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Cury cresce onde Lula e Flávio Bolsonaro disputam o eleitor

O crescimento de Augusto Cury (Avante) começa a criar um problema eleitoral para Flávio Bolsonaro (PL), mas os dados disponíveis ainda não permitem dizer que o escritor esteja consolidando uma candidatura capaz de romper definitivamente a polarização. A pista mais importante está menos nos 11% das pesquisas e mais no perfil de quem está escolhendo Cury.

O levantamento Real Time Big Data divulgado nesta terça-feira, 1º de setembro de 2026, ouviu 2.000 eleitores por telefone e internet entre 27 e 31 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais e registro BR-03490/2026. Cury aparece com 11%, em terceiro lugar, atrás de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro.

O Blog do Esmael identificou um dado mais revelador: na Real Time, 33% dos eleitores de Cury dizem escolhê-lo porque ele é o “menos ruim” entre as opções. Outros 18% afirmam votar nele porque rejeitam os adversários. Entre os eleitores de Lula, essa primeira justificativa aparece em 6%; entre os de Flávio, em 14%.

Isso muda a leitura sobre a chamada terceira via. Cury não está necessariamente conquistando 11% porque esses eleitores tenham aderido integralmente a suas propostas. Uma parcela significativa parece estar usando sua candidatura para escapar da escolha entre Lula e Flávio.

É justamente aí que aparece o conflito para o candidato do PL.

A pesquisa BTG/Nexus mostra que os eleitores não polarizados representam cerca de 20% do eleitorado. Nesse grupo, Cury alcança 19%, desempenho superior ao dos demais candidatos que tentam ocupar o espaço fora da disputa Lula versus Flávio. O escritor também chega a 26% entre os eleitores que consideram Flávio uma alternativa, contra 14% entre os que veem Lula como alternativa.

O dado sugere que Cury consegue entrar em uma faixa do eleitorado que, até aqui, funcionava como reserva potencial de votos para os dois líderes. O problema é que a maior afinidade do escritor está do lado direito.

No recorte da BTG/Nexus, Cury registra 8% entre os bolsonaristas convictos, 26% entre aqueles que veem Bolsonaro como alternativa e 19% entre os eleitores que se declaram contra Lula e contra Bolsonaro. Entre os lulistas convictos, são 3%.

Há, portanto, uma contradição eleitoral importante. Cury cresce como candidato de rejeição à polarização, mas seu eleitorado não é ideologicamente neutro. Ele consegue avançar no espaço dos não polarizados e, ao mesmo tempo, captura uma parcela maior de eleitores que poderiam permanecer com Flávio.

Essa migração ajuda a explicar por que o crescimento do escritor pode ser mais incômodo para Flávio no primeiro turno do que para Lula.

A comparação das pesquisas reforça a hipótese. Na BTG/Nexus, Cury saltou de 2% para 11% em uma semana, enquanto Lula oscilou de 41% para 39% e Flávio caiu de 37% para 33%. Na pesquisa Atlas/Intel, realizada por metodologia diferente, Cury passou de 1,6% para 7,8%.

O próprio CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, avaliou que Cury retirou votos de diferentes espectros, principalmente de Lula, Flávio, Romeu Zema (Novo) e das faixas de branco e nulo. Segundo a avaliação reproduzida pela imprensa, parte relevante desse eleitorado é formada por pessoas que não estavam satisfeitas com as opções disponíveis.

Isso explica por que seria precipitado classificar Cury simplesmente como um novo candidato de direita ou como uma terceira via tradicional.

Ele ocupa os dois espaços ao mesmo tempo: oferece uma saída para quem rejeita Lula e Flávio, mas também absorve eleitores que poderiam votar no candidato do PL.

O efeito mais delicado aparece quando a pergunta deixa de ser “em quem você votaria no primeiro turno?” e passa a ser “em quem você votaria no segundo?”.

Entre os eleitores que hoje escolhem Cury, a BTG/Nexus aponta que 46% migrariam para Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno contra Lula. Outros 23% escolheriam Lula e 29% optariam por branco, nulo ou não saberiam responder.

Ou seja: Cury pode retirar votos de Flávio agora e, ao mesmo tempo, devolver uma parcela expressiva desse eleitorado ao senador caso a eleição caminhe para uma disputa direta contra Lula.

Essa característica reduz o risco imediato para Flávio em um eventual segundo turno, mas aumenta o problema no primeiro.

A eleição pode, portanto, ganhar uma dinâmica nova. Flávio precisa impedir que Cury avance o suficiente para transformar uma disputa apertada com Lula em uma corrida de três candidatos competitivos. Ao mesmo tempo, não pode atacar Cury de maneira a romper uma possível ponte com esse eleitorado para a segunda etapa.

Lula enfrenta um dilema semelhante, mas de natureza diferente. O crescimento de Cury dificulta uma eventual vitória petista no primeiro turno ao manter votos fora da polarização. Em uma disputa direta, porém, os números disponíveis mostram que o eleitor de Cury tende mais a migrar para Flávio do que para Lula.

A novidade, portanto, não é apenas Cury ter chegado aos dois dígitos. O dado eleitoral relevante é que ele parece ter encontrado uma demanda reprimida: eleitores que querem votar em alguém diferente de Lula e Flávio, mas que ainda não romperam definitivamente com nenhum dos dois campos.

O fenômeno também ganhou combustível fora das pesquisas. Depois do debate da Band, em 23 de agosto, as buscas pelo nome de Cury dispararam e o candidato ganhou milhões de seguidores nas redes sociais. O Blog do Esmael registrou crescimento de 1,2 milhão de seguidores no Instagram em uma semana e aumento persistente das buscas no Google após o debate.

Ainda falta, porém, saber se essa onda sobreviverá à campanha eleitoral propriamente dita.

A próxima rodada de pesquisas será decisiva para separar fenômeno de curto prazo de mudança estrutural no eleitorado. Também será necessário observar levantamentos presenciais, já que as pesquisas que captaram com maior intensidade a subida de Cury foram telefônicas ou realizadas pela internet.

Por enquanto, a resposta à pergunta é objetiva: Cury já virou problema eleitoral para Flávio no primeiro turno, mas ainda pode ser um aliado involuntário do senador no segundo.

O escritor cresce justamente no eleitorado que não quer repetir a polarização. E, se essa parcela continuar aumentando, Flávio terá de disputar não apenas contra Lula, mas também contra a candidatura que está oferecendo ao eleitor uma terceira resposta antes que ele seja obrigado a escolher entre os dois.

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