tributação de cartões e o acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro.
O confronto não é apenas retórico. A decisão de Trump poderá atingir empresas, empregos, exportações e preços nos dois países. Até 15 de julho, Lula e Flávio Bolsonaro disputarão também a autoria política da crise: o presidente acusa a família Bolsonaro de provocar e administrar a pressão externa; o senador afirma que tenta impedir uma medida que fortaleceria o próprio Lula.
Acompanhe no Blog do Esmael os próximos capítulos da audiência nos Estados Unidos e os efeitos do tarifaço sobre a eleição de 2026.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




