O PT já trabalha com MDB e PSD fora da aliança nacional de Luiz Inácio Lula da Silva, mas vê nessa independência um freio ao avanço de Flávio Bolsonaro e uma vantagem para o presidente num campo adversário rachado.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva (PT-SP), já trabalha com a hipótese de MDB e PSD ficarem fora da aliança nacional pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026. A sinalização, consolidada neste domingo (29), empurra a costura para os estados e confirma que o campo de centro chega mais arredio à disputa presidencial.
À primeira vista, parece um revés para Lula. Politicamente, porém, o quadro é mais ambíguo do que sugere a manchete: se MDB e PSD não fecham com o petista no plano nacional, também não entregam automaticamente sua capilaridade ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje o nome mais visível do bolsonarismo para 2026.
Edinho foi direto ao reconhecer a mudança de rota. Segundo ele, as alianças com PSD e MDB devem ser construídas estado por estado, não mais numa coligação nacional, porque o PT precisa “respeitar as contradições” internas dessas legendas. O dirigente também sustentou que muitas lideranças desses partidos sabem o que estará em jogo na eleição.
Para os leitores do Blog do Esmael, isso não é surpresa. Em entrevista a este blogueiro, publicada em 15 de dezembro de 2025, o deputado Baleia Rossi (MDB-SP), presidente nacional do MDB, já sinalizava que o partido caminhava para uma posição de independência na eleição presidencial de 2026, sem alinhamento automático a qualquer candidatura. Na ocasião, afirmou que o futuro da legenda seria definido em convenção nacional, com participação da militância e dos diretórios estaduais. Em outras palavras, o MDB deve cozinhar essa definição até a temporada das convenções.
O dado importa porque o lulismo vinha tentando atrair ao menos o MDB para a chapa nacional, inclusive com acenos sobre a vaga de vice. Esse esforço não prosperou. O que sobra agora é uma engenharia regional, mais fragmentada, menos vistosa na foto nacional, mas ainda útil em palanques locais.
No PSD, o movimento já aponta para autonomia. Após a saída de Ratinho Junior da corrida presidencial, Gilberto Kassab passou a avaliar nomes próprios para a disputa, como Ronaldo Caiado e Eduardo Leite, sinal de que o partido prefere preservar margem de manobra em vez de se alinhar desde já a um bloco nacional.
No MDB, a lógica também é estadual. Em São Paulo, a articulação para manter o partido na vice do governador Tarcísio de Freitas praticamente enterrou a chance de apoio nacional a Lula, reforçando a impressão de que 2026 será decidido por arranjos regionais, não por uma grande frente de centro costurada em Brasília.
É aí que a conta eleitoral muda de sinal para o Planalto. Na matemática fria da campanha, cada partido de centro que não embarca no palanque bolsonarista já reduz o espaço de expansão de Flávio. Para Lula, perder a aliança formal é ruim; ver esses partidos independentes é bem menos danoso do que vê-los coesos do outro lado. Essa leitura ganha força porque a direita continua espalhada entre vários polos, com Flávio, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Tarcísio ainda ocupando o horizonte da sucessão.
As pesquisas ajudam a entender por quê. O levantamento AtlasIntel/Bloomberg publicado na quarta-feira (25) mostrou empate técnico entre Lula e Flávio num segundo turno, com 47,6% a 46,6%. Já o Datafolha, divulgado na sexta-feira (27), apontou Lula à frente entre eleitores de centro, por 31% a 17% no primeiro turno, além de 41% a 35% nesse segmento num eventual segundo turno, ainda dentro da margem de erro.
O que se desenha, portanto, é uma eleição mais fragmentada no centro e também na direita, contra um núcleo duro governista que segue organizado em torno da reeleição. O PT já percebeu que talvez não consiga ampliar muito sua frente nacional. Mas, se o adversário também não conseguir reunir MDB e PSD sob a mesma bandeira, Lula preserva uma posição vantajosa na largada, mesmo com uma disputa ainda apertada.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




