Após mais de duas décadas de negociações, o tão aguardado acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia ganha novos contornos na 65ª Cúpula do Mercosul, realizada em Montevidéu. A presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reforça o clima de expectativa para a conclusão das tratativas, que prometem integrar um mercado de 750 milhões de pessoas e potencializar relações comerciais bilionárias entre os blocos. Mas quais são os reais benefícios, obstáculos e impactos desse tratado para o Brasil e os demais países do Mercosul?
O acordo visa reduzir ou eliminar tarifas de importação e exportação para uma vasta gama de produtos. No caso do Mercosul, a União Europeia se compromete a abrir espaço para 90% das exportações do bloco sul-americano, com destaque para produtos agrícolas como carne bovina, aves, soja e frutas. Já para os europeus, a prioridade está em itens industriais, como veículos, máquinas e produtos farmacêuticos.
Desde a assinatura preliminar em 2019, os entraves ambientais e as exigências da União Europeia têm sido o principal ponto de discórdia. Agora, com o presidente Lula no comando, questões relacionadas ao desmatamento e à sustentabilidade foram reavaliadas, mas o Brasil segue preocupado com barreiras protecionistas, como a lei antidesmatamento da Europa.
Entre as novidades está a inclusão de dispositivos de reequilíbrio que permitem retaliações em caso de medidas protecionistas. Esse mecanismo busca proteger exportadores brasileiros, evitando que legislações ambientais sejam usadas como barreira comercial. Outro ponto polêmico é a obrigação de que todos os países signatários sejam membros do Acordo de Paris, o que pressiona líderes ultraliberais, como Javier Milei, da Argentina, a aderirem a compromissos climáticos.
No entanto, a França lidera a oposição ao tratado, temendo prejuízos para seus agricultores. Outros países, como Itália e Polônia, também manifestaram reservas. Apesar do entusiasmo de nações como Alemanha e Portugal, o consenso no Parlamento Europeu ainda é incerto.
O Ministério da Economia estima que o acordo pode adicionar cerca de US$ 87,5 bilhões ao PIB brasileiro em 15 anos, podendo chegar a US$ 125 bilhões com as implementações completas. Os setores agrícolas e de exportação devem ser os maiores beneficiados, enquanto produtores industriais podem enfrentar desafios devido à concorrência europeia.
Produtos como vinhos, chocolates e veículos europeus terão tarifas reduzidas, beneficiando consumidores, mas criando dificuldades para indústrias locais. Por outro lado, o aumento nas exportações de carne e grãos brasileiros pode consolidar o país como um dos principais fornecedores globais de alimentos.
Mesmo que o acordo seja anunciado, sua implementação enfrentará trâmites complexos nos Parlamentos europeus e sul-americanos. Além disso, questões internas no Mercosul, como o desejo da Argentina de flexibilizar acordos bilaterais com Estados Unidos e China, podem tensionar o bloco.
Se aprovado, o tratado consolidará uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, representando mais de US$ 20 trilhões em PIB. Mas, para isso, será necessário equilibrar interesses nacionais, pressões ambientais e resistências políticas.
O Brasil, como maior economia do Mercosul, precisa se preparar para maximizar os ganhos econômicos, enquanto protege setores vulneráveis e fortalece sua diplomacia ambiental, elemento essencial para conquistar a confiança europeia e consolidar o acordo.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




