O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu fogo contra o senador Sergio Moro (PL) e o ex-procurador Deltan Dallagnol durante a sabatina do Jornal Nacional, da Globo, na noite de quinta-feira, 27 de agosto. Lula chamou os dois de “mentirosos” e afirmou que a imprensa brasileira ajudou a fabricar um “monstro” chamado Moro e outro chamado Dallagnol. [Assistir à análise política.]
A declaração recolocou a Lava Jato no centro da campanha presidencial, mas também produziu uma consequência direta na eleição do Paraná. Ao escolher polarizar com Moro e Dallagnol, Lula entregou à dupla lavajatista um adversário nacional perfeito para sua campanha estadual.
O problema para o campo lulista é que não há, neste momento, um candidato paranaense suficientemente identificado com Lula para transformar o ataque presidencial em votos contra Moro.
Requião Filho (PDT), segundo colocado na corrida pelo Palácio Iguaçu, tem apoio do campo progressista, mas não parece disposto a assumir integralmente a identidade lulista como eixo de sua campanha. Sandro Alex (PSD), terceiro colocado, está ligado ao governador Ratinho Junior e não tem interesse eleitoral em comprar a briga nacional entre Lula e a direita.
Na pesquisa Quaest divulgada em 24 de agosto, Sergio Moro apareceu com 37% das intenções de voto para o Governo do Paraná, contra 21% de Requião Filho e 15% de Sandro Alex. O levantamento ouviu 804 eleitores entre 20 e 23 de agosto, com margem de erro de três pontos percentuais e 95% de confiança.
A fotografia mostra Moro liderando a eleição estadual justamente no momento em que Lula decidiu enfrentá-lo nacionalmente.
Durante a entrevista, Lula retomou a prisão de 2018 e disse que havia sido vítima de uma “maior mentira montada nesse país”. O presidente afirmou que poderia ter deixado o Brasil, mas decidiu cumprir a prisão porque queria provar que Moro e Dallagnol eram mentirosos e que a imprensa teria de reconhecer o erro.
“Eu vou para a cadeia, que eu quero provar que o Moro é mentiroso, quero provar que o Dallagnol é mentiroso”, afirmou Lula.
Na sequência, o presidente voltou ao episódio do PowerPoint apresentado por Dallagnol em 2016 para explicar a acusação contra o então ex-presidente. Lula disse que não esquece o episódio e afirmou que a imprensa brasileira teria produzido um “monstro” chamado Moro e outro chamado Dallagnol.
A jornalista Renata Vasconcellos contestou a crítica à cobertura da Globo. Em seguida, César Tralli lembrou que a emissora fez retratação envolvendo o PowerPoint.
A fala de Lula tem peso especial no Paraná porque Moro não é apenas um adversário histórico do presidente. Ele é candidato ao Governo do Estado e construiu parte relevante de sua identidade eleitoral justamente sobre a Lava Jato.
Dallagnol, por sua vez, disputa uma das duas vagas do Paraná no Senado e tenta manter a imagem construída durante a operação. Os dois dividem o mesmo campo político no estado e aparecem associados ao palanque de Flávio Bolsonaro.
Em outras palavras, Lula atacou exatamente a marca eleitoral que Moro e Dallagnol mais têm interesse em defender.
Esse é o primeiro efeito político da declaração.
O segundo é mais delicado para o campo governista: a polarização precisa de dois lados organizados. Lula oferece o seu lado nacionalmente, mas a eleição paranaense tem outra configuração.
A Quaest mostrou Moro com 37%, Requião Filho com 21% e Sandro Alex com 15%. Em eventual segundo turno, Moro aparece com 51% contra 27% de Requião Filho e 48% contra 19% de Sandro Alex. Já no confronto entre os dois adversários de Moro, Requião Filho vence Sandro Alex por 37% a 24%.
Isso significa que a disputa pelo segundo turno ainda passa pelo eleitor que não está necessariamente organizado em torno da polarização Lula contra Bolsonaro.
Na pesquisa espontânea da Quaest, por exemplo, Moro tinha 13%, Requião Filho 7% e Sandro Alex 4%, enquanto 73% dos entrevistados ainda não haviam escolhido um nome.
É nesse eleitorado que a declaração de Lula pode produzir um efeito diferente daquele imaginado pelo presidente.
Ao atacar Moro e Dallagnol, Lula reforça a narrativa de confronto que a dupla utiliza para mobilizar seu eleitorado. Moro pode responder como vítima da velha polarização da Lava Jato contra o PT. Dallagnol pode fazer o mesmo no Senado. Flávio Bolsonaro, por sua vez, ganha um argumento para apresentar o grupo como alvo prioritário do presidente.
A armada bolso-lavajatista pode, portanto, faturar no Paraná por W.O.
Não porque Lula tenha mudado a preferência eleitoral dos paranaenses em uma noite, hipótese que não pode ser afirmada sem pesquisa posterior. Mas porque o presidente escolheu o confronto que mais interessa aos seus adversários e, até agora, não há no estado um candidato disposto a transformar esse confronto em uma campanha frontal contra Moro.
Requião Filho é o nome mais próximo desse campo. A pesquisa Quaest mostra que ele ocupa a segunda colocação, 16 pontos atrás de Moro. Mas sua estratégia eleitoral não se resume a uma candidatura presidencializada de Lula contra Moro.
Sandro Alex enfrenta problema diferente. Terceiro colocado na Quaest, ele está associado ao governador Ratinho Junior e precisa disputar o eleitorado de centro e de direita moderada que pode decidir o segundo turno. Comprar a briga de Lula contra Moro significaria abandonar uma parcela desse eleitorado.
A matemática eleitoral explica por que a fala de Lula pode ter consequência inesperada.
O presidente nacionaliza a disputa. Moro ganha um adversário conhecido e pode responder no terreno em que tem maior reconhecimento. Dallagnol recupera a Lava Jato como identidade de campanha. Flávio Bolsonaro ganha um argumento para apresentar seu grupo como alvo direto de Lula.
Enquanto isso, Requião Filho precisa decidir se quer transformar o apoio do campo lulista em identidade explícita de campanha ou preservar uma distância estratégica em relação à polarização nacional.
A eleição do Paraná, portanto, pode ser afetada por uma contradição: Lula quer derrotar Moro, mas o principal adversário de Moro ainda não assumiu o papel de representante local do lulismo.
A declaração do presidente foi forte. O efeito eleitoral, porém, dependerá de quem conseguir capitalizar a briga.
Se Moro fizer isso, Lula terá reforçado a campanha do adversário que atacou. Se Requião Filho conseguir transformar a polarização em voto estadual, o episódio poderá fortalecer sua candidatura. Se nenhum dos dois conseguir ocupar esse espaço, a direita bolso-lavajatista terá recebido de graça o melhor antagonista possível para manter sua militância mobilizada.
No Paraná, a guerra de Lula contra Moro pode estar apenas começando. A dúvida é quem vai ganhar os votos dessa guerra.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




