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A estreia do horário eleitoral gratuito para o Governo do Paraná, nesta sexta-feira (28), revelou três campanhas com estratégias distintas. Sergio Moro (PL) escolheu a polarização política e o legado da Lava Jato; Sandro Alex (PSD) transformou Ratinho Junior no principal avalista de sua candidatura; e Requião Filho (PDT) levou a campanha para uma conversa direta com eleitores e professores. [Assistir aos três programas eleitorais para o governo do Paraná]
A diferença não está apenas no discurso. Está na forma como cada candidato tenta responder à principal pergunta de uma eleição de continuidade: por que o eleitor deve mudar o governador, manter o grupo que está no poder ou escolher uma alternativa?
Moro responde que é preciso mudar para a direita sem abrir mão dos símbolos da Lava Jato. Sandro responde que a mudança já aconteceu e precisa continuar. Requião Filho responde que o Paraná precisa mudar a prioridade do governo e voltar a cuidar das pessoas.
Moro transforma eleição em plebiscito ideológico
Sergio Moro abre sua propaganda pedindo “voto de confiança” para ser o próximo governador e imediatamente enquadra a candidatura no campo da direita. O candidato apresenta sua aliança com a expressão “direita e centro-direita” e reivindica dois ativos nacionais: “o espírito da Lava-Jato” e “a força do Bolsonaro”.
O movimento é explícito.
Moro não tenta construir uma candidatura apenas administrativa. Ele procura transformar a eleição paranaense em uma extensão da disputa política nacional.
O programa divide o campo adversário em dois blocos. De um lado, Lula, PT, PDT e a esquerda. De outro, PSD e MDB, classificados pela propaganda como integrantes do “Centrão”.
Essa escolha cria uma equação eleitoral simples: Moro pretende ser o candidato da direita contra a esquerda e, ao mesmo tempo, contra uma direita que considera próxima do centro político.
A mensagem também mira diretamente a candidatura de Sandro Alex. Ao afirmar que o PSD seria “Centrão, na veia” e que seus integrantes se apresentam como “sabor direita”, a campanha de Moro tenta retirar do adversário o monopólio do campo conservador.
O programa ainda vincula Moro a Flávio Bolsonaro ao pedir voto para o senador como candidato presidencial. A estratégia nacionaliza a disputa estadual e busca conectar a eleição para o Palácio Iguaçu à sucessão de Lula.
Há, porém, uma tensão evidente nessa estratégia.
Moro afirma que pretende dar continuidade aos “bons projetos” de Ratinho Junior, mas constrói sua candidatura em oposição ao grupo político que atualmente governa o Paraná. O candidato tenta, assim, separar a gestão do governador de seu grupo político.
É uma operação eleitoral importante: apropriar-se da aprovação administrativa de Ratinho sem aceitar a transferência automática desse capital para Sandro Alex.
Na verdade, Moro tenta se apropriar de um antigo bordão petista de campanhas anteriores: “melhorar o que está bom e fazer o que nunca foi feito.”
Sandro coloca Ratinho no centro da campanha
Se Moro procura nacionalizar a eleição, Sandro Alex faz exatamente o contrário.
Seu primeiro programa é construído em torno da administração estadual e da figura de Ratinho Junior.
O governador aparece não apenas como apoiador. Ele é o principal narrador da candidatura de Sandro.
A propaganda começa estabelecendo um marco temporal: antes de Ratinho Junior, segundo o programa, o Paraná “andava para trás”. Na sequência, enumera problemas associados a administrações anteriores, como falta de investimentos, contratos de pedágio e disputas políticas.
As críticas, evidentemente, são contra a gestão de Roberto Requião, pai de Requião Filho (PDT), que ameaça tirar Sandro Alex do segundo turno.
Depois vem a tese central: em 2019, Ratinho Junior teria decidido mudar o Paraná e agora o eleitor precisaria decidir entre “seguir em frente” ou “perder todos os avanços”.
Sandro é apresentado como parte dessa continuidade.
Ratinho afirma que o candidato esteve ao seu lado “desde o primeiro dia” e associa seu nome a obras como a Ponte de Guaratuba, a Ponte da Integração e o programa de duplicação de rodovias.
O programa faz, portanto, uma escolha bastante objetiva: em vez de vender Sandro Alex como ruptura, vende-o como sucessor.
A biografia também é usada para reforçar essa narrativa. A propaganda apresenta Sandro como homem do interior, filho de Ponta Grossa, ex-office boy, programador, sonoplasta, técnico de rádio, comunicador, empreendedor e advogado.
A intenção é construir uma imagem de trajetória pessoal sem herança política.
O programa ainda destaca que Sandro foi eleito deputado federal quatro vezes, classifica-o como ficha limpa e lembra sua atuação como secretário de Infraestrutura e Logística desde o início do governo Ratinho Junior.
