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Vorcaro depõe à PF e volta a acenar com delação que assusta clã Bolsonaro

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro prestou depoimento à Polícia Federal (PF) por cerca de quatro horas nesta sexta-feira (28), diretamente da Papudinha, em Brasília, e voltou a demonstrar disposição para colaborar com as investigações por meio de um acordo de delação premiada. Ele negou ter corrompido servidores do Banco Central (BC) e rejeitou a acusação de que teria recebido informações privilegiadas da autoridade monetária.

A audiência ocorreu por videoconferência na carceragem do 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, onde Vorcaro está preso preventivamente. O interrogatório começou por volta das 10h30 e terminou perto das 14h20. Foi a primeira vez que ele falou diretamente à PF depois de duas propostas de colaboração premiada terem sido rejeitadas.

A defesa afirmou que Vorcaro respondeu às perguntas de forma clara e consistente e negou qualquer ato de corrupção relacionado aos servidores investigados. Ao mesmo tempo, os advogados indicaram que o ex-banqueiro continua disposto a colaborar com as autoridades e a discutir uma nova tentativa de acordo.

O detalhe político é que uma eventual delação de Vorcaro chegaria ao ambiente eleitoral no momento de maior exposição do caso Master. O nome do banqueiro já aparece associado a episódios que atingem diferentes grupos políticos, inclusive o entorno do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência.

O escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro emitiu três notas fiscais que somam R$ 1,5 milhão para empresas ligadas à estrutura empresarial de Vorcaro. Duas notas, de R$ 500 mil cada, foram emitidas para a Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A. e posteriormente canceladas. A terceira, também de R$ 500 mil, foi emitida para outra empresa ligada à estrutura empresarial investigada e, segundo as informações disponíveis, não tinha registro de cancelamento.

O episódio não permite concluir, por si só, que houve crime ou que os valores tenham sido pagos. O próprio Flávio Bolsonaro negou irregularidades e afirmou que as operações foram legais e privadas. A existência das notas, contudo, documenta uma relação comercial entre o escritório do senador e empresas conectadas ao grupo de Vorcaro.

É justamente aí que uma eventual colaboração do ex-banqueiro pode ganhar peso político. Não porque exista, neste momento, uma delação homologada ou uma acusação formal de Vorcaro contra Flávio Bolsonaro, mas porque qualquer informação nova sobre dinheiro, contratos, empresas intermediárias ou relações políticas poderá ser confrontada com documentos já apreendidos pela PF.

As duas primeiras propostas de delação de Vorcaro foram rejeitadas pela PF e pela PGR. Investigadores consideraram que o material apresentado não trazia elementos novos suficientes para justificar um acordo. A segunda proposta também foi rejeitada em junho pela PGR, seguindo a posição adotada anteriormente pela PF.

A defesa, entretanto, mudou de estratégia. Em agosto, Vorcaro reforçou sua equipe jurídica e passou a preparar uma terceira tentativa de colaboração. O advogado Daniel Bialski entrou no caso ao lado de Sérgio Leonardo e chegou a solicitar audiência com o ministro André Mendonça, relator dos inquéritos relacionados ao Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF).

O cenário explica por que a possibilidade de uma delação voltou a produzir tensão em Brasília. A investigação já alcança relações financeiras, empresas, agentes públicos e contatos políticos. A PF também investiga dois ex-servidores do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, suspeitos de terem favorecido o Banco Master em troca de vantagens financeiras. Os dois negam irregularidades.

Vorcaro, por sua vez, negou ter corrompido os servidores ou recebido informações privilegiadas. A defesa sustenta que pagamentos investigados tinham justificativas lícitas, incluindo um estudo contratado por R$ 4 milhões e uma operação de R$ 4,8 milhões relacionada a um sítio. Essas versões ainda estão sob investigação.

A temperatura política subiu ainda mais porque Ronaldo Caiado (PSD), candidato à Presidência, transformou o caso Master em tema de campanha. Em entrevista à TV Globo, o presidenciável pediu ao STF a abertura dos sigilos relacionados ao Banco Master e a outros casos de grande repercussão, sob o argumento de que o eleitor precisa conhecer eventuais informações relevantes antes da eleição.

Na sexta-feira (28), Caiado voltou ao tema durante agenda no Rio de Janeiro e disse que pediria ao Supremo a liberação das informações dos inquéritos do Banco Master e das investigações sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A movimentação coloca o escândalo financeiro dentro da disputa eleitoral pelo Palácio do Planalto.

O efeito político é direto. Quanto mais o caso Master se aproxima da eleição, maior é o custo de qualquer revelação que conecte dinheiro, contratos privados e candidaturas. Para Flávio Bolsonaro, a questão não é apenas o que Vorcaro já disse, mas o que ainda poderia apresentar caso PF e PGR aceitem negociar uma colaboração.

Também é preciso registrar o limite da informação disponível. Vorcaro não fechou acordo de delação nesta sexta-feira. Ele sinalizou disposição para colaborar, mas as tratativas anteriores foram recusadas e não há, até o momento, acordo homologado pela Justiça. Negociar delação não significa ter uma delação aceita.

A diferença é fundamental porque o caso entra agora numa zona de disputa política em que documentos, depoimentos e versões podem se misturar rapidamente. Qualquer eventual acusação de Vorcaro terá de ser comprovada e confrontada com provas independentes antes de ser tratada como fato.

O depoimento desta sexta-feira, porém, deixa uma certeza política: Daniel Vorcaro continua tentando transformar sua posição de investigado em moeda de negociação com as autoridades. E, numa eleição em que o Banco Master já atingiu a campanha de Flávio Bolsonaro, essa possibilidade basta para manter Brasília em estado de alerta.

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