Cerca de 700 empresas paranaenses identificadas no último levantamento público estadual entram na reta final da investigação comercial dos Estados Unidos contra o Brasil. A audiência do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) começa em 6 de julho, continua em 7 de julho e antecede o encerramento do prazo legal de 12 meses, em 15 de julho, para a conclusão do processo. Dezesseis empresas obtinham mais de 90% da receita com vendas ao mercado americano.
A proposta colocada em consulta pelo USTR prevê tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, com exceções para determinados bens, materiais informativos, doações, bagagem acompanhada, artigos já alcançados por tarifas da Seção 232 e produtos listados em anexo. A investigação envolve comércio digital, serviços eletrônicos de pagamento, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso do etanol ao mercado brasileiro e desmatamento ilegal.
O relógio começou a correr em 15 de julho de 2025, quando o USTR abriu formalmente a investigação. A legislação americana estabelece prazo de até 12 meses para a determinação em processos dessa natureza. A audiência de 6 e 7 de julho será, portanto, a última grande etapa pública antes do marco de 15 de julho de 2026.
Para o Paraná, a conta é concreta. A Secretaria de Estado da Fazenda e a Receita Estadual informaram, em agosto de 2025, que aproximadamente 700 empresas tinham mais de 1% do faturamento dependente das exportações aos Estados Unidos. Dentro desse grupo, 16 retiravam mais de 90% da receita daquele mercado.
O levantamento continua sendo a referência pública estadual mais detalhada localizada, mas não representa um censo atualizado para julho de 2026. A nota oficial consultada não informa em quais municípios estão essas empresas, quantos trabalhadores empregam, quais cadeias locais abastecem nem quantas permanecem em cada faixa de dependência. Sem esse mapa, o impacto regional do tarifaço permanece escondido atrás de um número estadual agregado.
O Paraná exportava, em média, US$ 1,5 bilhão por ano aos americanos. Madeira e derivados, como painéis de MDF, esquadrias e portas, estavam na linha de frente. Nos quatro anos anteriores ao levantamento, mais de 90 grupos de produtos paranaenses chegaram aos Estados Unidos, entre eles máquinas, móveis, café, açúcar, fertilizantes, peixes, plásticos, alumínio, borracha, medicamentos e óleos vegetais.
Isso significa que a ameaça não termina na empresa que emite a nota de exportação. Uma encomenda cancelada pode reduzir turnos em fábricas, fretes, compras de madeira, embalagens, manutenção de máquinas e capital de giro. O efeito alcança trabalhadores da indústria madeireira e moveleira, transportadores, produtores, cooperativas, pequenos fornecedores e municípios cuja arrecadação depende dessas atividades.
A própria documentação americana coloca madeira serrada e móveis de madeira no debate sobre desmatamento ilegal. O USTR afirma que pretende avaliar se produtos brasileiros foram fabricados com madeira extraída ilegalmente. A inclusão não comprova irregularidade de empresas paranaenses, mas coloca um dos principais segmentos exportadores do estado no centro da argumentação usada por Washington.
O Pix abre outra frente. Segundo documento apresentado ao USTR e noticiado pelo Blog do Esmael, Flávio Bolsonaro defendeu uma legislação que impeça a integração do sistema brasileiro com arranjos não ocidentais de liquidação transfronteiriça. De acordo com o site, o senador argumentou que a tarifa seria uma resposta inadequada e prejudicaria investimentos, mas apresentou a limitação internacional do Pix como um sinal político capaz de reduzir as preocupações do governo dos Estados Unidos.
O calendário oficial do USTR coloca Flávio Bolsonaro no primeiro painel de 7 de julho, ao lado de representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do setor de calçados. A presença transforma o documento em posição política a ser defendida diante do governo americano, não apenas em texto protocolado para consulta.
A discussão exige respostas objetivas dos pré-candidatos do Paraná. Eles apoiam uma restrição legal que impeça o Pix de se conectar, no futuro, a redes de pagamento classificadas como não ocidentais? Consideram aceitável negociar infraestrutura financeira brasileira para afastar tarifas? Aceitam que uma medida comercial seja adiada, acelerada ou condicionada ao calendário eleitoral de outubro?
A cobrança precisa alcançar também o governo estadual. A Secretaria da Fazenda e a Receita Estadual devem apresentar um mapa agregado, por município e setor, com número de empresas, empregos, participação das vendas aos Estados Unidos e produtos atingidos, preservado o sigilo fiscal. O dado de 700 empresas mostra a dimensão do risco, mas não permite saber onde uma tarifa de 25% pode fechar turnos, suspender contratos ou empurrar fornecedores ao crédito mais caro.
A reta final do tarifaço não pode ser reduzida a mais um capítulo do duelo verbal entre Lula e a família Bolsonaro. Entre 6 e 15 de julho, Washington discutirá uma medida capaz de atingir fábricas, cooperativas, transportadoras e trabalhadores do Paraná. O estado precisa conhecer a própria conta antes que a decisão chegue pronta dos Estados Unidos.
Acompanhe no Blog do Esmael a audiência do USTR, a manifestação de Flávio Bolsonaro e os efeitos do processo sobre os empregos e as exportações do Paraná.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




