O novo Datafolha, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-03770/2026, vai a campo entre terça-feira (7) e hoje (9), ouvirá 2.004 eleitores de 16 anos ou mais e poderá ser divulgado a partir de sábado (11). Trata-se da primeira fotografia do instituto depois do fechamento da janela partidária, das filiações e das desincompatibilizações que reposicionaram a corrida presidencial de 2026.
O questionário mostra que o instituto não quer medir só quem está na frente. O Datafolha decidiu entrar no nervo do momento político: intenção de voto, avaliação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), desgaste do Supremo Tribunal Federal (STF), percepção pública sobre o caso Banco Master, dívida das famílias e efeito da guerra sobre economia, comida e eleição.
No cartão principal desta rodada aparecem Lula, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), Aldo Rebelo (DC) e Cabo Daciolo (Mobiliza). O questionário também traz simulações de segundo turno entre Lula e Flávio, Lula e Caiado, Lula e Zema. Em março, o instituto testava outros arranjos, com nomes como Ratinho Junior (PSD) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) em cenários estimulados. Agora, a moldura mudou.
A mudança de moldura não caiu do céu. Desde fevereiro, o caso Banco Master avançou dentro e fora do STF: Dias Toffoli deixou a relatoria, André Mendonça assumiu o inquérito e, em 18 de março, prorrogou por 60 dias a investigação da Polícia Federal (PF). As apurações preliminares tratam de fraudes que podem chegar a R$ 17 bilhões.
Na quarta-feira (8), o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, disse em audiência no Senado que Lula afirmou a Daniel Vorcaro, em 2024, que o Banco Master seria tratado tecnicamente pela autoridade monetária. Galípolo também declarou que não tratou depois do assunto com o governo nem com ministros do STF. Isso ajuda a explicar por que o Datafolha resolveu pôr o Master no miolo da pesquisa, não como nota de rodapé.
O questionário vai direto ao ponto. Ele pergunta se o eleitor tomou conhecimento das suspeitas de envolvimento de ministros do STF com o caso Master, se acha que há ministros envolvidos e, mais adiante, se os políticos alcançados pelo escândalo são majoritariamente de esquerda, de centro ou de direita. Noutra frente, mede se o Supremo tem poder demais, se segue essencial para proteger a democracia e se a confiança na Corte caiu. É pesquisa eleitoral com termômetro institucional acoplado.
O levantamento também captura a vida real fora de Brasília. O Datafolha pergunta se a situação financeira da família melhorou ou piorou em um ano, se o entrevistado está mais endividado do que em abril de 2025, qual dívida pesa mais e se ele acredita que conseguirá pagar o que deve. Quando o questionário chega a cartão de crédito, cheque especial, consignado, empréstimo pessoal e bets, ele entra onde o voto costuma ranger antes de virar.
Não é de somenos o interesse cruzado do Datafolha com os oligarcas do sistema financeiro, pois as casas bancárias estão de olho no FGTS, o fundo de garantia dos trabalhadores, sob a alegação de reduzir o endividamento das famílias. Na prática, trata-se de pressão por um pacote de bondades para a Faria Lima. É o jabuti dos ricaços na pré-campanha eleitoral, ao invés de reduzir a taxa de juros.
A guerra também entrou inteira no formulário. O instituto quer saber se o eleitor ouviu falar do conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, se é a favor ou contra os ataques e qual o impacto dessa guerra sobre o Brasil, a economia, os preços dos alimentos e a eleição presidencial. O Datafolha, portanto, está medindo se o eleitor conecta geopolítica com o preço da feira.
Esse elo não é gratuito. A Reuters informou em 8 de abril que, mesmo com a trégua de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, os preços dos combustíveis seguiram elevados por causa do prêmio de risco geopolítico, do custo de seguros e das restrições persistentes no Estreito de Ormuz; no diesel, a pressão continuava particularmente forte. No dia 9, a própria Reuters noticiou que o Goldman Sachs reduziu sua projeção para o Brent no segundo trimestre, para US$ 90, mas manteve o alerta de que o barril pode voltar a subir com força se a trégua fracassar.
Há ainda outro dado político importante. O questionário revisita o voto de 2022, mede arrependimento, pede que o entrevistado se situe numa escala entre bolsonarista e petista e em outra entre esquerda e direita, além de perguntar preferência partidária. Depois da janela, o instituto quer saber se houve só troca de legenda no alto da política ou se alguma coisa realmente se moveu na cabeça do eleitor.
Esta rodada do Datafolha não mede apenas intenção de voto. O questionário foi montado para aferir se a disputa de 2026 já está sendo atravessada pelo caso Banco Master, pelo desgaste do Supremo Tribunal Federal, pelo aperto no orçamento das famílias e pelo impacto da guerra sobre combustíveis e alimentos. No sábado, os números vão mostrar o tamanho dessa pressão sobre a corrida presidencial.
Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




