O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) segue na frente, mas o novo Datafolha mostrou neste sábado (7) que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou de ser aposta lateral da extrema direita para se tornar polo real da disputa presidencial de 2026. A pesquisa encurta a distância entre os dois, consolida o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro como herdeiro do bolsonarismo e complica ainda mais a vida de quem tentava vender uma direita sem sobrenome.
Não é só uma divulgação de números.
É uma reordenação de forças.
No cenário hoje mais provável de primeiro turno, Lula aparece com 38% das intenções de voto, contra 32% de Flávio Bolsonaro. Na sequência, vêm o governador Ratinho Junior (PSD-PR), com 7%, o governador Romeu Zema (Novo-MG), com 4%, Renan Santos (Missão), com 3%, e Aldo Rebelo (DC), com 2%. Outros 11% dizem rejeitar todos, e 3% afirmam não saber em quem votar.
O dado mais duro para o Planalto está no segundo turno.
A vantagem de Lula sobre Flávio, que era de 15 pontos em dezembro, caiu para apenas 3 pontos. Agora, o petista aparece com 46%, contra 43% do senador do PL, num empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Esse é o fato político central da rodada.
Flávio se firmou como nome competitivo num campo em que parte do centrão, do mercado e da centro-direita ainda sonhava com uma candidatura mais palatável, como a do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). O Datafolha, ao testar e expor esse desempenho, reduz o espaço da fantasia moderada e coloca a direita diante de uma escolha concreta: ou fecha com o bolsonarismo raiz, ou entra em guerra aberta por liderança.
A pesquisa também mostra que essa consolidação já começou a penetrar a memória espontânea do eleitor.
Sem a apresentação de nomes, Flávio passou a ser citado por 12% dos entrevistados. Em dezembro, ele sequer aparecia. Lula foi de 24% para 25%. Jair Bolsonaro, inelegível, surge com 3%. Isso significa que a marca Bolsonaro continua viva, mas já encontra em Flávio um veículo eleitoral mais nítido.
No mundo real da política, isso muda muita coisa.
Tarcísio escorrega para 21% nos cenários testados e perde lastro como solução preferencial de uma direita envernizada. Ratinho Junior até aparece como o melhor nome do PSD, mas ainda muito distante do pelotão da frente. A tentativa de Gilberto Kassab de juntar postulantes e escolher um campeão, por enquanto, não ameaçou o eixo Lula versus Flávio.

Ratinho, aliás, leva uma notícia mista para o Paraná.
De um lado, confirma-se como o nome mais competitivo fora da polarização principal no campo da centro-direita. De outro, o percentual de 7% no primeiro turno e o cenário de 45% a 41% para Lula no segundo turno mostram que seu alcance nacional segue limitado, embora menor rejeição e alto desconhecimento ainda lhe deixem margem de crescimento. Para um projeto presidencial, isso é ativo e fraqueza ao mesmo tempo.
O recorte do eleitorado reforça que o país continua dividido em blocos já conhecidos desde 2018.
Lula mantém desempenho mais homogêneo e vai melhor entre nordestinos, católicos, eleitores de menor renda e menos escolarizados. Entre os que ganham até dois salários mínimos, marca 42%. Flávio, por sua vez, cresce entre evangélicos, eleitores do Sul e moradores do Norte e Centro-Oeste. Seu melhor resultado, 48%, aparece entre evangélicos.
A polarização também se expressa na rejeição.
Lula tem 46% dos entrevistados dizendo que não votariam nele de jeito nenhum. Flávio aparece com 45%. Em outras palavras, os dois carregam teto alto e núcleo duro forte. Isso ajuda a entender por que a disputa tende a continuar travada em clima de confronto, com pouca margem para aventuras centristas.
No caso do governo, o Datafolha capta um ambiente mais pesado.
O escândalo do Banco Master, mesmo sem atingir diretamente o núcleo do Planalto, espalha percepção de desgaste. O caso do INSS também adiciona ruído, sobretudo pelo envolvimento do nome de Fábio Luís Lula da Silva. Soma-se a isso a desaceleração econômica, os juros altos, a irritação da classe média e o ambiente externo tensionado pela guerra no Oriente Médio. Tudo isso forma um cenário menos favorável ao presidente do que no segundo semestre de 2025.
Do lado bolsonarista, a prisão de Jair Bolsonaro não desorganizou o campo como parte da elite política imaginava.
Ao contrário. O levantamento sugere que a narrativa de perseguição judicial, turbinada pela ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e pela vitrine em torno do ministro Alexandre de Moraes, ajudou Flávio a ocupar o espaço de continuador legítimo do clã. O sobrenome, que pesa na rejeição, também funciona como cola identitária para a base radicalizada.
O efeito mais imediato dessa pesquisa, portanto, não é apenas eleitoral.
É organizativo.
Flávio ganhou narrativa. Tarcísio perdeu centralidade. Ratinho preservou algum ativo, mas longe de furar a bolha. Lula continua líder, porém já não pode tratar a sucessão como corrida sob controle. O novo Datafolha estreitou a pista, reacendeu a polarização e mostrou que 2026 começa menos como eleição de gestão e mais como disputa aberta pelo comando do campo conservador e pelo futuro do país.
A direita que pretendia terceirizar o bolsonarismo para um nome mais aceitável recebeu um aviso incômodo neste sábado (7): a base preferiu o herdeiro. E o governo Lula recebeu outro, igualmente claro: a vantagem existe, mas ficou curta demais para qualquer triunfalismo.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




