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O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) jurou nesta sexta-feira (28) que respeitará o resultado das eleições de 2026 e afirmou que pretende trabalhar pela aprovação da anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro ainda durante a transição de governo, caso seja eleito. A declaração foi dada na sabatina da TV Globo conduzida por César Tralli e Renata Vasconcellos.
A promessa de respeito ao resultado eleitoral representa uma tentativa de marcar distância de questionamentos às urnas que fizeram parte do discurso bolsonarista nos últimos anos. Flávio reconheceu durante a entrevista que havia se expressado de forma errada ao afirmar anteriormente que uma empresa venezuelana fabricaria urnas eletrônicas usadas no Brasil. Segundo ele, a empresa teria participado de processos relacionados à organização eleitoral, mas não seria fabricante dos equipamentos.
Questionado diretamente sobre o processo eleitoral, Flávio afirmou: “Vou respeitar o processo eleitoral e resultado das eleições”. Na sequência, porém, evitou responder de maneira explícita se manteria a mesma posição diante de uma eventual derrota, dizendo que será presidente da República “com essas regras”.
A ressalva é politicamente relevante. O candidato procurou oferecer uma garantia institucional diante das câmeras, mas sem formular uma resposta inequívoca sobre o comportamento de sua campanha caso não vença a disputa.
Anistia entra na transição
A outra declaração de forte impacto ocorreu quando Flávio foi questionado sobre os condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023.
O candidato reafirmou que pretende trabalhar pela anistia e disse que a medida deveria ser aprovada antes mesmo da posse de um eventual governo.
“Eu, como presidente da República, vou trabalhar para que a anistia seja feita ainda na transição”, afirmou Flávio durante a sabatina.
A proposta, entretanto, não foi acompanhada de um texto detalhando quais condenados seriam beneficiados ou qual seria exatamente o alcance da medida. A entrevista também mostrou que Flávio continua rejeitando a interpretação de que houve uma tentativa de golpe de Estado durante o governo de Jair Bolsonaro.
Ele classificou as acusações relacionadas à tentativa de ruptura institucional como uma “farsa armada” para retirar o pai da vida pública e voltou a sustentar que Jair Bolsonaro estava nos Estados Unidos em janeiro de 2023.
É nesse ponto que aparece uma das principais contradições da sabatina. Flávio promete respeitar o resultado das urnas, mas simultaneamente mantém a narrativa de que não houve tentativa de golpe e defende uma solução política para os condenados do 8 de Janeiro.
O “maracujá murcho” tenta resistir no pé
A entrevista mostrou um Flávio Bolsonaro empenhado em apresentar uma versão eleitoralmente mais moderada do bolsonarismo sem abandonar as bandeiras centrais da família.
O “maracujá murcho” tenta resistir no pé.
A imagem é especialmente interessante porque o candidato precisa fazer duas coisas ao mesmo tempo: tranquilizar o eleitor que exige previsibilidade institucional e preservar a identidade política que o colocou como herdeiro eleitoral de Jair Bolsonaro.
A promessa de respeito ao resultado das urnas atende ao primeiro objetivo. A defesa da anistia, a crítica ao Supremo Tribunal Federal e a negativa de que tenha ocorrido uma tentativa de golpe atendem ao segundo.
O problema é que os dois discursos não se encaixam automaticamente.
Para a militância bolsonarista mais radical, a defesa de uma transição dentro das regras democráticas e a aceitação prévia do resultado eleitoral podem soar como uma mudança de tom. Para setores mais moderados e para aliados interessados em ampliar a coalizão eleitoral, a mesma fala pode funcionar como tentativa de reduzir o custo político associado ao sobrenome Bolsonaro.
Não é possível afirmar, apenas pela entrevista, que houve um rompimento entre Flávio e a militância raiz. O que existe de concreto é uma mudança de ênfase diante de uma audiência nacional: o candidato passou a repetir que respeitará o processo eleitoral.
A “cola” de Flávio entrega outro roteiro
Se o discurso procurou apresentar um candidato mais institucional, a palma da mão entregou uma imagem bastante familiar ao eleitor bolsonarista.
Flávio apareceu durante a sabatina com palavras escritas na mão esquerda: “Mudança”, “Futuro” e “7/set”. As anotações foram visíveis em diferentes momentos da transmissão.
O gesto remete diretamente ao pai.
Jair Bolsonaro já havia usado anotações na palma da mão durante entrevistas e debates eleitorais. Na sabatina do Jornal Nacional de 2022, escreveu referências como “Nicarágua”, “Argentina”, “Colômbia” e “Dario Messer”. Em 2018, havia utilizado “Deus”, “família” e “Brasil”.
A “cola” de Flávio, portanto, funcionou como uma espécie de ponte visual entre o candidato que tenta apresentar uma nova embalagem eleitoral e a marca política herdada do pai.
“7/set”, por exemplo, coincide com a mobilização bolsonarista prevista para o Dia da Independência na Avenida Paulista. Flávio vem convocando apoiadores para o ato, que também conta com a adesão anunciada do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
A contradição rende uma fotografia política: na boca, respeito às urnas; na mão, “7/set” e a estética herdada de Jair Bolsonaro.
Flávio mantém o discurso contra o Supremo
A moderação eleitoral também encontrou limite quando o assunto chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Flávio afirmou que pretende recuperar a chamada “segurança jurídica” no país e voltou a criticar ministros da Corte. A declaração veio acompanhada da defesa da anistia e da rejeição à tese de que os atos de 8 de janeiro tenham constituído uma tentativa de golpe.
Assim, a sabatina não produziu uma ruptura com o bolsonarismo. Produziu uma tentativa de reorganização do discurso.
O candidato procurou trocar a contestação explícita do processo eleitoral por uma promessa de respeito às regras, mas preservou bandeiras capazes de manter mobilizada a base bolsonarista.
O desafio eleitoral de Flávio
A questão central para Flávio Bolsonaro é saber se essa combinação será suficiente para ampliar seu eleitorado sem produzir uma perda de identidade entre os apoiadores mais fiéis.
A estratégia parece clara: conservar a pauta de anistia, manter a defesa política de Jair Bolsonaro e, ao mesmo tempo, sinalizar que uma eventual vitória ocorrerá dentro das regras institucionais.
Na televisão, Flávio tentou vestir a roupa de candidato presidencial capaz de disputar o centro da eleição.
Na mão, entretanto, levou três palavras que lembram que a campanha continua ancorada na identidade bolsonarista: “Mudança”, “Futuro” e “7/set”.
O “maracujá murcho” ainda está no pé. Resta saber se a nova embalagem eleitoral será suficiente para ampliar o eleitorado sem desagradar justamente quem sustenta o tronco político da candidatura.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




