Manfredini lança hoje à  noite o livro “Memória de Neblina”

Memória de Neblina: sonhos e pesadelos nos anos de chumbo

Luiz Manfredini. Foto: Rodrigo Leal/Metro.

Três amigos quase cinqà¼entões se reúnem para ruminar sobre a trajetória que iniciaram ainda na adolescência. Nasce daí um painel do duplo desafio da juventude dos anos 60: os conflitos decorrentes da idade intermediária !“ nem são mais crianças, tampouco adultos !“ numa época de intensa efervescência cultural e comportamental, e os criados pela ditadura imposta ao País a partir de 1964. Assim se desenvolve o romance Memória de Neblina, que o jornalista a escritor Luiz Manfredini lança logo mais, a partir das 19 horas, no Palacete dos Leões, o espaço cultural do BRDE (Avenida João Gualberto, 570).

Luiz Manfredini é veterano jornalista em Curitiba e militante comunista há 45 anos. Trabalhou em O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e revista ISTOà‰, entre outros órgãos de imprensa. à‰ colunista do portal Vermelho e membro do Conselho Editorial da revista Princípios, editada em São Paulo.

Junto com o anterior, As moças de Minas (lançado em 1989 e relançado em 2008), Memória de Neblina compõe uma viagem aos sonhos e aos pesadelos de uma juventude que viu erguer-se diante de si a muralha da ditadura. Muitos desses jovens, inconformados, partiram para a luta, escrevendo assim um dos capítulos mais significativos da história política do Brasil.

Leia a seguir o primeiro capítulo de Memória de Neblina, oferecido com exclusividade ao blog:

EI, PROFESSOR, ESCREVA Aà!
Arqueava as sobrancelhas e espichava o queixo para a frente, debruçado sobre a mesinha e tão próximo de mim a ponto de inundar-me com o hálito morno de café e tabaco.

Estava lá a nossa turma marchando, professor, naquela esbórnia delirante do toca, toca o pau no Bielski.

E contou que estivera no colégio no dia anterior e aquela história, que só consegui perceber na amplitude de sua significação tempos depois, após relacioná-la com outras histórias e outras perquirições que viriam, por fim, devastá-lo e redimi-lo a um só tempo.

Ei, professor, escreva aí!, você vivia dizendo. Acho que foi uma das tantas coisas que herdou do Manoel José João de Souza. O Manoel José João de Souza! Fiapo de magro, empertigado e agastadiço, afogando-nos nas matemáticas e, vez por outra, em normas de conduta. Tempos atrás o encontrei num supermercado. Vislumbrei-o à  distância, velhinho espetado esquadrinhando prateleiras. Fiz questão de chamá-lo pelo nome completo, atestando memória e consideração. Professor Manoel José João de Souza! A voz trovejou exagerada feito comando militar, como ele gostava. E gostou. Perguntou por você, gaguejei notícia vaga.

Entre uma equação e outra !“ lembra-se? !“ ele dava aqueles passinhos curtos sem sair do lugar, ajustava a posição das calças com as costas das mãos para não manchá-las de giz, esticava o pescoço como que para aliviá-lo da pressão do colarinho e proferia sentenças. Prefiro que me chamem de professor que de doutor, dizia. Mais honroso. E chamava todos de professor, inclusive alguns dos seus alunos. Acho que foi daí que você pegou o hábito. Professor pra cá, professor pra lá. Ei, professor, escreva aí!

Lau estava mais inquieto que de hábito. Seu rosto emagrecia assustadoramente quando chupava as bochechas e arregalava os olhos ao sugar a fumaça do cigarro preso a dedos amarelados pela nicotina, agitando-se dentro do paletó folgado cujas ombreiras arriavam sobre os braços. Gesticulava com extravagância, vez por outra socava a pequena mesa, provocando marolas no café. Por pouco não arremessou ao chão a penca de livros de matemática e a pasta abarrotada de provas a corrigir que eu deixara sobre a mesa. No esforço da narrativa, esmerando-se por nos conduzir à  zoada daquelas marchas insubmissas, a respiração ofegava e, de quando em quando, tossia convulsivamente. O café estava atopetado e garçons cruzavam com habilidade de equilibristas os espaços exíguos entre as mesinhas, servindo aqui e ali, cobrando, anotando pedidos. Falava-se muito alto, o vozerio fervilhante quase impedia que se conversasse.

E aí, professor? Lau com as sobrancelhas arqueadas e o queixo espichado para a frente, e eu respirando seu hálito morno de café e tabaco e observando os espasmos do rosto afogueado. Então recordamos como marchávamos, farreando, naqueles finais de tarde, exagerando o vigor juvenil com que socávamos o chão de pedrinhas britadas com a potência dos nossos ásperos coturnos, erguendo poeira e mandando tocar o pau no Bielski.

4 Comentários

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