A inteligência Artificial (IA) dos Estados Unidos depende de baterias chinesas para sustentar data centers, drones e sistemas militares, criando uma vulnerabilidade estratégica que preocupa o Pentágono e o Vale do Silício. A liderança americana em inteligência artificial esbarra na dependência de cadeias controladas por Pequim, justamente no momento em que a tecnologia vira ativo central de poder econômico e militar.
A infraestrutura que sustenta a corrida da IA exige energia estável em escala inédita. Data centers consomem eletricidade equivalente à de cidades médias e qualquer oscilação pode corromper códigos e modelos. Para garantir continuidade, gigantes da tecnologia recorrem a baterias de íons de lítio em volumes bilionários, um mercado no qual a China lidera tecnologia, escala e componentes críticos.
O alerta chegou ao Pentágono. A guerra na Ucrânia mostrou que drones, lasers, sensores e comunicações dependem de milhões de baterias. Analistas apontam que forças americanas utilizam cadeias chinesas em milhares de itens de programas de armas. Exportações controladas por Pequim já encareceram e atrasaram componentes no front europeu, um sinal do risco de estrangulamento em cenários de crise.

A dominância chinesa é mais aguda nas baterias LFP, preferidas tanto para armazenamento estacionário quanto para veículos e aplicações militares. Estimativas internacionais indicam que quase a totalidade das células LFP e mais de 90% dos principais componentes são produzidos na China, além do refino de lítio e grafite e da fabricação de cátodos e ânodos. A vantagem não é só industrial, é geopolítica.
Em Washington, o dilema ganhou contornos políticos. O governo Donald Trump congelou no início do mandato subsídios herdados para tecnologias limpas, mas passou a reavaliar a estratégia ao reconhecer que baterias são essenciais para IA e defesa. Reuniões de alto nível, liberações seletivas de recursos, incentivos a reciclagem e restrições do orçamento de defesa a fornecedores considerados de risco indicam uma inflexão pragmática.
Ainda assim, especialistas são céticos. Construir uma cadeia doméstica competitiva levaria anos, exigiria coordenação estatal e enfrentaria custos ambientais e regulatórios maiores do que os chineses. Mesmo projetos apoiados por Washington substituiriam apenas frações do material importado. A incoerência persiste enquanto políticas que desestimulam veículos elétricos reduzem a demanda que ajudaria a viabilizar fábricas locais.
O debate também desloca o eixo da corrida tecnológica. Chips seguem relevantes, mas a disputa passa pela infraestrutura elétrica. Em carta recente, a OpenAI afirmou que eletricidade é ativo estratégico para a liderança na tecnologia mais consequente desde a própria eletrificação. Sem energia confiável e armazenamento, modelos falham e dados se perdem.
A lição da Ucrânia reforça o argumento. Restrições chinesas desde 2022 repercutiram diretamente no campo de batalha, triplicando preços de componentes e atrasando entregas. O padrão se repete em sistemas ocidentais, indicando que baterias são o “coração” da capacidade militar moderna, enquanto chips funcionam como o “cérebro”.
O paralelo com a dependência europeia do gás russo é inevitável. Confiar um insumo estratégico a um único país amplia riscos sistêmicos. Para os Estados Unidos, reduzir a exposição à China em baterias será caro, lento e politicamente tenso, mas ignorar o problema pode custar liderança tecnológica e autonomia de defesa.
A vantagem americana em IA não se sustenta sem soberania energética e industrial. Enquanto Washington hesitar entre ideologia e pragmatismo, Pequim seguirá usando a cadeia de baterias como alavanca. O tempo corre contra quem depende do coração do adversário para manter o cérebro funcionando.

Nesse contexto, o papel estratégico de estatais energéticas como a Copel e a Eletrobras não é uma abstração ideológica nem um debate retórico, é soberania tecnológica aplicada. Energia estável, contínua e sob controle público virou pré-condição para sustentar data centers, inteligência artificial, defesa e infraestrutura crítica.
Os exemplos dos Estados Unidos, da China e da Ucrânia mostram que a próxima guerra já começou no terreno da eletricidade confiável, do armazenamento e da resiliência das redes. Tratar empresas estratégicas como peças descartáveis é abrir mão de capacidade estatal num mundo que se rearma para disputar energia como fator de poder e, paradoxalmente, como garantia de paz.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




