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Matéria originalmente publicada em 23 de julho de 2026 e atualizada em 29 de julho de 2026, após a cotação das 10h35, para incluir a nova escalada do petróleo e seus possíveis efeitos no Paraná.
O petróleo Brent subiu 6,8% e chegou a US$ 89,79 por barril às 10h35, horário de Brasília, nesta quarta-feira, 29 de julho, após a retomada de ataques no Oriente Médio e a promessa de retaliação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Irã. A alta reabre o risco de pressão sobre o diesel no Paraná, o frete e a safra estadual, mas não significa reajuste automático nas refinarias ou nos postos.
O movimento foi registrado pela Reuters às 13h35 UTC. No mesmo horário, o petróleo West Texas Intermediate (WTI), referência dos Estados Unidos, avançava 6,2%, cotado a US$ 84,20 por barril.
A causa imediata apontada pelo mercado foi a retomada de grandes ataques aéreos na região. Estados Unidos e Arábia Saudita atingiram grupos apoiados pelo Irã no Iraque depois de acusações de ataques contra instalações petrolíferas sauditas. O governo iraniano informou ter disparado contra embarcações no Estreito de Ormuz e contra bases norte-americanas na Jordânia.
A cotação acelerou depois que Donald Trump prometeu novos ataques de retaliação. A escalada derrubou a expectativa de encerramento próximo do conflito e manteve reduzido o tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, passagem estratégica para as exportações de petróleo e derivados do Golfo Pérsico.
O preço internacional também recebeu apoio da queda estimada de 3,3 milhões de barris nos estoques norte-americanos de petróleo na semana encerrada em 24 de julho. Esse número foi atribuído pela Reuters a dados do American Petroleum Institute e ainda aguardava confirmação pela Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos.
A alta de 29 de julho devolveu o Brent à faixa próxima de US$ 90, depois da trégua parcial que havia reduzido as cotações. O mercado continua volátil: ataques, negociações diplomáticas, circulação de navios, estoques e decisões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) podem mudar a direção dos preços em poucas horas.
Alta do Brent pressiona a conta, mas não determina reajuste
O petróleo mais caro amplia o custo potencial da matéria-prima e dos derivados importados, porém não existe transmissão automática entre a tela do mercado internacional e a bomba do posto. A formação do preço do diesel também depende do câmbio, dos estoques, dos custos de refino e logística, da mistura de biodiesel, dos tributos, das margens de distribuição e revenda e da estratégia comercial dos produtores.
A posição pública mais recente da Petrobras sobre o diesel, divulgada em 30 de junho, manteve em R$ 3,30 por litro o preço médio do diesel A vendido às distribuidoras. Na ocasião, a estatal reduziu seu preço em R$ 0,3515 por litro e suspendeu, no mesmo valor, o desconto temporário ligado à subvenção econômica federal. As duas alterações se compensaram.
A Petrobras afirmou naquele comunicado que sua estratégia comercial busca evitar a transferência imediata da volatilidade internacional à sociedade brasileira. A companhia não anunciou reajuste do diesel em razão da alta do Brent registrada em 29 de julho.
O valor de R$ 3,30 corresponde ao produto vendido pela Petrobras às distribuidoras, não ao preço final cobrado do consumidor. A própria estatal explica, em sua página sobre a formação dos preços dos combustíveis, que distribuição, revenda, tributos e mistura obrigatória também compõem a conta.
Isso separa dois fatos. O risco de custo aumentou com o petróleo perto de US$ 90 e com a insegurança em Ormuz. O reajuste, entretanto, dependeria de uma decisão comercial que não foi anunciada. Tratar a alta intradiária como aumento consumado nas bombas confundiria cenário com preço efetivamente praticado.
Repar liga petróleo, estradas e Porto de Paranaguá
No Paraná, a primeira linha de defesa industrial passa pela Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), da Petrobras, em Araucária. Segundo os dados operacionais oficiais, a unidade pode processar 33 mil metros cúbicos, ou 207.563 barris de petróleo por dia, e responde por aproximadamente 12% da produção nacional de derivados.
A Repar produz diesel, gasolina, gás liquefeito de petróleo, querosene de aviação, asfalto, coque e outros derivados. A refinaria destina 85% dos produtos ao Paraná, Santa Catarina, sul de São Paulo e Mato Grosso do Sul, o que transforma sua operação em peça estratégica para o abastecimento regional.
A unidade está conectada ao Terminal de Paranaguá pelo Oleoduto Araucária–Paranaguá (Olapa), ao Terminal de São Francisco do Sul e a bases de distribuição instaladas em Araucária. Essa estrutura reduz distâncias dentro do sistema regional, mas não isola o Paraná das cotações internacionais, do câmbio ou da necessidade brasileira de importar parte do diesel consumido.
Em 2023, último dado anual específico de diesel divulgado na página institucional da estatal, a Repar produziu mais de 5,7 bilhões de litros de diesel. Desse volume, 2,6 bilhões de litros foram de Diesel S10. O dado mostra a capacidade da refinaria, mas não permite concluir que exista estoque suficiente para neutralizar uma crise prolongada de oferta ou de preços.
O diesel atravessa toda a economia paranaense. Abastece máquinas agrícolas, caminhões, cooperativas, frigoríficos, granjas, transportadoras e veículos usados na movimentação de insumos. Se houver aumento efetivo e persistente, o custo pode aparecer na colheita, no transporte de animais e ração, no deslocamento de grãos e no frete contratado para levar a produção até Paranaguá.
O impacto no porto decorre da escala rodoviária. O pátio de triagem de Paranaguá recebeu mais de meio milhão de caminhões em 2025, conforme já mostrou o Blog do Esmael na cobertura da MP do Frete e seus efeitos sobre caminhoneiros e cooperativas. Quando o combustível encarece, transportadores tentam recompor contratos; embarcadores calculam margem, janela de entrega e competitividade; produtores recebem a conta na negociação da safra.
A exposição brasileira também não desaparece com a produção da Petrobras. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), citados na análise do Blog sobre a dependência de diesel importado, mostraram que o produto estrangeiro representou 24,75% das vendas nacionais de diesel A em abril de 2026.
Uma crise prolongada no Oriente Médio pode atingir essa parcela por diferentes caminhos: preço do derivado, frete marítimo, seguro dos navios, disponibilidade de carga e câmbio. A intensidade dependerá da duração do conflito, da circulação por Ormuz, da resposta de outros produtores e da capacidade de refino e abastecimento no Brasil.
O Paraná já enfrentava uma segunda vulnerabilidade ligada ao Golfo Pérsico: os fertilizantes. Paranaguá e Antonina receberam 11,61 milhões de toneladas desses produtos em 2025. A cobertura sobre o risco de Ormuz para diesel, frete e adubos mostrou que o porto é uma das principais portas de entrada dos insumos utilizados pelo agronegócio brasileiro.
A alta de 6,8% do Brent, portanto, exige acompanhamento, não profecia. Os indicadores decisivos serão a duração dos ataques, o fluxo de navios em Ormuz, o câmbio, os estoques nacionais, as importações, a operação das refinarias e os próximos comunicados da Petrobras. Sem anúncio da estatal e sem levantamento dos postos, não há base factual para afirmar que o diesel já subiu no Paraná.
Acompanhe o Blog do Esmael para novas informações sobre petróleo, Petrobras, preço do diesel e os efeitos do conflito no frete e na safra paranaense.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




