A semente progressista vinga e avança

Enio Verri*

Há um ditado muito corrente entre os petistas que diz, mais ou menos, assim: “tentam nos enterrar, mas não sabem que somos sementes”. O resultado das urnas dessas eleições é a materialização do dito. Desde a criação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, há um processo de demonização do partido, feito pela classe dominante, que usa do seu braço político, a imprensa comercial. Desde a simulação de sequestro de empresário, à edição de debate, pela Globo, em 1989, à ameaça fantasiosa de terror comunista, nas eleições de 1994 e 1998, o partido foi pintado para a sociedade como uma entidade que espoliaria os pobres e adotaria um regime ditatorial.

A história recente demonstrou quem permitiu à população pobre, entre 2001 e 2002, realizar dezenas de saques diários a supermercados, porque não aguentava mais o abandono dos governos FHC, o sociólogo da ideologia do ultraliberalismo que a deixou passar fome. Desde que o PT assumiu o governo, em 2003, mais de 40 milhões de brasileiros saíram da pobreza, o desemprego foi reduzido a 4,5% da população, 5,3 milhões de pobres acessaram os bancos universitários e o Brasil passou 12ª para a 6ª economia mundial. Essas condições atiçaram ainda mais o ódio que a classe dominante tem da classe trabalhadora. Aquela passou demonizar o PT, por meio da imprensa comercial, que inoculou um ódio inaudito na população, que agiu cegamente e apoiou, inadvertidamente, o golpe de 2016, quando o partido teve o seu pior desempenho eleitoral regional, desde 2012. O discurso corrente, a partir de então, foi o do fim da legenda e que ela jamais se restabeleceria no cenário político.

Em 2018, uma população ainda nutrida de muito ódio contra o PT, foi massacrada por uma campanha tomada de mentiras e detratações contra os adversários de Bolsonaro. Infelizmente, venceu o ódio. Naquele ano, junto com um presidente que defende a tortura, o armamento, a exclusão social e econômica, o Estado Mínimo; que é contra políticas de gênero num país com altíssimos índices de assassinatos de mulheres e cidadãos LGBTQI; que é contra a defesa do meio ambiente, o Brasil elegeu um sem número de deputados federais e senadores com o pensamento alinhado ao de Bolsonaro. Em 2020, durante a pandemia da COVID-19, o Brasil aprendeu ainda mais sobre o presidente. Soube que ele é indiferente a mais de 160 mil famílias enlutadas e a quase seis milhões de contaminados, que desdenha da morte de um voluntário e que coloca seus interesses eleitoreiros acima da vida dos brasileiros.

Enfim, o resultado que as urnas apresentaram, no domingo, 15, são dois claros recados ao Brasil. O primeiro é que o bolsonarismo está fadado ao esvaziamento. Dos 78 candidatos com o nome “Bolsonaro”, apenas um foi eleito. De 13 candidatos a prefeito, apoiados por Bolsonaro, quatro se elegeram ou passaram ao segundo turno. O único apoio mais significativo foi ao candidato Marcelo Crivella, que passou ao segundo turno para disputar a Prefeitura de uma cidade cujos 57% do território são ocupados pela máfia. Já o seu filho, o Zero Dois, foi reeleito para vereador da cidade do Rio de Janeiro, porém, perdeu 35 mil votos em relação à sua última votação. Já a mãe de seus três primeiros filhos, Rogéria Bolsonaro, não foi eleita à vereadora.

Já o PT, o partido condenado pela imprensa ao desaparecimento, elegeu 165 prefeitos, vai disputar o segundo turno em cidades cujo número de habitantes varia de 200 mil a mais de 1,5 milhão, fez a maior bancada da Câmara de Vereadores da Cidade de São Paulo e elegeu 2.552 vereadores. Apesar do insistente trabalho de demonização e detratação, executado pela classe dominante, o Partido dos Trabalhadores germina e avança com o debate de um Brasil mais justo e inclusivo. Já o candidato sustentado por ela, em dois anos, desconstruiu todo o esforço que ela fez para emplacar um antipolítico, uma figura artificial, que não passa de um boneco de ventríloquo do mercado financeiro, que não está servindo aos propósitos para os quais foi colocado no Palácio do Planalto. A semente teimosa avisa que não será simples derrotar um projeto tão complexo e com profundas ligações com a classe trabalhadora.

*Enio Verri é economista e professor aposentado do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e está deputado federal e líder da bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados.

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