A presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffmann, voltou a mirar a Rede Globo nesta segunda-feira (16), após a entrevista exibida no Fantástico com o presidente Lula. A emissora, segundo a deputada, distorceu o debate sobre a prisão do líder petista em 2018 e tentou manter viva a narrativa da Lava Jato, já desmoralizada pela própria Justiça.
Durante a entrevista, a repórter Sônia Bridi questionou Lula:
“Presidente, quando o senhor foi preso, condenado, o senhor passou por várias instâncias da Justiça. O senhor considera que não teve direito de defesa?”
Lula rebateu: “Eu não tive direito de defesa. Eu fui preso primeiro, mas depois me defendi.”
A edição da Globo, contudo, rapidamente reforçou a narrativa favorável à Lava Jato, destacando o processo jurídico e omitindo as arbitrariedades já reconhecidas. O caso Lula, afinal, foi anulado pelo STF em 2021, que não apenas declarou a incompetência da 13ª Vara de Curitiba, mas também reconheceu a parcialidade do ex-juiz e atual senador Sergio Moro.
Gleisi não deixou a emissora sem resposta. Em tom firme, a deputada contestou a Globo e restabeleceu os fatos [vídeo abaixo]:
“Lula nunca teve direito à presunção de inocência. Ele foi julgado por um juiz parcial, incompetente, e teve cerceado seu direito à defesa. Sergio Moro e o TRF-4 negaram sistematicamente pedidos de perícias e produção de provas.”
A presidenta do PT foi além, lembrando que Lula foi condenado com base em “fatos indeterminados”, prática que não encontra respaldo no devido processo legal. A condução coercitiva ilegal, a seletividade das provas e a relação obscura entre Moro e a força-tarefa da Lava Jato tornaram o episódio um símbolo de abuso judicial.
Moro, agora senador, não perdeu tempo e reforçou sua versão dos acontecimentos:
“Lula foi preso após julgamento, teve amplo direito à defesa e foi beneficiado por reviravoltas políticas.”
Mas o que o ex-juiz omite é o papel central que ele desempenhou como protagonista político. Além de parcialidade comprovada, Moro abriu caminho para o golpe institucional de 2016 e para o enfraquecimento de direitos fundamentais no país.
Gleisi Hoffmann, no entanto, enfrenta uma contradição solitária: a Globo é hoje a maior beneficiária das verbas publicitárias do governo Lula. Até outubro de 2024, a emissora recebeu R$ 87,2 milhões via Secretaria de Comunicação Social (Secom). Isso supera o total de 2022 e corresponde a 53% dos investimentos federais em televisão.
Na prática, a Globo faturou mais do que a soma de 17 outras emissoras. Record TV, por exemplo, ocupa o segundo lugar no ranking, com R$ 35,8 milhões. Durante o governo Bolsonaro, os valores eram invertidos: a Record liderava, acumulando R$ 272,2 milhões, enquanto a Globo ficava com R$ 263,6 milhões.
A mudança de critério evidencia as prioridades da atual administração, que aposta em audiência e alcance para justificar os contratos publicitários. A postura pragmática, porém, desperta críticas dentro da base aliada e acende o debate sobre a coerência do discurso político.
A Globo, que esteve ao lado da Lava Jato no auge do golpe contra Lula, agora se vê na confortável posição de maior beneficiária das campanhas governamentais. Mas a lembrança dos abusos cometidos contra o ex-presidente segue viva, especialmente entre aqueles que questionam o papel da mídia no enfraquecimento das instituições democráticas.
Gleisi Hoffmann acertou ao repor os fatos, mas seu alerta ecoa de forma isolada. Afinal, o jogo político e o pragmatismo econômico parecem caminhar de mãos dadas, enquanto a Globo continua lucrando — tanto com o dinheiro público quanto com a polêmica que alimenta.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




