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Ao jogar a batata quente no colo de Lula, campanha de Flávio Bolsonaro quer que o PT faça o trabalho bruto para barrar Cury no segundo turno, pois avalia o PL, o escritor se tornaria favorito
O crescimento de Augusto Cury (Avante) nas pesquisas presidenciais desta segunda-feira (31) alterou o mapa da disputa pelo Palácio do Planalto. O escritor saltou para a terceira colocação em dois levantamentos, ultrapassando candidatos tradicionais da direita, como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).
A reação nos bastidores da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), no entanto, não é de alarme. A leitura dos bolsonaristas é que, se Cury continuar avançando, o primeiro prejudicado será o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A lógica é direta: Cury estaria ocupando um espaço eleitoral de quem procura uma alternativa à polarização entre Lula e Flávio. Se esse movimento for suficiente para levar o escritor ao segundo turno, avaliam aliados do senador, a direita tenderia a se alinhar contra o candidato petista.
Em outras palavras, na conta política feita pelo entorno de Flávio, o crescimento de Cury não seria necessariamente uma ameaça ao bolsonarismo. Seria uma ameaça à estratégia eleitoral do PT.
Ao jogar a batata quente no colo de Lula, Flávio Bolsonaro quer que o PT faça o trabalho bruto para barrar Cury. Ou seja, o bolsonarismo aposta na lei do menor esforço para chegar ao segundo turno contra Lula e, de graça, eventualmente, receber o apoio do candidato do Avante.
Cury já passou os candidatos tradicionais da direita
A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira mostra a dimensão da mudança. Cury saiu de 2% para 11% em apenas uma semana e assumiu isoladamente a terceira posição.
No mesmo levantamento, Lula aparece com 39% e Flávio Bolsonaro com 33%. Ronaldo Caiado tem 5%, Renan Santos, 3%, e Romeu Zema, 1%.
A Atlas/Bloomberg, também divulgada nesta segunda-feira, encontrou Cury com 7,8%, numericamente à frente de Renan Santos, que registrou 7,6%. Caiado apareceu com 3,3% e Zema, com 1%. Lula marcou 43,4% e Flávio, 33,7%.
As duas pesquisas têm metodologias diferentes e não devem ser comparadas diretamente como se fossem uma única série. Ainda assim, o fato político captado pelas duas é semelhante: Cury passou a ocupar o espaço imediatamente atrás de Lula e Flávio.
A aposta bolsonarista
É nesse ponto que entra a leitura política da campanha de Flávio Bolsonaro.
Segundo apuração do Blog do Esmael, aliados do senador consideram que o avanço de Cury pode retirar votos principalmente do eleitor que não quer escolher entre lulismo e bolsonarismo. Por isso, a avaliação interna é que o crescimento do escritor não precisa ser combatido diretamente pelo PL neste momento.
O raciocínio dos bolsonaristas vai além.
Na hipótese de Cury conseguir ultrapassar Flávio e chegar ao segundo turno contra Lula, a tendência, segundo essa avaliação, seria de apoio da direita ao candidato do Avante.
A conta é eleitoralmente simples: para o campo bolsonarista, Cury no segundo turno contra Lula seria preferível à permanência do petista no Planalto.
Essa hipótese, evidentemente, não significa que Cury tenha hoje condições de disputar o segundo turno. Ele continua atrás de Lula e Flávio nos levantamentos desta segunda-feira. O ponto é outro: pela primeira vez, uma candidatura de fora da polarização ganhou massa suficiente para alterar as contas dos adversários.
O problema que Cury cria para Lula
O crescimento do escritor também interessa diretamente à estratégia do PT porque pode fragmentar o eleitorado que busca uma alternativa aos dois polos principais.
Na BTG/Nexus, Cury alcançou 11% justamente enquanto Lula e Flávio permaneceram nas duas primeiras posições. A pesquisa também apontou empate técnico entre os dois principais candidatos em um cenário de segundo turno: Lula com 46% e Flávio com 45%.
Na Atlas/Bloomberg, porém, Lula mantém vantagem maior sobre Flávio no segundo turno: 47,1% contra 42,6%. O levantamento ouviu 5.014 eleitores entre 25 e 30 de agosto, por recrutamento digital aleatório, com margem de erro de um ponto percentual.
A divergência entre os institutos reforça uma cautela necessária: ainda não há evidência suficiente para afirmar que Cury já tenha um caminho consolidado para o segundo turno.
Há, contudo, uma mudança concreta no cenário.
O escritor deixou de ser um candidato residual nas pesquisas e passou a disputar o posto de principal alternativa à polarização. Na BTG/Nexus, o salto foi de nove pontos em uma semana. O crescimento também veio acompanhado de forte expansão nas redes sociais.
A direita já admite uma mudança de lado
O aspecto mais revelador da movimentação nos bastidores é que o entorno de Flávio Bolsonaro começa a trabalhar com uma hipótese que, até pouco tempo atrás, parecia distante: a de que Cury pode superar o próprio senador.
Caso isso ocorra, a orientação política apontada ao Blog do Esmael é que a direita não necessariamente trataria Cury como inimigo principal. Ao contrário, poderia apoiá-lo contra Lula em um eventual segundo turno.
A posição mostra como a lógica da eleição pode mudar rapidamente quando aparece um candidato capaz de atravessar as bolhas políticas tradicionais.
Cury ainda precisa provar que seu crescimento não é apenas efeito de uma semana de forte exposição pública. A próxima rodada de pesquisas será importante para verificar se os 11% da BTG/Nexus e os 7,8% da Atlas/Bloomberg representam uma tendência ou um pico provocado pela combinação de debate, sabatinas, redes sociais e maior conhecimento do candidato.
Por enquanto, porém, a fotografia é inequívoca: Lula e Flávio continuam na frente, mas Augusto Cury entrou no jogo.
E, na leitura dos bolsonaristas, se o escritor continuar crescendo até alcançar Flávio, o problema será de Lula e do PT.
Como se vê, caro leitor, é a política como ela é, sem deepfake e sem inteligência artificial.
Acompanhe a evolução de Augusto Cury nas pesquisas presidenciais e os impactos da terceira via sobre a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




