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Trackings apontam avanço do candidato do Avante, que ganhou milhões de seguidores após debate; grupos bolsonaristas já o chamam de “Cavalo de Troia” de Lula
O crescimento de Augusto Cury (Avante) acendeu o sinal de alerta nos comitês presidenciais neste sábado (29). O escritor chegará à entrevista da TV Globo, prevista para depois do Jornal Nacional, por volta das 21h20, embalado por uma explosão nas buscas na internet, milhões de novos seguidores e trackings que, segundo apuração do Blog do Esmael, detectam avanço de sua candidatura.
Cury ainda aparece entre 2% e 4% nas pesquisas nacionais publicadas. O temor dos adversários é outro: estrategistas trabalham com a possibilidade de o escritor aproveitar a exposição nacional para acelerar essa curva e alcançar dois dígitos nas próximas semanas.
A entrevista desta noite será, portanto, um teste político de primeira grandeza.
Cury encerrará a série de sabatinas da Globo com os seis candidatos convidados pela emissora. Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) já passaram pela rodada.
A inquietação não surgiu do nada.
Depois do debate presidencial da Band, Cury registrou crescimento de 19,4% em seu perfil no Instagram, segundo levantamento da Vox Radar. A conta saltou de aproximadamente 8,3 milhões para 9,9 milhões de seguidores e posteriormente rompeu a marca de 10 milhões.
Outros levantamentos apontaram um ganho ainda maior ao ampliar a janela de observação. A Folha registrou aumento de cerca de 2,4 milhões de seguidores em uma semana.
As buscas pelo nome do candidato acompanharam a escalada.
Durante e depois do debate, Cury passou a liderar as pesquisas no Google entre os presidenciáveis. Eleitores procuraram informações sobre sua trajetória, livros, religião, partido e propostas políticas.
O fenômeno já é monitorado pelos adversários.
A CNN informou que campanhas concorrentes consideraram “incomum” o salto digital de Cury e passaram a acompanhar sua evolução. Integrantes dessas equipes chegaram a admitir, sob reserva, a possibilidade de recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) caso sejam identificadas irregularidades. A campanha do Avante nega crescimento artificial.
Trackings preocupam comitês
Segundo apuração do Blog do Esmael, trackings internos começaram a detectar avanço de Cury depois da exposição na Band.
Esses números não são pesquisas registradas e divulgadas ao público, razão pela qual não permitem afirmar que Cury já tenha alcançado determinado percentual nacional.
A informação relevante está na tendência identificada pelos comitês.
Há projeções políticas de que o candidato possa atingir dois dígitos caso consiga converter notoriedade digital em intenção de voto.
É essa possibilidade, e não um resultado eleitoral já consumado, que está mexendo com os principais comandos de campanha.
As pesquisas públicas ainda descrevem uma realidade diferente.
O PoderData colocou Cury com 4%, enquanto levantamento BTG/Nexus registrou 2%. Lula e Flávio Bolsonaro continuam concentrando a maior parcela do eleitorado e aparecem tecnicamente próximos na disputa nacional.
A pergunta que a entrevista deste sábado ajudará a responder é se existe defasagem entre essa fotografia das pesquisas e o movimento mais recente captado nas redes e nos levantamentos internos.
Bolsonaristas lançam tese do “Cavalo de Troia”
O crescimento também provocou reação em grupos bolsonaristas.
O Blog do Esmael apurou que apoiadores de Flávio Bolsonaro começaram a disseminar a narrativa de que Augusto Cury seria um “Cavalo de Troia” de Lula dentro da corrida presidencial.
A expressão é uma acusação política dos grupos e não descreve qualquer vínculo comprovado entre as campanhas de Cury e Lula.
O argumento utilizado pelos bolsonaristas parte da história recente do Avante.
Em 2022, o partido efetivamente apoiou Lula contra Jair Bolsonaro.
Naquele ano, André Janones, então pré-candidato presidencial pelo Avante, retirou sua candidatura e aderiu ao petista. A legenda passou a integrar formalmente a coligação Brasil da Esperança.
O Avante permaneceu no arco de apoio a Lula no segundo turno, quando o petista enfrentou Jair Bolsonaro. Levantamento do Blog do Esmael sobre as alianças partidárias registrou a sigla entre os partidos que apoiavam Lula.
Esse dado histórico é verdadeiro.
Não decorre dele, porém, que a candidatura de Augusto Cury em 2026 seja uma operação coordenada pela campanha petista.
