Análise: Haitiano enquadra Bolsonaro e inicia ‘impeachment simbólico’

Publicado em 17 março, 2020


O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) levou uma invertida histórica nesta segunda-feira (16) em frente ao Palácio do Alvorada, em Brasília. O corajoso e inusitado gesto de um haitiano iniciou uma espécie de “impeachment simbólico e moral” de Bolsonaro da presidência.

Bolsonaro estava em frente à residêncial oficial, local em que costuma receber afagos de fanáticos apoiadores e xingar a imprensa, quando um haitiano criticou em bom português a participação dele no ato pelo fechamento do Congresso Nacional e do STF no domingo (15), rompendo os protocolos de quarentena obrigatórios para os suspeitos de contaminação por coronavírus.

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Bolsonaro fingiu não entender o que falava o haitiano com a mais absoluta clareza: “Bolsonaro acabou. Não é presidente mais”, afirmou ele, diante de um Bolsonaro desconcertado e com pose de paisagem.

Segundo o jornal O Estado de São Paulo, Bolsonaro teve contato com ao menos 272 pessoas no domingo. Apertou mãos, agitou a bandeira brasileira e fez selfies com celulares de apoiadores – situações que facilitam a propagação do Covid-19. E 14 membros de sua comitiva presidencial, que foi para Miami na semana passada, já estão infectados por coronavírus.

O vídeo com as cenas do inesperado diálogo viralizou nas redes sociais desde a noite de segunda-feira. Além disso, a hashtag #Bolsonaroacabou amanheceu nesta terça nos trending topics do Twitter.

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Desdobramentos políticos:

1. Bolsonaro começa a viver o primeiro círculo do isolamento político: o das forças políticas, dos líderes de bancadas e de partidos. O impeachment de Dilma começou a ganhar força institucional a partir desse círculo inicial.

2. Bolsonaro ainda tem uma razoável base de apoio social (entre 15 a 20% sólidos, firmes), mas começa a perder apoios em franjas importantes da sociedade, que antes estavam agrupadas em torno dele como um instrumento para o enfrentamento da esquerda, em particular do petismo.

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3. Os próximos três meses serão decisivos para determinar o futuro do governo Bolsonaro. Tudo vai depender do resultado da economia, que caminha para uma brutal recessão e aponta para a falência da agenda neoliberal de reformas de Paulo Guedes. A hora é de mais Estado durante a crise econômica e sanitária: Dos Estados Unidos aos países da União Europeia as medidas adotadas, cada vez mais, são de caráter estatizante para tentar segurar o repuxo da crise econômica mundial.

4. Coronavírus: A depender do grau de expansão da pandemia no país, do número de vítimas, e das medidas de contenção adotadas pelo governo, que até aqui foram débeis, apesar do esforço do ministro da Saúde, a doença pode ser tornar um fator de alta combustão social e política -, contribuindo para a desestabilização do governo Bolsonaro.

5. As opções do establishment. Ainda em fase de especulações iniciais, exploratórias: a) Impeachment de Bolsonaro e a entronização de Hamilton Mourão; b) “Parlamentarismo branco” com o Triunvirato Neoliberal – Maia, Alcolumbre e STF – para seguir a agenda de Paulo Guedes sem Bolsonaro; c) Fechamento do regime (autogolpe) – governo de tipo bonapartista de Bolsonaro em aliança com os generais.

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6. Saída democrática da crise, com a falência do governo Bolsonaro: Esquerda dividida e ainda sem iniciativa política de monta. Pode ser capturada na teia do establishment e optar por alianças com setores dominantes tipo governadores ou ser tragada pela força do Triunvirato Neoliberal (defesa das instituições). Sem povo na rua, organizado e mobilizado, a esquerda será abduzida por alguma saída por cima, costurada pelo establishment.

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De todo modo, a experiência histórica indica que, em momentos de aguda crise social e humanitária, a política opera em circuitos de choques inesperados, fortuitos, e até disruptivos. (M.A).