Coluna do Ricardo Gomyde: A ética na política e a autopromoção politiqueira

 Ricardo Gomyde, em sua coluna deste sábado, critica o uso do debate sobre ética para fazer politicagem! no Congresso Nacional; colunista afirma que Senado e Câmara são utilizados para autopromoção politiqueira! em detrimento dos interesses da Nação; ...grande parte dos senadores está lá advogando interesses particulares!, pontua; Esses parlamentares pirotécnicos, pouco interessados em trabalhar pelos reais interesses do país, têm como conduta o falso moralismo!, observa Gomyde, que ainda cita Nelson Rodrigues; até "um paralelepípedo analfabeto, uma cabra vadia ou um bode de charrete" saberiam o real sentido do embate político que se trava atualmente no Brasil; leia o texto e compartilhe.

Ricardo Gomyde, em sua coluna deste sábado, critica o uso do debate sobre ética para fazer politicagem! no Congresso Nacional; colunista afirma que Senado e Câmara são utilizados para autopromoção politiqueira! em detrimento dos interesses da Nação; …grande parte dos senadores está lá advogando interesses particulares!, pontua; Esses parlamentares pirotécnicos, pouco interessados em trabalhar pelos reais interesses do país, têm como conduta o falso moralismo!, observa Gomyde, que ainda cita Nelson Rodrigues; até “um paralelepípedo analfabeto, uma cabra vadia ou um bode de charrete” saberiam o real sentido do embate político que se trava atualmente no Brasil; leia o texto e compartilhe.
Ricardo Gomyde*

Ter ou não ter ética? Eis uma questão que vem pontuando a campanha eleitoral e que precisa ser devidamente avaliada. A pessoa !” física ou jurídica !” que rompe com a lógica da sua função para favorecer determinado interesse pode ser considerada antiética, corrupta. E quem comprar tais favores pode ser considerado corruptor. O debate aprofundado sobre esse tema, portanto, pode ser incômodo para quem tem duas caras !” os que falam uma coisa e fazem outra.

O Brasil, desde que entrou em vigor a Constituição democrática de 1988, tem convivido em seu parlamento com crises de verdade e muitas firulas temperadas com arrogância, grosseria, ignorância e, mais que tudo, uma irrefreável vontade de aparecer. A função de deputado ou senador exige rigor moral, mas, quando o real interesse em denunciar “escândalos” reside muito mais na autopromoção politiqueira do que na vontade sincera de combater a corrupção, é bom parar e pensar.

Na teoria, a Câmara dos Deputados é a casa legislativa onde os anseios populares ressoam de maneira mais intensa. Nela, exageros de estilo podem ser mais facilmente tolerados. Algumas vezes, o comportamento dos deputados se situa no limiar da boa educação, mas não destoa necessariamente do script institucional. Ainda em teoria, o Senado deve ser o contraponto da Câmara; seu funcionamento deve ser mais recatado e austero. Uma de suas funções seria justamente moderar eventuais arroubos da Câmara. Mas é exatamente no Senado que a autopromoção politiqueira mais tem se manifestado.

à‰ claro que o estilo de cada instituição depende em grande parte da composição de forças políticas. Nosso Senado, infelizmente, ainda conta com uma formação pouco representativa; grande parte dos senadores está lá advogando interesses particulares em detrimento das necessidades do povo do estado que eles representam e do país. Foi assim que se configuraram, no Congresso Nacional, pororocas políticas que criaram verdadeiros vácuos no trabalho propriamente legislativo !” elas mal começam a aparecer e em pouco tempo desaparecem, como aqueles tufões do filme Twister.

Esses parlamentares pirotécnicos, pouco interessados em trabalhar pelos reais interesses do país, têm como conduta o falso moralismo. Para eles, tudo é crise, tudo parece o fim dos tempos. Crise para valer é aquela que tem começo, meio e um fim contundente e definitivo. O episódio de Watergate, nos Estados Unidos da década de 1970, não parecia uma crise quando começou, mas ganhou corpo e terminou com o afastamento do ex-presidente Richard Nixon. Essa foi uma crise de verdade, como foi a desatada no Brasil pelas denúncias de Pedro Collor de Mello contra o irmão presidente: ela não arrefeceu de uma semana para a outra, e só terminou com o impeachment de Fernando Collor.

O problema é que os interesses eleitoreiros anteciparam a campanha deste ano. A origem da corrupção certamente não está onde essa onda denuncista-eleitoreira tenta apontar. Sociedades inteiras podem viver ao lado do crime por muito tempo, fingindo tranquilidade enquanto a sujeira supostamente mora longe. Na Itália contemporânea, por exemplo, a máfia vivia na ante-sala dos melhores endereços.

à‰tica é um valor pessoal !” embora se possa falar também em ética da política, que nada mais é do que a soma das éticas das pessoas que a compõem. A ética é também um conceito inflexível, que não admite gradações. Ou você é ético ou não é. Ou seja: ninguém precisa sair por aí erguendo a bandeira da ética. A não ser para fazer politicagem.

Essa conduta hipócrita, na verdade, tem servido de desculpa para muita gente que não serve de exemplo para ninguém bater abaixo da linha de cintura. Como diria Nelson Rodrigues, até “um paralelepípedo analfabeto, uma cabra vadia ou um bode de charrete” saberiam o real sentido do embate político que se trava atualmente no Brasil. Ele revela os dois cenários do processo eleitoral de 2014: um democrático e popular e outro elitista e excludente.

*Ricardo Gomyde, especialista em políticas de inclusão social, foi membro da Comissão Organizadora da Copa do Mundo no Brasil em 2014. Escreve nos sábados no Blog do Esmael.

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