Recorte da pesquisa Genial/Quaest divulgada neste domingo (15) mostra que a campanha bolsonarista contra as urnas eletrônicas deixou cicatriz funda: 53% dizem confiar no sistema, mas 43% afirmam não confiar, um patamar alto demais para uma eleição presidencial que já nasce sob risco de contestação.
O levantamento foi realizado entre entre 5 e 9 de fevereiro, com 2.004 entrevistados em 120 municípios, margem de erro de 2 pontos e registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o nº BR-00249/2026.
O dado mais explosivo aparece no recorte político: entre quem apoia o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 78% confiam nas urnas. Entre apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a confiança desaba para 18%. Não é apenas opinião, é um mapa da polarização aplicado ao coração da democracia.
A pesquisa também acende alerta no recorte religioso. Entre evangélicos, 52% declaram não confiar nas urnas, contra 44% que confiam. Entre católicos, 57% confiam e 39% não confiam. Regionalmente, Sul e Centro-Oeste aparecem empatados entre confiança e desconfiança, enquanto o Nordeste registra maioria mais confortável pró-sistema.
Sem voto impresso, a desinformação migrou para outro terreno: a tentativa de instalar “dúvida permanente” como identidade política. O bolsonarismo entendeu que não precisa convencer a maioria, basta manter um contingente grande o suficiente para questionar derrota, pressionar instituições e tensionar a governabilidade.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vem se mexendo como quem lê o risco com antecedência. Em 17/12/2025, instituiu grupo de trabalho para revisar resoluções e preparar as regras das Eleições Gerais de 2026, sob coordenação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques, designado relator das normas.
Em no último dia 9 de fevereiro, a Justiça Eleitoral concluiu audiências públicas sobre as regras de 2026, num esforço para reduzir brechas e reforçar previsibilidade institucional.
Na quinta-feira (12), lançou campanha específica contra conteúdos falsos, apostando em comunicação direta para enfrentar o ecossistema que lucra com boatos, pânico moral e teorias conspiratórias sobre a votação.
Nos bastidores de Brasília, a leitura que circula entre lideranças partidárias é pragmática: o dado da Quaest não é só fotografia, é ferramenta de mobilização. A extrema direita tende a usar o 43% como combustível para manter a militância em estado de prontidão e, ao mesmo tempo, criar um álibi prévio para eventual derrota.
Para o campo democrático, o desafio é outro. Não basta repetir que as urnas funcionam. É preciso traduzir segurança em linguagem simples, disputar WhatsApp com fatos verificáveis e cobrar dos grandes partidos, inclusive do centro, um compromisso público com o resultado, sem flertar com o “depois a gente vê”.
O ponto cego é óbvio: quando metade do país vive em bolhas informacionais, a eleição vira também uma guerra de confiança. E confiança, uma vez corroída, não se recompõe com nota oficial, se recompõe com presença, transparência e responsabilização de quem espalha mentira.
A Quaest escancarou que o bolsonarismo não precisou provar fraude para causar estrago, bastou repetir a suspeita até ela virar identidade. Se o TSE e os partidos democráticos tratarem isso como detalhe de comunicação, vão entrar em 2026 com o terreno minado e com a democracia pagando a conta.
Em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, o velho Karl Marx dizia que a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




