O caos que toma conta dos aeroportos brasileiros foi o estopim para a crise detonada pela cobrança da bagagem de mão.
Filas nos banheiros, preços abusivos nas lanchonetes e terminais superlotados completam o retrato de um sistema em colapso, fruto das privatizações que desmontaram a antiga estrutura pública da Infraero e transformaram o transporte aéreo em negócio lucrativo para poucos.
Na manhã deste sábado (18), o empresário parananguara Ogarito Linhares flagrou longas filas nos banheiros do Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), o maior do país.
As imagens mostram passageiros exaustos, disputando espaço e paciência em terminais superlotados e mal administrados.
A cena sintetiza o colapso dos serviços após as privatizações que desmontaram a estrutura da Infraero.
A promessa de eficiência virou frustração: banheiros sujos, lanchonetes com preços extorsivos e companhias aéreas cobrando até pela mala de mão.
O que antes era direito, virou “extra”.
Desde que os terminais foram entregues à iniciativa privada, as reclamações se multiplicam.
“Privatiza que melhora?” virou ironia entre os viajantes, piada nas redes sociais e no Blog do Esmael.
As agências reguladoras, como a Anac, que deveriam defender o passageiro, parecem agir mais como porta-vozes das companhias do que como fiscais do interesse público.
Em setembro, a crise ganhou novo capítulo no Rio de Janeiro.
A RIOGaleão assinou termo de repactuação para um novo leilão do Aeroporto Internacional Tom Jobim até março de 2026.
A Infraero deixará definitivamente a concessão, e as empresas privadas Changi (de Singapura) e Vinci Compass (do Rio de Janeiro) assumirão todo o controle.
O lance mínimo foi fixado em R$ 932 milhões, e o modelo de concessão, “simplificado”, reduz contrapartidas ao Estado.
Enquanto isso, os passageiros continuam espremidos também dentro das aeronaves.
O espaço entre as poltronas encolheu nos últimos anos, em nome de “ganhos de eficiência”, sem que isso se traduzisse em tarifas mais acessíveis.
As passagens seguem entre as mais caras do mundo, variando conforme algoritmos de precificação automática, sem transparência sobre critérios ou custos reais.
Esse sistema dinâmico transforma o transporte aéreo em um jogo desigual: o preço de um assento pode mudar dezenas de vezes por dia, sem qualquer justificativa pública.
O passageiro paga o que o algoritmo decide, e o Estado assiste de longe a um serviço essencial, em um país de dimensões continentais, ser operado como um cassino digital.
Na Câmara dos Deputados, cresce a pressão para frear os abusos.
O projeto de lei 5041/25, de autoria do deputado Da Vitória (PP-ES), proíbe a cobrança de taxas por bagagem de mão e restabelece um mínimo de dignidade nas relações de consumo.
O texto tem o apoio do ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, e do presidente da Anac.
Desde 2017, quando a agência liberou a cobrança por despacho de malas, as companhias prometeram reduzir os preços, o que nunca aconteceu.
Pelo contrário: os custos subiram, o conforto diminuiu e o passageiro perdeu direitos.
O episódio deste sábado em Guarulhos é mais do que um flagrante: é um alerta dos consumidores aos reguladores.
A aviação brasileira precisa de intervenção pública urgente para reequilibrar um setor que virou refém do lucro fácil e do abandono estatal.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




