O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu a propaganda eleitoral para a Presidência da República no rádio, neste sábado, 29 de agosto, com um ataque frontal a Flávio Bolsonaro (PL). A campanha petista reproduziu o áudio em que o senador pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e transformou o episódio do filme “Dark Horse” no centro da ofensiva contra o principal adversário na corrida ao Palácio do Planalto.
A escolha rompeu com a tradição de reservar a estreia para uma apresentação predominantemente biográfica e programática. Lula usou os 5 minutos e 31 segundos de que dispõe para combinar realizações de seus governos com uma bateria de ataques a Flávio Bolsonaro, incluindo a relação com Vorcaro e o caso das rachadinhas.
O áudio virou a peça mais agressiva da largada. Na gravação, Flávio Bolsonaro chama Vorcaro de “irmão” e cobra recursos relacionados à produção de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. A campanha de Lula já havia antecipado a ofensiva em vídeo publicado nas redes sociais com o título “Dark Horse – um filme que o Flávio não quer que você veja”.
O dinheiro mencionado na disputa eleitoral é tratado pelas reportagens como R$ 61 milhões repassados por Vorcaro para a produção do filme. O episódio ganhou novo peso político porque, passados cerca de 100 dias da divulgação do áudio, não havia sido apresentada publicamente uma prestação de contas detalhada sobre a origem, a destinação e os contratos relacionados aos recursos. Flávio Bolsonaro passou a sustentar que o assunto estava encerrado.
A campanha petista decidiu justamente atacar essa tentativa de encerrar o episódio. A estratégia vinha sendo preparada antes da estreia do horário eleitoral, com as hashtags “cadeos61milhões” e “100dias” nas redes sociais. O objetivo declarado da operação política era manter o áudio circulando e impedir que o caso desaparecesse da agenda eleitoral.
O movimento ganhou força depois da sabatina de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional, da TV Globo, nesta sexta, 28 de agosto. Questionado sobre o financiamento de “Dark Horse”, o candidato voltou a defender a tese de que se tratava de uma relação privada e recusou apresentar publicamente a documentação que comprovaria a aplicação dos recursos.
A diferença de abordagem ficou evidente em menos de 24 horas. Na televisão, Flávio Bolsonaro havia tentado deslocar o debate para denúncias envolvendo o entorno de Lula, o Banco Master e o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva. No rádio, Lula respondeu levando para dentro da propaganda eleitoral o próprio áudio que compromete politicamente o adversário.
É o asfalto contra o palanque de grife. O senador entrou na disputa tentando construir uma imagem própria, com discurso sobre segurança, economia e família, além de se apresentar como candidato capaz de suceder Jair Bolsonaro. Lula decidiu puxá-lo imediatamente para os episódios mais difíceis de sua biografia política.
A estratégia de Flávio Bolsonaro no rádio foi diferente. O candidato do PL apostou na imagem pessoal, especialmente na aproximação com as mulheres, ao falar da esposa e das filhas. Também atacou Lula por temas como criminalidade e endividamento das famílias.
O contraste é calculado. Enquanto Flávio Bolsonaro tenta construir uma identidade eleitoral própria, Lula procura colar no adversário episódios associados ao período em que ele ainda era identificado principalmente como filho de Jair Bolsonaro e personagem da política do Rio de Janeiro.
O horário eleitoral, portanto, começou com uma disputa sobre quem terá o direito de definir a biografia do outro.
Lula tem a vantagem objetiva do tempo. Sua coligação dispõe de 5 minutos e 31 segundos por programa, contra 4 minutos e 20 segundos de Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado (PSD) tem 2 minutos e 2 segundos, enquanto Augusto Cury (Avante) dispõe de 35 segundos.
Essa diferença permite ao PT fazer duas coisas simultaneamente: apresentar Lula como candidato à continuidade e reservar uma parte relevante do programa para desconstruir o adversário. A estreia mostrou que a campanha não pretende esperar o segundo turno para transformar a eleição em confronto direto.
O caso Master é particularmente útil para essa estratégia porque reúne três elementos eleitorais: dinheiro, banqueiro investigado e uma relação pessoal registrada em áudio. A campanha petista não precisa reconstruir a história a partir de interpretações. Pode colocar a gravação no ar e deixar o próprio diálogo ocupar o centro da propaganda.
O áudio não deve ser apresentado como uma interceptação da Polícia Federal. A gravação foi revelada pelo The Intercept Brasil em maio. O que mudou agora é o uso eleitoral de um material jornalístico já divulgado.
Também não se pode transformar a existência do áudio em prova automática de crime. O que está documentado é a cobrança de recursos por Flávio Bolsonaro a Vorcaro e a existência de valores relacionados ao financiamento de “Dark Horse”. As suspeitas sobre a origem e a aplicação dos recursos são objeto de investigações e questionamentos, e não podem ser tratadas como condenação.
A pressão política, contudo, é concreta. Reportagens recentes apontam que a Polícia Federal recebeu autorização para acessar elementos de uma investigação envolvendo a produtora do filme, enquanto a prestação de contas pública reivindicada durante a campanha ainda não foi apresentada de forma completa.
O PT percebeu que o episódio tem uma qualidade rara em campanha eleitoral: é fácil de entender e difícil de apagar. Um áudio curto, um pedido de dinheiro, um banqueiro preso e uma pergunta simples sobre o destino dos recursos funcionam melhor no rádio do que longas explicações sobre investigações financeiras.
É por isso que a estreia ganhou contornos de duelo de canibais. Lula não apenas apresentou seu próprio currículo. Tentou começar a campanha presidencial devorando a biografia eleitoral de Flávio Bolsonaro.
E Flávio Bolsonaro terá de decidir se continua tratando o caso como “página virada” ou se transforma o primeiro grande ataque do horário eleitoral numa oportunidade para apresentar os documentos que o adversário está cobrando.
A resposta deverá definir uma das primeiras linhas de batalha da eleição presidencial de 2026.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




