Paris marca posição militar e política em território estratégico diante da escalada dos EUA
Emmanuel Macron pisou em solo groenlandês neste domingo (15) como o primeiro chefe de Estado estrangeiro a visitar o território desde que Donald Trump ameaçou tomar o controle da ilha. A visita foi curta, simbólica e potente. Com uma frase seca — “não acho que é isso que os aliados fazem” — o presidente francês respondeu diretamente às ameaças de anexação feitas por Trump, e abriu uma nova frente na disputa geopolítica pelo Ártico.
A Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, abriga apenas 57 mil habitantes, mas ocupa uma posição estratégica entre o Atlântico Norte e o Polo. É peça-chave para o escudo antimísseis dos EUA e guarda imensos depósitos de terras raras, o que a transforma em alvo da nova corrida global por recursos e influência militar.
Bastidores da visita: solidariedade com recado à Casa Branca
Macron chegou a bordo de uma fragata dinamarquesa, encontrou os primeiros-ministros da Dinamarca e da Groenlândia — Mette Frederiksen e Jens-Frederik Nielsen — e, antes mesmo de falar em aquecimento global ou desenvolvimento sustentável, cravou o que a França considera inegociável: “A integridade territorial da Groenlândia deve ser respeitada.”
A viagem teve chancela direta de Copenhague e de Nuuk, capital da Groenlândia, como reação à retórica agressiva de Trump. Em março, o vice-presidente americano J.D. Vance esteve na base de Pituffik, cobrando mais ação da Dinamarca e sugerindo que os EUA poderiam agir sozinhos para “proteger os interesses estratégicos”.
O gesto francês, portanto, serviu de contrapeso europeu à política expansionista de Washington. Para Paris, o Ártico virou também um campo de afirmação da autonomia militar da União Europeia.

Disputa por minérios, mísseis e soberania: o novo tabuleiro global
A Groenlândia não é membro da União Europeia, mas tem acordo de associação. A França, como única potência nuclear do bloco, assume protagonismo ao responder às ameaças de Trump, que, segundo o Wall Street Journal, já estariam respaldadas por planos do Pentágono para tomar a ilha à força, se necessário.
O think tank francês Ifri resumiu: “A postura agressiva do governo Trump faz da França um parceiro estratégico para Dinamarca e Groenlândia. O apoio francês não é só diplomático. É geopolítico.”
Além de rejeitar qualquer tentativa de compra — como já ocorrera em 2019 —, Jens-Frederik Nielsen afirmou que a ilha “nunca será propriedade de ninguém” e que as declarações dos EUA foram “desrespeitosas”.
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O que está em jogo com a Groenlândia
A ilha reúne três fatores decisivos para o xadrez geopolítico:
- Minérios estratégicos, como nióbio e terras raras.
- Posição militar vital na defesa aérea dos EUA contra mísseis russos.
- Novas rotas de navegação abertas pelo derretimento das calotas polares.
Macron se comprometeu com programas de apoio europeu ao desenvolvimento sustentável da ilha, sem abrir mão da soberania groenlandesa — uma resposta clara à tentativa de “predação geoestratégica” de Washington.
Não à anexação
A ofensiva de Macron marca a primeira reação institucional europeia ao que pode ser interpretado como ensaio de anexação imperial do século XXI. A visita consolida uma aliança informal entre França, Dinamarca e Groenlândia contra a lógica de força defendida por Trump e pelo atual comando do Pentágono.
Do ponto de vista do Brasil, esse episódio mostra como a disputa internacional por recursos estratégicos e rotas comerciais também se expressa em atos de provocação diplomática. Macron não apenas sinalizou apoio: ele armou, com gestos e palavras, uma barricada simbólica diante da expansão americana.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