Até o momento, não há evidência pública apresentada que sustente essa conclusão.
O rótulo de “Cavalo de Troia” deve ser entendido, portanto, pelo que ele é: uma narrativa eleitoral produzida por segmentos bolsonaristas diante do crescimento de um concorrente.
O problema é de onde podem sair os votos
A reação bolsonarista ajuda a revelar a principal dúvida aberta pelo fenômeno Cury.
Se ele crescer, de quem retirará votos?
O escritor construiu uma candidatura que tenta ocupar o espaço contrário à polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Esse posicionamento permite, em tese, disputar eleitores descontentes tanto com o petismo quanto com o bolsonarismo.
Mas a circulação da tese do “Cavalo de Troia” indica que parcelas da direita enxergam risco específico de perda de votos.
Cury é escritor de enorme alcance comercial, fala de empreendedorismo, critica a polarização e utiliza uma linguagem distante da esquerda partidária tradicional.
Isso cria potencial de entrada justamente em segmentos onde uma candidatura explicitamente lulista encontraria maior resistência.
É também por essa razão que sua aproximação pública com Pablo Marçal ganhou importância.
Marçal representa uma audiência digital com forte presença entre empreendedores, conservadores e eleitores identificados com discursos antissistema.
O crescimento de Cury dentro desse ecossistema aumenta o desconforto de uma campanha de Flávio Bolsonaro que precisa preservar a maior parte possível da antiga coalizão eleitoral de Jair Bolsonaro.
Seguidores não são votos
Há, contudo, um limite que precisa ser preservado.
Google Trends não mede intenção de voto.
Número de seguidores não mede intenção de voto.
Visualizações não equivalem a votos depositados na urna.
Uma pessoa pode pesquisar Augusto Cury por curiosidade, crítica, memes, livros ou interesse eleitoral.
O salto digital demonstra aumento de atenção, não automaticamente aumento eleitoral.
Mas atenção é matéria-prima de qualquer candidatura.
Antes do debate da Band, milhões de eleitores poderiam conhecer o escritor sem associá-lo à eleição presidencial.
Depois do programa, as próprias pesquisas feitas no Google mostram procura por partido, trajetória e candidatura.
Esse movimento reduz um dos maiores obstáculos de candidatos pequenos: o desconhecimento.
Globo pode multiplicar a exposição
É nesse contexto que a sabatina deste sábado assume peso.
Cury terá uma oportunidade que seus 35 segundos no horário eleitoral dificilmente conseguiriam oferecer: vários minutos de exposição nacional em horário nobre para apresentar quem é, explicar propostas e tentar se colocar como alternativa à disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
No primeiro programa presidencial no rádio, neste sábado, Cury teve apenas 35 segundos para reforçar sua candidatura, enquanto os principais concorrentes dispõem de estruturas partidárias e tempos significativamente maiores.
A televisão, portanto, funciona como equalizador circunstancial.
Foi assim na Band.
Pode acontecer novamente na Globo.
Caso a entrevista produza outra explosão de buscas e seguidores e essa movimentação posteriormente apareça nas pesquisas eleitorais, os comitês terão diante deles um novo problema estratégico.
Lula e Flávio Bolsonaro disputam voto a voto uma eleição atualmente marcada por empate técnico em levantamentos recentes. PoderData registrou Lula com 38% e Flávio Bolsonaro com 35% no primeiro turno. BTG/Nexus apontou 41% a 37%.
Nesse cenário, um candidato que cresce alguns pontos pode alterar a matemática do primeiro turno mesmo sem ameaçar imediatamente a liderança.
Para Caiado, Zema e Renan Santos, o problema é ainda mais imediato: Cury disputa justamente o espaço político do candidato que tenta romper a polarização.
Se alcançar dois dígitos, haverá menos oxigênio disponível para todos eles.
Por isso os trackings provocaram inquietação.
E por isso grupos bolsonaristas já começaram a tentar enquadrar Cury antes mesmo de descobrir até onde ele pode chegar.
A entrevista desta noite poderá indicar se a explosão digital foi apenas um fenômeno de poucos dias ou o início de uma nova variável na eleição presidencial.
Depois da Band, Cury conquistou atenção.
Na Globo, tentará transformá-la em voto.
O leitor do Blog do Esmael acompanha neste sábado a entrevista e seus efeitos na disputa presidencial. A pergunta para a próxima rodada de pesquisas será inevitável: Augusto Cury rompeu a barreira dos candidatos de um dígito?
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




