Curitiba terá expediente alterado nesta quarta-feira (24) por causa de Brasil x Escócia, às 19h, pela Copa do Mundo de 2026; a medida atinge servidores, serviços públicos, comércio, bares, transporte, escolas, trabalhadores em escala e expõe uma regra simples: quando a Seleção entra em campo, a cidade muda de ritmo por decisão política.
A Prefeitura de Curitiba definiu que servidores municipais poderão ser dispensados duas horas antes dos jogos do Brasil. Para a partida contra a Escócia, marcada para 19h, a saída poderá ocorrer às 17h.
A regra vale para unidades com jornada normal de trabalho. Serviços públicos essenciais devem manter continuidade de atendimento, independentemente do jogo. As horas não trabalhadas terão de ser compensadas depois, conforme organização de cada secretaria ou órgão.
O Tribunal de Justiça do Paraná também ajustou a engrenagem. Em 24 de junho, o expediente do Foro Judicial de Primeira e Segunda Instâncias e das Secretarias do Tribunal será das 12h às 17h, sem intervalo, com plantão judiciário em seguida.
A Copa, portanto, não reorganiza apenas a televisão da sala. Ela reorganiza repartição, balcão, ônibus, turno, audiência, sala de aula, bar, mercado e escala de trabalho.
O ponto político da pauta está aí. Quando o poder público muda expediente, ele reconhece que futebol não é só lazer. É fato social com impacto administrativo, econômico e urbano.
A diferença aparece no relógio de cada grupo. O servidor pode sair antes, com compensação posterior. O trabalhador de bar pode entrar mais cedo e sair mais tarde. O motorista de aplicativo pode enfrentar pico antes e depois do jogo. O comerciante calcula movimento. O transporte precisa absorver deslocamento concentrado. A família ajusta escola, cuidado e jantar.
A Seleção para parte da cidade, mas não para a cidade inteira.
Esse é o conflito real escondido nas listas de “abre e fecha”. A Copa cria um direito informal ao tempo de assistir, mas esse direito não chega igual para todos. Chega por portaria, decreto, escala, negociação com patrão, jornada informal ou necessidade de trabalhar enquanto outros torcem.
No serviço público, a regra vem por ato administrativo. No setor privado, depende de acordo, convenção, liberalidade da empresa ou compensação. No comércio e nos bares, a partida vira oportunidade de faturamento. Na saúde, segurança, limpeza, transporte e atendimento essencial, a bola rola enquanto o plantão segue.
A política do futebol também atravessa a Fifa. A entidade passou a defender pausas obrigatórias de hidratação na Copa de 2026, em jogos disputados sob calor nos Estados Unidos, México e Canadá. As paradas, previstas aos 22 e 67 minutos, foram apresentadas como medida esportiva e de proteção física, mas abriram debate sobre ritmo do jogo, janela de publicidade, transmissão e poder de decisão sobre o espetáculo.
O futebol moderno não para só para beber água. Para para proteger atleta, ajustar tática, vender audiência, encaixar publicidade e administrar risco climático.
Curitiba vive a versão local desse mesmo fenômeno. O jogo de 90 minutos vira expediente público, consumo privado, logística urbana e disputa pelo tempo de trabalho.
Brasil x Escócia não será feriado em Curitiba. Mas será um evento capaz de mexer com a máquina pública, o comércio e a vida cotidiana. A pergunta política não é se o curitibano vai assistir ao jogo. A pergunta é quem terá direito ao tempo da Copa e quem continuará trabalhando para que a cidade funcione enquanto a bola rola.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