A campanha transforma obras e gestão em argumento eleitoral.
A frase mais importante de Sandro aparece justamente quando ele procura diferenciar continuidade de simples administração do legado recebido: “Eu não cheguei até aqui apenas para administrar o que já está pronto. Eu cheguei para ir mais longe.”
É a tentativa de resolver o principal risco de uma candidatura governista: parecer apenas uma extensão do governador atual.
Sandro promete levar o Paraná da quarta para a terceira maior economia do Brasil, transformar o Estado no maior centro logístico da América Latina, ampliar a modernização e conectar campo e cidade.
Também apresenta promessas nas áreas de saúde e segurança, com ênfase em tecnologia, inovação, gestão e redução de filas.
A campanha, porém, deixa claro que sua maior peça eleitoral é anterior a qualquer promessa futura: o próprio governo Ratinho Junior.
Requião Filho troca palanque por conversa
Requião Filho escolheu uma linguagem completamente diferente.
Seu programa começa com uma interação informal, quase como uma conversa de rua. O candidato pergunta ao eleitor qual área precisa mudar e responde a partir da demanda apresentada.
A estratégia desloca o centro da propaganda do candidato para o eleitor.
Na sequência, a educação passa a dominar o programa.
Uma professora relata dificuldades na escola, enquanto Requião Filho ataca a “plataformização” do ensino, defende melhores condições para os professores, critica a terceirização e propõe a retomada do PDE, com formação continuada.
Também fala em concurso público e autonomia dos professores em sala de aula.
A propaganda procura transformar questões abstratas de política educacional em problemas concretos apresentados por quem trabalha e estuda na rede pública.
Esse é o principal contraste com Sandro.
Enquanto o candidato do PSD apresenta grandes obras, infraestrutura e indicadores econômicos como evidências de sucesso administrativo, Requião Filho escolhe a sala de aula como símbolo do que considera errado no Paraná.
A campanha também recupera um elemento afetivo ao mencionar a experiência do governo de seu pai, Roberto Requião. A referência aparece associada à educação e à realização de concursos públicos.
O encerramento reforça a identidade da candidatura: “O Paraná que cuida”.
Não é apenas um slogan. É o eixo narrativo escolhido para enfrentar uma eleição em que os adversários tentam disputar eficiência, obras, segurança e posição ideológica.
Requião Filho tenta disputar outra dimensão: a relação do Estado com quem depende diretamente dos serviços públicos.
Três candidatos, três versões de futuro
O primeiro programa permite desenhar um mapa relativamente claro da eleição.
Moro oferece identidade política. Seu discurso depende da polarização nacional, do bolsonarismo e da memória da Lava Jato. A candidatura precisa convencer o eleitor de direita de que ele é o representante mais autêntico desse campo no Paraná.
Sandro oferece continuidade. Seu principal argumento é a gestão Ratinho Junior. O desafio é converter a avaliação positiva do governo em confiança pessoal para um candidato que precisa, ao mesmo tempo, mostrar que não será apenas um administrador do legado recebido.
Requião Filho oferece mudança de prioridade. Seu discurso não começa pela economia ou pelas grandes obras, mas pela escola, pelo professor e pelo atendimento às pessoas. A aposta é recuperar uma identidade política associada ao serviço público e ao cuidado social.
A disputa pode ser resumida em três verbos: Moro combate, Sandro continua, Requião cuida.
Isso não significa que os candidatos estejam restritos a essas agendas. Significa que cada um escolheu, no primeiro contato com o eleitorado pelo rádio e pela televisão, uma porta de entrada diferente.
O ponto decisivo será transformar narrativa em voto
A propaganda eleitoral gratuita também revela os desafios de cada candidatura.
Moro precisa provar que a polarização nacional é suficiente para vencer uma eleição estadual em que seus adversários podem reivindicar realizações administrativas concretas.
Sandro precisa transformar a imagem de Ratinho Junior em capital eleitoral próprio. O programa tenta fazer isso apresentando sua biografia, experiência e propostas, mas o governador continua ocupando espaço central na construção da candidatura.
Requião Filho precisa ampliar a conversa iniciada na educação para outras áreas do governo. O primeiro programa estabelece uma identidade forte, mas concentrada em professores, escola, concursos e serviço público.
A estreia, portanto, não resolveu a eleição. Mas revelou o campo de batalha.
Moro quer disputar quem representa a direita.
Sandro quer disputar quem garante a continuidade da gestão.
Requião Filho quer disputar qual deve ser a prioridade do Estado.
A partir de agora, a propaganda terá de responder a uma questão mais difícil: qual dessas três narrativas consegue sair da televisão e se transformar em voto no Paraná?
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




