A revista britânica The Economist avaliou que o Brasil entrou na crise do Oriente Médio com uma proteção que poucos países têm: uma indústria madura de etanol e biodiesel, capaz de amortecer parte do choque do petróleo provocado pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. A leitura é direta: enquanto Ormuz segue no centro do risco global, o Brasil chega menos exposto porque já mistura biocombustíveis em larga escala no tanque do consumidor.
Esse colchão existe no papel e na bomba. Desde 1º de agosto de 2025, a mistura obrigatória passou a ser de 30% de etanol anidro na gasolina e de 15% de biodiesel no diesel. Ao mesmo tempo, o Ministério de Minas e Energia já articula estudos para testar uma elevação futura até E35 na gasolina e B25 no diesel, desde que haja comprovação técnica.
O país também tem escala para sustentar essa estratégia. A Empresa de Pesquisa Energética afirma que o Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol, com cerca de 31% da produção global. No mercado interno, a base automotiva ajuda: a própria EPE registra que os veículos flex correspondiam a 77% da frota de leves em 2023, o que dá ao consumidor uma margem de escolha que quase nenhum grande mercado tem hoje.
Isso não significa blindagem total. Os preços já subiram no país. Pelos dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a gasolina saiu de R$ 6,30 por litro na semana encerrada em sexta-feira (7) para R$ 6,78 na semana encerrada em sexta-feira (28). No mesmo intervalo, o diesel S10 foi de R$ 6,15 para R$ 7,57. O etanol hidratado subiu bem menos, de R$ 4,61 para R$ 4,72. O retrato do mês é eloquente: o choque chegou ao bolso do brasileiro, mas atingiu com mais força justamente o combustível fóssil mais sensível para frete, comida e inflação.
É aí que a tese da Economist ganha densidade. O Brasil não escapou da turbulência, mas tem um amortecedor que reduz o repasse integral do barril internacional para a bomba. Em economias mais dependentes de derivados fósseis, a transmissão tende a ser mais seca e mais rápida. Aqui, a mistura obrigatória e a frota flex funcionam como defesa estrutural, não como improviso de última hora.
Há ainda um esforço de contenção no front doméstico. A Petrobras informou à Reuters que vai ofertar em abril 70 milhões de litros adicionais de diesel S10 e 95 milhões de litros extras de gasolina por contratos existentes, abandonando leilões que estavam elevando os prêmios. Segundo a agência, a mudança busca segurar os preços internos depois da disparada causada pela guerra.
O problema é que a pressão externa continua aberta. Analistas ouvidos pela Reuters avaliam que os preços do petróleo devem seguir elevados em vários cenários de guerra, sobretudo porque o Estreito de Ormuz responde por cerca de 20% do trânsito global de petróleo e gás. Em outras palavras, o Brasil tem escudo, mas não tem imunidade. Se o conflito escalar mais um degrau, diesel, frete e inflação continuarão sob pressão.
A boa notícia para o Brasil é que o país não começou essa crise de joelhos. Construiu ao longo de décadas uma saída parcial dentro de casa, com cana, biodiesel, tecnologia flex e mistura obrigatória. Num mundo em guerra por energia, isso deixou de ser detalhe ambiental e virou ativo econômico de primeira ordem.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




