O Brent abriu esta segunda-feira (30) rondando US$ 115 por barril, depois de disparar cerca de 59% em março, no maior salto mensal da série da LSEG desde 1988. O dado resume o tamanho do choque: a guerra no Oriente Médio deixou de ser apenas manchete internacional e passou a ameaçar diesel, frete e inflação também no Brasil.
A LSEG, sigla de London Stock Exchange Group, é o grupo que controla a Bolsa de Londres e opera algumas das principais bases globais de dados financeiros, usadas como referência pelo mercado para acompanhar séries históricas de preços, juros, ações e commodities.
A alta do petróleo está ligada à ampliação do conflito com a entrada dos houthis, ao risco prolongado sobre o Estreito de Ormuz e ao medo de novos estrangulamentos nas rotas de energia. O Blog do Esmael já registrou antes que Ormuz responde por cerca de um quinto do fluxo mundial de petróleo e gás, enquanto o mercado já trata a reabertura plena da passagem como algo incerto, não como um dado.
O ambiente piorou porque a retórica de Donald Trump não trouxe alívio. Ao mesmo tempo em que fala em conversas com Teerã, o presidente dos Estados Unidos voltou a mencionar a hipótese de “tomar o petróleo” do Irã e até de capturar a ilha de Kharg, principal terminal exportador iraniano. Para o mercado, isso soou menos como distensão e mais como aviso de que a escalada ainda está na mesa.
O ponto mais sensível para a economia real não está só no barril. O aperto já aparece também nos derivados: o mercado de diesel e querosene de aviação na Europa começou a ficar mais justo, enquanto o gasóleo em Singapura, referência importante para o diesel, praticamente dobrou desde o início da guerra. Quando o derivado sobe, o impacto deixa de ser abstração financeira e encosta na vida cotidiana.
No Brasil, a porta de entrada desse choque é conhecida. Mais de 60% da produção nacional circula pelas estradas, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Isso significa que um petróleo persistentemente caro pressiona primeiro o diesel, depois o frete, e dali contamina alimentos, insumos, distribuição e expectativa de inflação. O repasse não é automático, mas a pressão econômica já está contratada se a tensão seguir elevada.
O próprio Blog do Esmael repercutiu no fim de semana um artigo da revista britânica The Economist, segunda a qual o Brasil vem se preparando há décadas para ficar menos dependente da importação de combustíveis. A publicação mostrou que o país aposta nos biocombustíveis como arma secreta para enfrentar os efeitos da guerra contra o Irã.
Há, sim, um colchão brasileiro. Desde agosto de 2025, a gasolina comum passou a usar mistura E30 e o diesel comercial opera com B15, o que reduz a dependência de fóssil importado e dá algum amortecimento à pancada externa. Mas é só amortecimento. No caso do diesel, 15% são biodiesel e 85% continuam atrelados ao petróleo. Ou seja, Ormuz não dita sozinho o preço na bomba, mas segue mandando no humor do mercado e no custo da logística.
Portanto, a guerra chegou ao nervo da energia global e o Estreito de Ormuz virou o funil por onde passa a ansiedade do planeta. Quando o petróleo encarece nesse nível, o brasileiro não sente primeiro no mapa do Oriente Médio. Sente no tanque, no frete e na inflação.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




