Início / Bolsonaro

Bolsonaro usa ato na Paulista para reforçar discurso anti-STF e projetar 2026

Índice de Tópicos

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou a ocupar a Avenida Paulista, neste domingo (29), para tentar reverter o desgaste jurídico e político que enfrenta no Supremo Tribunal Federal (STF). Diante de uma plateia menor que nos protestos anteriores, Bolsonaro atacou o inquérito da tentativa de golpe, projetou as eleições de 2026 e voltou a pedir apoio para eleger metade do Congresso.

Na fala mais emblemática do ato, o ex-presidente classificou o processo judicial como “fumaça de golpe” e afirmou que, mesmo inelegível, poderia “mudar o destino do Brasil” caso seus aliados conquistem 50% da Câmara e do Senado. “Nem preciso ser presidente. Se o Valdemar [Costa Neto] me manter como presidente de honra do PL, nós faremos isso por vocês”, declarou, mirando diretamente no controle legislativo como alternativa ao Palácio do Planalto.

Ato esvaziado e divisão entre aliados

O evento, organizado pelo pastor Silas Malafaia, reuniu cerca de 12,4 mil pessoas, segundo monitoramento da USP e do Cebrap — número bem inferior aos 44,9 mil de abril e distante dos 185 mil registrados em fevereiro de 2024. Mesmo assim, Bolsonaro e seus aliados minimizaram o esvaziamento, priorizando a retórica de mobilização política.

Além de Bolsonaro, discursaram o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Tarcísio exaltou o ex-presidente, atacou o governo Lula e disse que o Brasil “vai dar a resposta no ano que vem”, alimentando especulações sobre sua própria candidatura à Presidência.

A ausência de nomes de peso como Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira foi notada. Segundo o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), a ex-primeira-dama participou de evento partidário em Roraima, o que não impediu os rumores sobre divergências internas no bolsonarismo.

O líder do PT na Câmara, deputado Lindbergh Farias (RJ), em suas redes sociais, afirmou que “o ato do Bolsonaro na Paulista foi uma demonstração de derrota política e social.” Segundo o petista, a manifestação deste domingo foi um vexame, ao dizer que não haverá anistia no Congresso.

Ataques ao STF e defesa da anulação da delação de Mauro Cid

Os ataques ao STF dominaram os discursos. Malafaia chamou o ministro Alexandre de Moraes de “ditador da toga” e defendeu o cancelamento da delação de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. A delação é peça-chave na investigação que tornou o ex-presidente e outros oito aliados réus por tentativa de golpe de Estado em 2022.

“O STF vai jogar sua reputação na lata do lixo se mantiver essa farsa”, disparou Malafaia, em tom semelhante ao de Bolsonaro, que pediu “pacificação” e negou envolvimento com atos golpistas. “Se fosse golpe, vocês não estariam aqui”, disse o ex-presidente.

O discurso reproduziu ainda slogans internacionais. Bolsonaro tentou emular Donald Trump, afirmando em inglês macarrônico: “Make Brazil great again”, enquanto apoiadores agitavam bandeiras do Brasil, dos Estados Unidos e de Israel.

Bastidores e projeção para 2026

Nos bastidores, o ato escancarou a aposta de Bolsonaro em uma estratégia parlamentar, diante de sua inelegibilidade até 2030. A prioridade agora, segundo aliados, é eleger uma bancada robusta em 2026, suficiente para influenciar o Legislativo, frear investigações e possivelmente minar o STF.

A presença de Tarcísio de Freitas no palanque reforçou as especulações de que o governador paulista pode ser o nome da direita bolsonarista na próxima disputa presidencial — movimento que agrada a setores do agronegócio e do empresariado, mas ainda divide a base mais radical do ex-presidente.

Enquanto isso, o cerco jurídico se estreita. A ação penal que investiga a tentativa de golpe avançou na última sexta-feira (27), com o ministro Alexandre de Moraes encerrando a fase de instrução e abrindo prazo para as alegações finais. Bolsonaro já prestou depoimento ao STF, negou as acusações e admitiu “exageros” em sua retórica eleitoral.

Até o momento, 497 pessoas já foram condenadas por participação no ataque às instituições em 2022, incluindo por crimes como golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e associação criminosa.

Leia também no Blog do Esmael:

O peso do Congresso e o esvaziamento das ruas

O ato na Paulista confirmou o que se desenha no xadrez político: Bolsonaro aposta no Congresso como trincheira para manter influência e evitar o desgaste judicial. Mas o esvaziamento das ruas e as divisões internas expõem as fragilidades da estratégia.

A eleição de 2026 se desenha como um plebiscito não apenas sobre o futuro do bolsonarismo, mas sobre o equilíbrio entre Legislativo, Judiciário e a resistência institucional às ameaças à democracia.