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O escritor e candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante) apresentou neste sábado (29), durante entrevista ao Jornal Nacional, uma receita eleitoral em que a inteligência artificial aparece como remédio para quase todos os males do Estado brasileiro.
Se depender do candidato, a próxima reforma administrativa poderá ter um ingrediente inusitado: trocar parte da burocracia por algoritmos. Cury defendeu reduzir entre oito e dez ministérios, remover parte dos 50 mil cargos comissionados e digitalizar a máquina pública com inteligência artificial.
A ideia é tão tecnológica que o eleitor quase pode imaginar o cenário: enquanto o presidente discute política, o ChatGPT confere a folha de pagamento, avalia desempenho de servidor e talvez ainda prepare o discurso de posse.
Cury não disse literalmente que pretende colocar o ChatGPT na cadeira presidencial. Mas a lógica apresentada na entrevista aponta para uma administração em que a inteligência artificial teria autonomia e presença muito maiores dentro do governo.
O candidato afirmou que pretende criar uma Secretaria Executiva de Inteligência Artificial e Robótica, com grande autonomia. Em outros momentos, tratou a estrutura como possível ministério. A justificativa é preparar o país para uma transformação tecnológica que, segundo ele, poderá provocar forte impacto sobre o mercado de trabalho nos próximos quatro ou cinco anos.
Cury também defendeu a formação de pelo menos 10 mil jovens em doutorados relacionados à inteligência artificial. O objetivo seria formar especialistas capazes de aplicar a tecnologia em áreas como medicina, produção de medicamentos, agricultura e indústria.
Governo por aplicativo
A radicalização tecnológica não ficaria restrita aos gabinetes de Brasília.
Na segurança pública, Cury retomou uma proposta que já havia apresentado durante a pré-campanha: um aplicativo com botão de alerta para mulheres ameaçadas. O acionamento enviaria a localização da vítima para a delegacia mais próxima e poderia mobilizar drones equipados com sirenes para chegar rapidamente ao local.
A proposta é apresentada como ferramenta para tentar interromper agressões e prevenir feminicídios.
O desenho, entretanto, depende de uma cadeia tecnológica que precisa funcionar no mundo real: celular, conexão, geolocalização, integração entre sistemas policiais, central de atendimento, drones e equipes capazes de responder ao alerta.
É aí que a eleição presidencial encontra a velha realidade brasileira. Aplicativo não prende agressor sozinho. Drone não substitui investigação. E inteligência artificial não elimina a necessidade de polícia, Justiça, orçamento e política pública.
Cury também quer levar a digitalização para a saúde. Na entrevista, defendeu que até 80% das consultas básicas do Sistema Único de Saúde (SUS) sejam feitas por telemedicina, com atendimento remoto.
Menos ministérios, mais tecnologia
Há uma ironia administrativa no plano de Cury.
O candidato promete cortar ministérios, mas propõe criar estruturas novas para segurança pública e inteligência artificial. A redução, portanto, viria acompanhada de uma redistribuição do poder estatal para áreas consideradas estratégicas.
Na entrevista, Cury afirmou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública e chegou a sugerir Ronaldo Caiado (PSD) para comandá-lo, chamando-o de “xerife do Brasil”.
A inteligência artificial teria outro núcleo de poder dentro do governo.
O argumento de Cury é que o envelhecimento da população e a redução do número de trabalhadores exigirão uma máquina pública mais automatizada. Ele afirmou que não pretende simplesmente contratar mais funcionários e que a IA poderia ajudar a digitalizar processos e reduzir despesas.
Também defendeu indicadores de desempenho para servidores públicos e treinamento para que os funcionários utilizem inteligência artificial na execução das tarefas.
A política que virou startup
A proposta de Cury tenta transformar o Palácio do Planalto em uma espécie de central tecnológica da República.
Tem IA para administrar o Estado. Tem aplicativo para acionar a polícia. Tem drone para chegar ao local da violência. Tem telemedicina para reduzir filas do SUS. Tem robótica para aumentar produtividade.
Falta saber quem aperta o botão quando o algoritmo errar.
Essa é a questão política que a estética tecnológica da proposta não resolve. Inteligência artificial pode automatizar processos, analisar grandes volumes de dados e apoiar decisões. Mas não responde, sozinha, pela responsabilidade política de uma escolha presidencial.
Cury apresentou-se no Jornal Nacional como uma alternativa à polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O candidato do Avante tenta ocupar um espaço próprio na eleição, associando sua trajetória de escritor e psiquiatra à chamada gestão da emoção e, agora, a uma agenda de forte aposta tecnológica.
Na sabatina, porém, ficou claro que seu projeto de governo não quer apenas usar inteligência artificial.
Quer colocá-la no coração do Estado.
E, se o plano der certo, talvez a próxima reunião ministerial precise apenas de uma senha de Wi-Fi.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




