Ataques a ônibus em Cascavel: a fumaça não pode nos cegar

Amanhã (4) completa-se uma semana de que cascavelenses viram de perto o que antes via-se apenas na televisão.

A fumaça dos ônibus incendiados na segunda-feira passada (28) arde nos olhos com os prejuízos calculados de R$ 600 mil – segundo as permissionárias do transporte -, muitos cidadãos prejudicados pela falta de ônibus, é verdade. Mas esta fumaça não pode nos cegar.

Um adolescente, Guilherme de Freitas (15 anos) , e um jovem, Cleiton Rafael Praste (25 anos), foram mortos enquanto tentavam praticar crimes. Os policiais, no instinto do que foram treinados a fazer, sacaram a arma e atiraram. A fumaça escondeu que há muita coisa errada nisso.

Os crimes devem ser punidos no rigor da lei da mesma forma que o episódio deve ser visto como o caso extremo de problemas sociais crônicos.

O cientista social, Fabiano Lombardi, que também é mestre em Educação e professor de Sociologia da rede estadual e também na PIC (Penitenciária Industrial de Cascavel) e na PEC (Penitenciária Estadual de Cascavel), nos provoca a fuga dos julgamentos rasos.

“De maneira alguma se deve endossar os crimes que ocorreram pois quem paga o prejuizo a população toda, principalmente a de menor poder aquisitivo e que depende do transporte público. As pessoas sempre tentam analisar e fazer julgamento individual de quem está mais certo ou mais errado. Acabam formando opinião e repetindo jargões como ‘o bandido bom é o bandido morto’”.

Nesse mesmo sentido, mistura-se os julgamentos de caráter dos envolvidos. Os comentários nas reportagens publicadas pela CGN (Central Gazeta de Notícias) estão aí para nos provar como a sociedade reage a tais episódios.

Expandindo esta reflexão, o advogado criminalista e cientista polítco, Marcelo Navarro, concedeu uma interessante entrevista ao Paraná TV sobre o assunto na terça-feira passada (29).

“Ninguém é favorável a esse tipo de resposta [fogo nos ônibus],ainda que as políticas públicas não sejam efetivas, ninguém se questionou sobre a morte do adolescente de 15 anos que entrou em uma casa apra roubar um carro. Essa é a consequência, e não a causa. A gente [Cascavel] não está isolado [desses problemas]. Pode acontecer com todos e em qualquer lugar e temos é que trabalhar para evitar esse tipo de problema”.

O professor Fabiano destacou ainda que exemplos como da semana passada, em termos gerais, responde a falta da cidadania e outras oportunidades que provocam consequências chocantes à sociedade.

“Isso é reflexo da ausência do Estado, da cidadania negada, da falta de uma escola que possa realmente produzir um futuro para a sociedade, capaz de ter uma perspectiva de futuro e uma vida melhor”.

Os estudos da sociologia desenham há muito tempo de que os ônibus em chamas são um exemplo clássico de que se o Estado falha a violência urbana toma conta.
Em 1998 o professor do Departamento de Sociologia da USP, Álvaro de Aquino e Silva Gullo, escreveu o artigo Violência Urbana, um problema Social à Revista Tempo Social sobre o assunto.

Ele explica porque fatos assim acontecem:

“A abordagem desse problema pode ser feita através da análise teórica que o considera como um processo social, um mecanismo social que é a expressão da sociedade, uma resposta a um sistema que se associa à forma de poder vigente onde a oposição entre dominante e dominado se reproduz de acordo com o contexto das relações sociais que o grupo desenvolve e, conseqüentemente, desemboca em medidas legais e jurídicas do próprio sistema.

E como as pessoas reagem:

“Por outro lado, a visão do senso comum ou popular aborda a violência como um mecanismo que resulta da experiência diária das pessoas, isto é, dois seres em luta, tendo em vista uma perspectiva moral, a injustiça dos destituídos e dos trabalhadores, algo concreto voltado contra um ser humano palpável, real e não contra um grupo ou classe definidos por meio de critérios políticos e econômicos.

A conclusão dele aplica-se a Cascavel e merece a reflexão.

“1. A violência é um fenômeno social inerente a qualquer tipo de
sociedade;
2. A forma sob a qual se manifesta reflete o tipo de sociedade e
mostra o seu significado nessa sociedade;
3. A violência depende, portanto, de estímulos provenientes da pró-
pria sociedade”.

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Fonte: Laís Lainy

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